Aquecimento global pode fazer com que o número de descargas aumente em até 40% até o fim deste século
O Brasil é o campeão mundial em incidência de raios, com surpreendentes 78 milhões de eventos anualmente. Um levantamento inédito do Grupo de Eletricidade Atmosférica (Elat) do Instituto Nacional de Espaciais (Inpe) revela o impacto desse fenômeno: na última década, foram 266 hospitalizações e 830 mortes em decorrência das descargas elétricas.
As fatalidades vêm diminuindo, tendo reduzido de 101 em 2013 para 68 em 2022, mas o Brasil ainda é responsável por um em cada 50 óbitos que ocorrem em todo o mundo. Especialistas consideram o número alto, sendo o dobro do contabilizado na República Democrática do Congo e o triplo do registrado nos Estados Unidos, países que ocupam o segundo e o terceiro lugar no ranking de descargas atmosféricas, respectivamente.
Entre todos os casos, 27% ocorrem com pessoas em áreas abertas no meio rural e 24% com pessoas abrigadas em suas residências, mas em contato com objetos ligados à rede elétrica ou a rede telefônica. Os estados do Pará (88), do Amazonas (78) e de São Paulo (77) foram os que registraram o maior número absoluto de óbitos, mas analisando proporcionalmente ao total da população, Tocantins e Amazonas lideram o ranking, com mais de 2 mortes por milhão de habitantes – uma proporção mais de 10 vezes superior à observada em São Paulo, onde a razão ficou em 0,19 por milhão de habitantes.
A incidência de raios por região tem um papel nisso, já que a faixa norte é a mais atingida, mas para o coordenador do Elat, Osmar Pinto Júnior, a falta de educação a respeito das maneiras de se prevenir é a principal responsável por esses números. “A internet melhorou muito o acesso à informação, mas, no Brasil, mais de 30 milhões de pessoas ainda não têm direito a esse recurso, e, por isso, parte delas não sabe como se prevenir”, afirmou a VEJA.
A proximidade à rede de saúde e aos centros urbanos também tem um papel importante. Apesar do maior número de mortes, Amazonas e Tocantins registraram apenas 14 e 7 hospitalizações ao longo dessa década, em comparação com 48 protocoladas em São Paulo.
O fenômeno também tem um impacto sobre a agropecuária, tendo sido responsável pela morte de mais de 3.200 cabeças de gado ao longo da última década, um número quase 4 vezes superior aos óbitos humanos.
Como se proteger
As descargas elétricas são mais frequentes na região equatorial e o Brasil, como maior país dessa faixa do planeta, é o principal alvo dessas descargas. O aquecimento global deve tornar esses eventos ainda mais comuns – de acordo com o Inpe, espera-se que até 2100 o número de raios possa aumentar em até 40%, ultrapassando os 100 milhões anualmente.
Osmar Pinto explica que, apesar do aumento dos raios, o número de mortes pode diminuir com o maior acesso à informação. A melhor maneira de se proteger é procurar abrigos, dentro de casas, prédios ou construções subterrâneas, como o metrô, sempre distante das redes elétrica, hidráulica e telefônica. Procurar proteção dentro do carro também pode ser uma possibilidade segura.
Caso não haja abrigo nas proximidades, o mais ideal a se fazer é ficar agachado, com os pés juntos, longe de pontos altos e objetos metálicos. Em caso de praias ou piscinas, não se deve permanecer dentro da água ou na faixa de areia, nem tampouco procurar abrigo sob guarda-sol, tendas e quiosques.