Publicado desde 1969
Fundado por José Carlos Tallarico

Bálsamos ao vento

Fabio Pereira de Oliveira foi atingido nas costas e não resistiu

Por quê? Apenas uma pergunta. A chuva vem de repente, e a terra respira. No suave aroma das manhãs, permanecem resquícios de sentimentos, um afago distante e algo capaz de avivar os momentos. Uma travessia, uma lua entre as noites, e as lágrimas das estrelas alimentam vívidos sonhos em dias tediosos.

De repente, o dia termina entre tantos afazeres. Um silêncio percorre os olhares. Era como se fosse possível tocar o céu e afagar as faces da imaginação. Havia algo além do simples existir. Era uma sublime mensagem impregnada na alma e no coração. Era apenas uma noite, e o dia seguinte surgia como uma nova palavra pedindo para ser decifrada. Não era o caos; talvez apenas um pequeno desequilíbrio, nada que abalasse aquele oásis de tranquilidade. Mesmo assim, tudo podia ser diferente: bastava um sonho para que a vida se revigorasse.

Entre um momento e outro, resta um pouco de alguma coisa que se desfaz ao tocar o inatingível e a imensidão do imaginário que compõe o todo. Ainda havia escuridão, mas, mesmo assim, era possível ver, com os olhos da alma, toda a timidez estampada nas faces do tempo e sentir o sentimento fluindo na plenitude do ser, envolto pela quietude.

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A liberdade, em si, e tudo o mais se aquietavam na suavidade que permeava aqueles líricos instantes. É sublime o tempo que passa vagarosamente e deixa em nós o inesquecível, o imponderável e tudo aquilo que faz de nós o que somos e o que ainda podemos ser.

Tudo está aí para ser vivido. Parece existir algo que nos impulsiona e, ao mesmo tempo, nos aprisiona. Há algo que encanta e continua encantando os olhares atentos, enquanto a vida permanece em profundo êxtase.

A leveza das palavras e a suavidade dos versos resistem, por mais áspero que seja o mundo. O amargor do tempo encontra abrigo na docilidade dos momentos, fluindo entre os instantes com a intensidade que a vida exige de cada um de nós.

Há um pouco de dor e a delicadeza dos desejos reprimidos no vazio dos dias que ainda virão. Mas tudo, de repente, transforma-se em palavras inúteis que escapam ao alcance das mãos nas frias manhãs. Aos poucos, constroem-se os instantes, e então se diz tudo o que se pensa e tudo o que se sente na leveza das palavras e na suavidade que afaga os olhares distantes.

Dorme, entre o medo e a coragem, um outro eu desejando ser aquilo que pronuncia estranhas palavras sob a sombra da própria insignificância. Depois, o sol. Depois, a chuva. Depois, um olhar lançado aos céus em busca de piedade, enquanto o azul repousa sobre as nuvens que seguem mansamente sua ordem natural. Talvez seja assim mesmo: contemplar a lua, enxergar as estrelas, sonhar com a beleza e flutuar entre as nuvens.

Exalta o ser e solta as feras para iludir o sonho e embriagar as ilusões. Tinha asas e sonhava; tinha sonhos e voava. Entreabrem-se os olhares, enquanto as lágrimas escorrem ao despertar das manhãs. Flutuam versos e palavras; perde-se, entre outras margens, o caos momentâneo.

Semeiam-se os campos e caminha-se entre as flores. Instigam-se os sentimentos e acorrenta-se a alma. Dizem-se palavras sem sentido. Mas o que é o sentido? Os absurdos me fazem pensar; por isso, saio pelas portas dos fundos. Nada faz sentido. Um pouco de dor, e o alívio, aos poucos, recompõe a essência e refaz os caminhos tortuosos entre as flores de qualquer amanhecer.

O ser e a essência. A dor e o alívio. A sombra no olhar e o sol do dia seguinte. Suavizam-se os dias que carregam tristezas em tantos olhares. Um pouco, somente um pouco, e tudo passa a ser aquilo que jamais foi. Tudo habita um sentimento solto, imperfeito, sem nada a dizer. Tudo permanece, tudo existe e tudo já passou.

Diz a alma: “Dê-me um pouco de paz.” Entre flores e espinhos, um pouco de alma e um pouco mais do ser que em mim habita. Um pouco de tudo o que me faz bem. Somente um pouco mais.

E o amor abraça um pouco mais e contempla o silêncio entre bálsamos, lírios e versos ao vento. Vem ao encontro do desconhecido e depois se deixa levar por oásis nutridos de utopias. Não diga mais nada. Deixe o vazio alimentar o silêncio. Sonhe um pouco mais e, adiante, desprenda-se das asas. Distantes, logo ali, os mesmos olhares, os mesmos sorrisos e as mesmas lágrimas. Resta-me um pouquinho mais do que ainda há sob o olhar escurecido que, aos poucos, transforma-se em verdade, como um sinal de liberdade desenhando os contornos de um mundo adormecido, esquecido no subterrâneo da fragilidade humana.

Nutre-me sob a luz desta noite escura. Ilumina-me e desbrava os próximos passos. Instiga-me e lança-me ao caos. Depois, deixa o silêncio fluir. A essência da poesia habita justamente esse silêncio que alimenta cada verso.

Depois de outros momentos, surgem outros versos nas entrelinhas da inspiração. Depois das lágrimas, os olhos desejam enxergar mais longe. Contemplo os instantes. O belo momento em que a vida apenas deseja ser vivida. O simples que se torna o todo na totalidade que habita todas as coisas. A essência da vida embevecida na profundidade do ser.

Luiz Carlos de Proença – Autor dos livros: A pele do vento e Humana poesia

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