Já que só se fala em Copa do Mundo, vou escrever alguma coisa sobre esse momento, tabelando com a poesia e fazendo o meio-campo com a sublimidade dos versos. Entre uma jogada e outra, compor, na medida do possível, os meus melhores lances em palavras. No mais, esse é um assunto de que gosto, que me acompanha desde a infância. A bola já está rolando nos gramados norte-americano.
A bola e o gol. É tempo de Copa, e o mundo celebra, ao menos por esses momentos, a união dos povos. Para os amantes do futebol, a paixão; para os que não o acompanham, aquela atmosfera que, de quatro em quatro anos, desperta algum interesse. Bandeiras desfraldadas tremulam em emoções, flâmulas carregam esperanças, e as cores das arquibancadas se confundem com os sentimentos. É a Copa do Mundo, com toda a sua artimanha e magia, extasiando milhões em um só grito de gol.
O que dizer? O que falar? Essa bola que rola pelo mundo faz esquecer, ainda que por um segundo, as indiferenças que persistem. Há outros interesses? Claro que há. Mas, por ora, deixe a emoção rolar. Deixe a bandeira tremular, mesmo que os ventos sejam desfavoráveis. Deixe o grito represado explodir no delírio coletivo.
Tentei falar apenas de futebol. Não consegui. Talvez porque o futebol seja esse estranho entrelaçamento entre beleza e perplexidade. O maior esporte do mundo poderia limitar-se às quatro linhas — bem que poderia. Mas há sempre outros interesses em jogo, interesses que jamais ficam à margem.
Bola e bomba. O futebol não é guerra, mas é impossível esquecer a guerra. O país que hoje promove a maior festa do esporte é o mesmo que carrega, em sua história e em seu DNA político, o hábito de promovê-la. Enquanto a seleção estadunidense entra em campo e desperta o patriotismo dos seus, outros compatriotas seguem em outro campo: o da destruição, da dor e da desumanização.
O que o futebol tem a ver com isso? Em essência, nada. O futebol não é culpado pelas mazelas humanas. Aqui, ele é apenas pano de fundo. Mas o que justificar a submissão da FIFA diante das interferências e intolerâncias que atingem algumas seleções? Futebol, política, negócio e poder: eis o tabuleiro. A grande festa é também um grande negócio. A bola rolando capitaliza emoções e multiplica cifras.
Este texto não queria seguir por esse caminho. Mas não há como falar deste momento sem lembrar das sombras que, por algum tempo, ficam escondidas sob as cores vibrantes do espetáculo. O gramado verde, onde a bola rola, parece querer convencer-nos de que o mundo é uma grande irmandade.
E então volto ao menino e à bola. Um menino sonhando com o inalcançável, como as manhãs antes da primavera ou as flores antes do desabrochar. A velha casa, o céu desenhando o sol, a infância ainda acesa no clarão das lembranças. A bola leve e solta no campo imaginário da solidão, enquanto a arquibancada era apenas sonho arquivado no peito. Um sopro de vento, um velho andarilho percorrendo veredas inquietas.
A bola ainda rola suave nos campos periféricos, abraçada aos becos da saudade. Do outro lado, a flor que ri, as lágrimas que insistem, os olhares atravessados de sentimento. De mãos dadas com o infinito, a proeza de um novo amanhecer: uma jogada brilhante, um gol de placa, mesmo sob o gosto amargo da derrota.
A Copa do Mundo é apenas um evento que acontece a cada quatro anos. E é verdade: tornou-se uma marca, um mercado, uma engrenagem de interesses. Mas, para além do cálculo frio, há ainda o coração que move multidões.
Apesar das guerras, dos conflitos e de tudo o que aflige a humanidade, o futebol surge não como anestesia, mas como um céu cinzento onde, cedo ou tarde, um azul tímido insiste em aparecer. Uma esperança antiga, como uma velha bola nos pés de uma criança que sonha marcar o gol impossível.
Então, que se deixem de lado as armas e a estupidez da superioridade. Nada engrandece a violência. Só mais um gol, mais um apito final. É Copa do Mundo: de um lado, a bola rolando; do outro, a frieza do vil metal. E, mesmo assim, entre um passe e outro, ainda persiste a esperança.
Luiz Carlos de Proença – Autor dos livros: A pele do vento e Humana poesia



