O que será que o mundo tem a falar? A roda que move o moinho de vento continua girando, mesmo sob o vento contrário. O que será que o mundo tem a dizer?
O mundo pode ser uma bola rolando em busca da imaginação de um mundo perplexo diante da própria imagem. Distante, em cores retumbantes, bandeiras abraçam o vento e o gol explode em silêncio. Pés descalços, cabeças pensantes e mais um triunfo entre alegrias alucinadas e tempestades momentâneas. Gritos no escuro, estradas sem saída e cubículos sob a luz de vela.
O jantar está na mesa, e o vazio do lado de fora grita para que a lua não pare de clarear. O mito, a mitologia e um desenho animado na TV. O gato que foge do rato e um pássaro em voo incerto. As palavras, aleatoriamente, formam frases e escrevem nos muros como sinônimo de liberdade. A fruta madura, flores no jardim e o rio que enche de imaginação o quarto escuro de uma casa abandonada.
Debaixo do céu azul, a terra é seca; mesmo assim, o mato cresce entre ervas daninhas e a banalidade do paraíso — como se Eclesiastes ainda sussurrasse que tudo é correr atrás do vento. O vento escuta uma canção. É só o sol. E, se for chuva, durma o sonho à noite inteira. Depois, são quintais, flores em outras margens, águas de outros rios. Debaixo do olhar, resquícios de lágrimas e um coração repleto de sentimentos. Escuto o vento e viajo em outra canção. Repousa-se entre o silêncio o pouco que ainda há, mesmo que seja resto do que ainda está por vir.
O sangue mancha a terra entre os escombros das verdades escondidas. O café, o chá, as águas das tormentas e os absurdos do nosso tempo. O sistema retroalimenta os esquemas que se fazem ao ar livre entre as paredes da iniquidade. O monstro das noites escuras e o forasteiro da terra de ninguém. Ao longo da estrada, uma encruzilhada: segue-se por qualquer direção — como se em cada escolha ecoasse um fragmento do absurdo descrito por Albert Camus. Depois, não se sabe — são noites trancadas entre os abismos.
Árvores de cristais, e os dias seguem sonolentos. A lua, em noites plácidas, segue o sol em meio à chuva ácida. A dor do sempre, a perda e a busca sob as cores artificiais do arco-íris pragmático, enfeitando a vitrine das cidades perdidas. Entre avenidas e becos, o progresso sucateado sob as cifras de um mundo atmosférico. As horas que antecedem o próximo espetáculo debaixo da lona celeste: malabaristas do caos. O beijo e a saliva do morcego alimentam aves que pousam sobre árvores secas.
Em linhas horizontais, paralelas, em peles rústicas e quintais de flores de plástico. As colinas em seus profundos silêncios, aquecidas por sóis de âmagos adormecidos. A beleza inusitada transfigurada nas faces das tardes que desejam a eternidade. O fogo aceso queima as impurezas das perfídias ambulantes da austeridade humana. O gosto amargo, o suco azedo e um drinque de vaidade. As mãos do invisível e o som da noite em sublime canção.
Às vésperas do próximo instante, pousam sobre a mosca e adormecem os momentos que já se passaram. O leite derramado e a água fervendo aquecem a consciência e desaceleram o olhar que quer ver o desenho do amanhã. A cúpula dos lordes e o reino das migalhas. Uma frase de efeito, o otimismo nos próximos capítulos. Um livro adormecido entre memórias e lembranças. O tempo trancado na cápsula vazia de uma certa manhã, sentado às margens da imaginação.
O que será que o mundo tem a falar? A voz de quem quer ouvir. O tormento dos dias que ainda não passaram. O teor das telhas quebradas que gotejam sobre as cabeças dos desassossegados. O sabor da água da chuva ao som dos vitrais de um vento frio. Os desejos acumulados e os sonhos não realizados. O desamparo das futilidades e o cinismo imediato para dizer algo irrelevante diante do essencial. O pano remendado que limpa o chão sujo na palidez das paredes emboloradas. O canto em voz silenciosa e o arrebatamento das borboletas. Uma pausa para rir da solidão e se encantar com os versos de um mundo lá fora.
O que falar ao mundo de todos os percalços e obstáculos que impedem a criação do futuro sem imitar o passado? Das dores da humanidade, frutíferas em guerras e conflitos. Os parlamentos, as assembleias e os embates de uma busca inglória. Corre-se atrás do vento — como quem atravessa o sentido e retorna ao vazio descrito em Eclesiastes — em busca de alfazemas e da essência dos novos dias.
É um pouco da imaginação costurando, com a linha do horizonte, os próximos passos de um infinito que teme o próprio término. Lápis e papel para desenhar o contorno de um sonho que ainda continua distante. Mesmo à distância, há algo que parece próximo e próspero. Deixe as mãos afagarem as faces do coração. Não teime, não ouça o barulho do lado de fora. São sonhos caminhando, prestes a acordar. Não importa que a noite seja escura. Amanhã talvez seja sol — ou apenas outra sombra aprendendo a amanhecer.
Luiz Carlos de Proença – Autor dos livros: A pele do vento e Humana poesia



