Escuta, você ouve o silêncio de um sentimento? O que o dia quer do tempo que nos espera? O tempo esperando de mãos dadas com a ausência. Diz que o céu é azul. A tempestade já se acalmou; daqui a pouco vem o sol. Não há desespero; talvez a esperança esteja um pouco distante, é somente isso.
Deleita-te com o sabor dos inesquecíveis momentos e saboreia os instantes no verso que perfaz o ser. No amor que inspiram esses versos. E nos versos que poetizam o amor em todos os momentos, extasiando-se com a terra, com a semente e com o fruto que alimenta o corpo e nutre a alma.
Antes que o dia acabe, leia a poesia da vida. Beba em seus versos, alimente a fome e depois feche a porta e deixe o mundo extasiar em sublime silêncio. Não precisa falar nada, apenas dorme as noites que virão.
Nesses dias, esses momentos em um dia qualquer. Como assim? Não sei. Qual é a pergunta? Também não sei. Quero dialogar com o nada. Mas, como tantas vezes nos alertaram os filósofos da existência, o nada não está disposto a conversar. Estou aqui escrevendo alguma coisa, algo que vem à mente. Talvez escrever sobre tudo, ou talvez escrever sobre o nada.
Às margens dos rios, tal qual as águas de Heráclito em seu eterno fluxo, em fortes correntezas que levam consigo o amor e o ódio de um mundo em decomposição. O poder dos tiranos e o império da força na contumaz inglória de um patriotismo decadente. A força dos fracos e a coragem foragida nos campos de covardes entrincheirados. A bandeira do caos e os dias que nunca amanhecem nos jardins abandonados.
É um sentimento que sempre se regenera. E a poesia se manifesta em tempos turbulentos. Sonho, poesia e utopia. Sonhar para sempre um sonho de uma vida profundamente vivida e celebrada no verso que perfaz muros e quintais, perpassando corações e mentes num sagrado manifesto pela vida.
Palavras entorpecidas e o que sobrou de ontem alimenta o amanhã. Em momentos de plena serenidade, uma solene canção sublima os sonhos de um tempo que está por vir. Entre lágrimas e sorrisos, somos nós que caminhamos, e muitas vezes sem saber o sentido do nosso caminhar.
Das noites efêmeras, o coquetel de saudade sob os versos esquecidos. Penso no mundo, nos mistérios da vida e no vasto universo. A fome quer ser saciada; a sede fica para depois.
Talvez seja algo que esteja longe, em direção ao qual meus passos caminham; resta o caminhar. Às vezes as flores caminham ao meu lado, outras vezes os espinhos me fazem doer. Timidamente avançam os ponteiros do imaginável relógio — esse eterno vigia do desassossego. Assim se faz o tempo nos próximos segundos. E desfazem-se as palavras numa quase eternidade. Ao invés do sentimento, momentos vividos nas extremidades da razão.
Escrevia à noite, sob o escuro da lua. Como os poetas que buscam decifrar as sombras, ao luar um sonho adormecia; mesmo assim eu escrevia. Escrevia uma pequena imaginação sem medo de dormir e amanhecer depois em algum momento desconhecido que, em um determinado vazio, enchia o mundo de incógnitas e semeava ao longo da existência sonhos que amanheciam nas poucas manhãs em que o sol queria só para si todos os momentos de um tempo que se esvaía por desconhecidas veredas.
Escrevia, sempre quis escrever. E quando chegava à noite, o sono dormia em mim. E ao acordar, só queria ver a minha face refletida em uma gota de lágrima que preenchia o vazio em mim, entre as frestas das ausências.
Os longos versos recitando as lamúrias dos dias inacabados. Entrecortando os ventos que abarcam momentos hostis, e as dores que sangram os pés descalços, e os sinais nas faces embrutecidas.
Num lampejo poético, o infinito retrata as faces esquecidas entre os sonhos nunca sonhados. Um dia, uma vez e muitas outras vezes. Era o silêncio, e do silêncio brotou o amor, e do amor nasceu a vida, e o mundo conheceu o verdadeiro sentimento que move toda a humanidade.
Luiz Carlos de Proença – Autor dos livros: A pele do vento e Humana poesia



