Publicado desde 1969
Fundado por José Carlos Tallarico

A sinopse de uma ficção

Era algo parecido. Um texto que tecia a beleza da face oculta, como um álbum de fotos abandonado em um arquivo imaginário. No ápice da estupidez, as patas da barata e o veneno do escorpião. E, sob a profundidade vazia que submerge tronos e púlpitos, uma retórica alimentada pela superficialidade. São palavras deixadas às margens de um texto — talvez reticências absurdamente descontextualizadas.

Um texto vazio de uma mente alimentando inquietações. Palavras rasas com sentidos difusos. Assim como as páginas em branco morrendo de fome, mesmo próximas ao dicionário. Os dias passam pesados e as flores riem às margens de um infinito, compondo noites escuras. E, ainda que esse texto não tenha nenhum sentido, escrever é preciso — ecoando o antigo lema náutico que Fernando Pessoa tomou para si: navegar não é preciso, viver não é preciso, mas criar e escrever são exigências da alma. Escrever o tempo nas páginas da existência. Ultrapassar o próximo parágrafo e pensar logo na próxima frase para completar a falta de sentido.

Na crônica dos dias, caminhar por caminhos diferentes é fazer a lição de casa. No romance do acaso, a sinopse é uma ficção. Personagens desconhecidas em climas favoráveis. Por que a poesia quer ser personagem? Não se sabe, talvez nem acredite; e, se assim for, não faz nenhuma diferença. Tudo pode acontecer. Amanhã sempre será um novo dia. O senso do pensamento comum não quer se aprofundar, prefere a superficialidade.

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Será que escrever sobre política e outros assuntos irá qualificar esse texto? Encher os vazios deixados pela falta de criatividade ou de conhecimento do autor? Creio que sim, pois a política se enquadra em qualquer cenário. Será? Atualmente, falar de política e criticar os políticos passou a ser um assunto corriqueiro. Será que há mais interesse ou estamos mais politizados? Ou será porque a política está banalizada? A relação entre o político e a política rende bons debates. Se a política está banalizada, será que a culpa é dos políticos? E nós, como sociedade, como nos colocamos nesse cenário? Talvez, como Hannah Arendt bem observou, o perigo real reside no desaparecimento do espaço público e na perda da nossa capacidade de agir em conjunto. Mas esse texto não é sobre política; não é sobre nada.

Imaginando alguma frase para delinear uma nova ideia para compor o próximo parágrafo. Não tenho a pretensão de deixar nenhuma mensagem. São fragmentos embutidos em embalagens de jornal com velhas notícias de guerras atuais. São rastros perfeitos deixados em caminhos pedregosos. E, sob a luz que encobre a noite, a nossa imperfeição desenhada na palma da mão.

A brisa e o fascínio entre a nascente e o poente da nossa miséria humana. Como poeta do acaso, versos que atravessam os corações para se alojar no âmago da alma humana. As dores da noite e o alívio das manhãs sobre rochas transparentes que fundam a nossa existência. Filósofo das esquinas em nômades pensamentos, tateando o absurdo da existência de que falava Albert Camus, onde a busca humana por sentido colide com o silêncio inexplicável do mundo. A profundidade na beira do absurdo, na razoabilidade que campeia paisagens no ápice do amanhã.

O futuro pode ser agora. Os traços tortos de um verso linear escondido entre a neblina que enche de esperança um sonho quase desfeito. Fugir da mata escura e se perder nas incógnitas de si mesmo. A poesia adormeceu, e os dias amanheceram tantas vezes que até o poeta esqueceu.

Depois do sonho, o mundo pode ser o mesmo, sob outros olhares. Já é noite, mas as portas ainda estão abertas. O relógio esqueceu de contar o tempo, que se escondeu atrás do sol.

Vou terminar esse texto antes que esqueça a janela aberta. Entre palavras vazias, os fluidos de um amanhã distante, querendo entrar. Um instante; depois de alguns momentos, um gole de água enche o copo vazio. O sono perfeito e o sonho do mundo instigado pela neurose humana. A fruta podre e a mesa vazia. Não fuja, não finja: a história, como nos alertou Walter Benjamin, é sempre escrita pelos vencedores, mas a poesia insiste em recolher os estilhaços dos esquecidos.

Luiz Carlos de Proença. Autor dos livros: A pele do vento e Humana poesia

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