Publicado desde 1969
Fundado por José Carlos Tallarico

O ser humano e a esperança: reflexões sobre o nosso tempo

Tentei fugir, fingir que não era comigo. Mas, como alguém que gosta de escrever e tem como inspiração o mundo que sangra em profundos sentimentos, não posso e não me dou o direito de me abster desse assunto neste importante momento. Mesmo não tendo conhecimento profundo sobre esse tema, propus-me a escrever.

Infelizmente, a política passou a ser aquilo que estamos acompanhando pela imprensa. Projetos, planos de governo e tudo o que, direta ou indiretamente, nos diz respeito não foram discutidos. Uma campanha vazia, em que as propostas deram lugar às acusações, em uma pobreza de ideias, mas rica em hipocrisias, demagogias e mentiras que alimentam o jogo do poder. Nada que cause espanto ou estranhamento, apenas um retrato desse lamaçal em que mergulhou a nossa política.

O fazer política não pode ser um meio para garantir vida boa para alguns privilegiados. Pelo contrário, deve ser um ato de vontade daqueles que optaram por fazer desta atividade um instrumento para a edificação de uma sociedade cuja premissa fundamental seja a construção de um novo tipo de relação entre as pessoas, em que a ética, o respeito às diferenças e, fundamentalmente, o desenvolvimento econômico aliado à distribuição de renda sejam elementos essenciais para diminuir as desigualdades sociais.

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Quando a sociedade julga que seus governantes não estão administrando bem o Estado, ela tem o direito e o dever de reclamar, e essa reclamação nós também chamamos de política. Ou seja, fazemos política quando nos interessamos pela forma como são administrados os bens públicos, quando nos organizamos para reivindicar nossos direitos de cidadãos, quando escolhemos os políticos que vão nos representar no governo e quando cobramos deles o cumprimento das promessas que fizeram para se eleger.

Nossa participação na sociedade, convivendo nela, dá-se por meio de relações políticas. Estamos sempre tomando decisões que, direta ou indiretamente, influenciam nossa vida como sociedade e como comunidade. No entanto, a política em nosso país é marcada pelo fisiologismo, essa relação entre o poder político e decisões que podem favorecer grupos ou bases aliadas em troca de interesses particulares, em detrimento do bem comum. Essa prática, quando ocorre, alimenta uma lógica que pode transformar a política em uma negociata, algo que acaba sendo tratado como praxe.

Vou me ater ao que escreveu Aristóteles, para quem o ser humano é, por natureza, um animal político, ou àquilo que escreveu Thomas Hobbes, séculos depois, ao retomar a conhecida ideia de que o homem pode ser lobo do homem. Sob qualquer um desses fundamentos, chegamos a algumas conclusões semelhantes: a necessidade de organizar, disciplinar e fomentar o desenvolvimento do ser humano como uma premissa fundamental para a ação daqueles que são legitimados politicamente para conduzir o Estado. Foi nessa dinâmica, na livre circulação das ideias, que homens e mulheres, em um processo histórico e evolutivo, chegaram ao formato contemporâneo dos Estados nacionais.

Maquiavel aguça minha inquietude, levando-me a pensar que a política também pode ser compreendida como um jogo marcado pela disputa de poder, no qual as regras nem sempre favorecem aqueles que estão fora dos círculos de poder. Ética? Moral? Atualmente, essas palavras parecem muitas vezes distantes do mundo político. Será que sempre foi assim?

Maquiavel mostra como a busca pelo poder pode revelar aspectos sombrios e contraditórios do ser humano, especialmente quando este se encontra revestido pelo poder. Em O Príncipe, descreve como o governante deve agir para conquistar e manter o poder. São ensinamentos que, muitas vezes, aparecem escondidos em discursos cheios de efeitos e capazes de ludibriar, mostrando, na prática, como a disputa política pode ser permeada por interesses, contradições e conflitos.

O pensamento político de Platão e Aristóteles aponta para diferentes formas de pensar o ideal político, a política como deveria ser. A política, como ação humana, é essencial para a convivência em sociedade.

Viver em sociedade não foi um acaso do destino ou um acidente da história. Pode ser entendida como um longo processo em que homens e mulheres perceberam que, ao se juntar, poderiam desenvolver mecanismos coletivos para a solução de seus problemas. No fundo, foi o reconhecimento de que a vida isolada, cada um cuidando de suas necessidades particulares, sem nenhuma interação com seus semelhantes, não ajudava na resolução das necessidades comuns e que, por outro lado, ao juntar-se, a somatória de esforços e a complementaridade de experiências poderiam superar limitações e elevar a outro patamar as condições objetivas de resolução para suas aflições do dia a dia: paz, segurança, alimentação, saúde, cultura, enfim, uma crescente melhora na qualidade de vida, construída com igualdade, sem castas e sem preconceitos.

Fingir ou fugir da realidade não nos estabelece como artífices do nosso tempo, como construtores de um mundo para todos. Que sejamos sonhadores, mesmo assombrados pelos pesadelos de uma nova ordem mundial, orquestrada por novos poderes e pelos autoritarismos do nosso tempo. Sonhar com noites claras não é ter medo do escuro, e sim ser chamas de esperança que jamais se apagarão.

Luiz Carlos de Proença – Autor dos livros: A pele do vento e Humana poesia

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