Há tempos venho indagando, àquele que se considera cristão, qual o motivo de haver tanto orgulho nas relações, com pessoas “infladas” (cheias de vento), de difícil convivência, sempre defendendo e colocando o ego no centro de tudo, com a visão distorcida de si mesmo, tumultuando ambientes, causando desavenças e separações. Mas não foi justamente este pecado a causa da queda dos anjos?
O orgulho esconde, na realidade, uma aversão a Deus. Creio ser fácil identificarmos pessoas arrogantes, costumam ser autossuficientes, não ensináveis (acham que sabem tudo), não escutam o que o outro diz, por vezes, usam o sarcasmo, não admitem seus erros, nem pedem desculpas. Porém, o difícil é reconhecermos o orgulho escondido em nós mesmos, desvendarmos a cegueira espiritual que habita em nós e que é uma porta de entrada para diversos males, doenças, assim como o afastamento da presença de Deus.
Sempre disse aos quatro ventos o quanto abomino o orgulho (e a avareza) e não achei que fosse orgulhosa, até me deparar novamente com os textos de São Tomás de Aquino. A leitura revelou diversos pontos de orgulho que, para minha surpresa (e infelicidade), estavam escondidos ao meu olhar e reconheci em mim mesma.
Geralmente, o que achamos de nós e o que o outro vê não corresponde à realidade e posso dizer que isso se confirmou para mim, pois, ao examinar meu comportamento compreendi pontos de orgulho que sequer imaginava.
Assim, na esperança de, primeiramente, modificar a mim mesma, vou destacar alguns pontos importantes. O orgulho é a raiz de todos os males e se beneficia da invisibilidade. Pode aparecer na revolta contra Deus diante da morte, de doenças e sofrimentos; na ira desmedida ao reagir com agressividade quando as coisas não saem do seu jeito; em blasfemar, agredir as pessoas verbalmente, causando tumulto e sofrimento ao redor; na visão deturpada sobre a sua importância ou em superestimar dons e habilidades; em não aceitar opiniões diferentes, dominando as conversas na tentativa de impor suas crenças.
Repare também que poucas pessoas se interessam em ouvir, parecem estar sempre prontas para falar de si.
Até aqui talvez tenha revelado apenas o óbvio, mas o que me instigou foram as questões ocultas do orgulho, como a busca pelo perfeccionismo para obter reconhecimento das pessoas ou aprovação própria; falar demais, dominar as conversas; direcionar o assunto sempre para suas histórias ou sucessos; obsessão com o que os outros pensam, agindo para agradar pessoas ou pelo medo da rejeição; atitudes e compras desnecessárias para ser o centro das atenções, na ostentação de bens ou o ato de isolar-se, em não se abrir verdadeiramente com ninguém para não se expor (esconder fraquezas).
Note que o orgulho pode permanecer no campo de invisibilidade, pois, dificilmente enxergamos sua ação quando estamos envolvidos nas relações cotidianas. Muitas famílias carregam tradições entrelaçadas por “pecados de estimação” que parecem perdurar por gerações e gerações… Atitudes que vão se repetindo e perpetuando no tempo. Alguns autores revelam que são vários tipos de demônios que acompanham determinados padrões de comportamentos. Pode ocorrer no apego aos bens, no acúmulo de coisas, na dificuldade em compartilhar, exprimindo avareza; no uso de drogas ou o alcoolismo, vícios em jogos de azar ou em ambientes em que se acostumam (conformam) aos padrões de sarcasmo, com a crítica e a competição, com pessoas sempre envolvidas em litígios e propensas à confusão e à falta de perdão. E onde há a confusão não há espaço para Deus.
E, independentemente do que vivenciamos, se temos em nós comportamentos que ferem, causam sofrimento ou separação, como rompermos com estes padrões? Será que temos a coragem necessária para reconhecermos em nós o quanto há de soberba e nos perguntarmos “quem somos de fato”? Como reagimos ao sermos confrontados por pessoas que pensam de forma diferente? Como respondemos a alguém que nos trata com grosseria ou de forma injusta? Conseguimos devolver amor àquele familiar que nos parece mais difícil, em que não vemos gratidão ou nos ofende por coisas pequenas ou sem sentido?
Se desejamos a mudança, diversos caminhos podem auxiliar: leituras de bons livros, palestras e oratórias espirituais, profissionais da saúde, mas, precisamos, principalmente, da Graça de Deus. Em oração, buscar o auxílio do Sacramento da Confissão (Penitência), termos a coragem de expor e confessar nossos pecados e, em humildade, pedir perdão e se possível reparar o erro para que possamos receber a cura e a libertação (o soberbo dificilmente confessará seus erros).
O antídoto para a soberba é a humildade: sermos rápidos em reconhecer nossos erros, pecados, pedindo ao Espírito Santo que nos mostre onde estamos falhando e assim trabalharmos por mudanças concretas.
E ainda: para não nos assemelharmos aos fariseus – aos sepulcros caiados!
Professora Drª Maria do Carmo Lincoln Paes. Pianista, Graduada em História; Pós-graduação em Filosofia; Mestre em Educação e Doutora em Educação. Email: carmolincoln@gmail.com



