O que esperar da esperança depois que a tempestade passar? Tempestades vêm e vão. O que fazemos para evitá-las? Ou o que fazemos enquanto estamos sob suas águas? Talvez não exista abrigo suficiente quando as tempestades nascem dentro de nós. Algo explodiu e, ao mesmo tempo, implodiu o coração da humanidade.
Não estou sendo pessimista, tampouco catastrófico. São apenas olhares sobre uma realidade que nos permite perceber alguns cenários do mundo. Os discursos de ódio se proliferam pelos quatro cantos do planeta. São sinais de esgotamento das relações humanas, como se tivéssemos chegado ao limite. A voz do mundo, o silêncio das portas fechadas e o sentimento mendigando a presença humana. Ainda assim, resta a perspectiva de sermos melhores e de construirmos um mundo melhor.
As transformações, os sistemas, a política como modelo deteriorado, refugiando-se em si mesma, e todas as barbáries de uma civilização. Somos cúmplices de um sistema caótico que se alimenta e se retroalimenta do sumo da própria podridão. A necessidade nos consome e, para supri-la, coloca uns contra os outros, num jogo em que os mais fracos enfrentam os mais fracos. É um jogo de cartas marcadas, no qual os vencedores são os donos das cartas. São sempre os mesmos.
Talvez Hannah Arendt nos ajude a compreender parte dessa realidade quando nos convida a pensar sobre a banalidade do mal e a responsabilidade humana diante de nossas próprias escolhas. Afinal, o perigo também reside na incapacidade de pensar, questionar e reconhecer as consequências de nossos atos. Quando a consciência adormece, a barbárie encontra espaço para se acomodar.
Há rachaduras que não aparecem nas paredes, mas atravessam silenciosamente as relações humanas. Há ruídos que ensurdecem a consciência e silêncios que revelam nossa incapacidade de ouvir o outro. Vivemos em um mundo no qual prevalece a competição, o corporativismo em vez do cooperativismo. Vencer ou vencer, a qualquer custo. Nada importa, a não ser defender privilégios, buscar recompensas e negociar indecentemente em nome de um poder estabelecido. É como se, na modernidade líquida de Zygmunt Bauman, até mesmo os vínculos humanos tivessem perdido sua consistência. E assim continua a valsa dos inescrupulosos.
Talvez a maior tempestade não seja aquela que chega anunciada pelos trovões, mas aquela que se instala lentamente, quando deixamos de reconhecer nossa humanidade no olhar de quem caminha ao nosso lado.
Quanto ao que está por vir, não sabemos, mas podemos imaginar. Infelizmente, a história se repete, muitas vezes seguindo o mesmo roteiro, com a cartilha dos grandes vilões que marcaram a história com as mãos sujas. E, como nos provoca Albert Camus em suas reflexões sobre o absurdo da existência, talvez seja justamente diante de um mundo contraditório que a resistência humana encontre sua razão de existir. Não se trata de aceitar a realidade como ela se apresenta, mas de não permitir que ela nos transforme naquilo que combatemos.
E quando tudo passar, se passar, não bastará recolher os destroços. Será necessário compreender de onde vieram os ventos, por que não percebemos os primeiros sinais e o que ainda podemos fazer para que outras tempestades não encontrem terreno tão fértil.
O que diz a frase escrita em algum horizonte que o mundo ainda não entendeu? Depois dos muros da noite, os jardins são mais floridos. Ainda há sentimento para refazer momentos e dizer que tudo é parte de um todo. A poeira que se esvai ao vento, o rio que serenamente contorna as curvas para seguir sua viagem. O milagre da vida se fazendo na simplicidade do ser, somente por ser. Todo dia nasce como um sonho para enaltecer a vida.
Talvez seja nesse horizonte que encontramos o pensamento de Ernst Bloch, para quem a esperança não é uma espera passiva, mas uma força que nos impulsiona em direção ao que ainda não existe, ao que pode ser construído. A utopia, nesse sentido, não é uma fuga da realidade, mas uma possibilidade de transformá-la.
A esperança, portanto, não deveria esperar pelo fim da tempestade. Talvez seja justamente durante ela que precisamos aprender a reconstruí-la. Uma lágrima se transforma em verso para dizer que a vida é poesia.
Luiz Carlos de Proença – Autor dos livros: A pele do vento e Humana poesia



