Publicado desde 1969
Fundado por José Carlos Tallarico

Entre estrelas e girassóis

É tardezinha, mas ainda há tempo para viajar num resquício de pensamento que insiste em permanecer só. Ainda há um pouco de tormento, mesmo em passos lentos. Mas, e agora, o que fazer com esse mísero sentimento que se alimenta dos momentos que ainda restam?

De repente, nada. A lua vem ao encontro de tudo, em meio às algazarras dos lixos espaciais, à incessante busca do ser humano e às explicações cosmológicas do universo. Olhares imperceptíveis fitam o infinito e, diante dele, somos apenas poeira de estrelas, como lembrava Carl Sagan ao recordar que os elementos que nos constituem nasceram no coração dos astros. Sobre as faces do mundo escorrem lágrimas de muitos sóis e de outros corpos celestes. Ainda há o lado escuro da lua, pegadas pelo caminho, pétalas de flores mortas e restos de planetas mergulhados em imensa solidão.

Diante de um desafio, a pessoa é impelida a avaliar todas as possibilidades que possam oferecer condições para superar barreiras. O desafio nos instiga e nos conduz à busca de alternativas para solucioná-lo, fazendo com que cresçamos por meio das experiências vividas e dos conhecimentos adquiridos ao longo da caminhada. Talvez seja justamente nas dificuldades que o ser humano descubra, como pensava Nietzsche, a capacidade de transformar obstáculos em pontes para novas travessias.

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A leitura é alimento da alma. Ler é prever, pensar, interagir. Cada um lê o mundo com os olhos que possui e, como ensinava Paulo Freire, a leitura do mundo antecede a leitura da palavra. A cabeça pensa a partir do chão em que pisa.

A leitura de cada pessoa é única, individual e inerente à sua própria existência. Respeitar o outro é valorizar aquilo que nele habita e que, muitas vezes, ainda não fomos capazes de enxergar. Talvez o outro veja algo diferente, algo essencial que nossos olhos ainda não alcançaram. Afinal, como escreveu Saint-Exupéry, o essencial permanece invisível aos olhos. É nesse encontro de olhares que percebemos a dinâmica da vida, fazendo do eu um reflexo do mundo que nos cerca.

Imbuídos de boa vontade, imaginamos os seres humanos praticando sempre o bem. No entanto, não se pode ser superficial a ponto de acreditar que as coisas acontecem por acaso, sem motivo ou impulso. Tudo se desenvolve, transforma-se, cria-se e recria-se numa imensa rede de conexões que liga o mundo ao submundo, os sonhos à realidade, a imaginação ao conhecimento. Talvez Borges tivesse razão ao imaginar o universo como uma biblioteca infinita, onde cada existência é apenas uma página perdida entre incontáveis histórias.

Inicia-se a contagem regressiva: três, dois, um… Rumo ao desconhecido, no centro do décimo sétimo sol. Um mundo de fantasia incrustado no coração do infinito, sob o silêncio dos inocentes e os gritos dos ignorantes. Nefastos roubam do céu o azul e do sol o brilho, enquanto o cosmo se converte em caos. Voam asas libertadas dos cativeiros. Entre estrelas, céus e tempestades, fazem da dor o alívio da alma e da alma o seu refúgio, oculto ao ser que se perde em si mesmo.

O décimo sétimo sol e as outras margens de outros rios repousam sob um universo submerso em esferas desconhecidas e olhares delirantes. As mesmices ditam regras, enquanto as exceções, expostas nas vitrines a preços incomensuráveis, conduzem a normalidade à loucura.

Que parem o tempo. Que tornem impuros todos os corações no sangue imundo dos homens de aparente boa vontade. Que vomitem o fel da hipocrisia dos insanos e malditos que insistem em plantar flores sobre areia movediça. E que, como os antigos profetas, ainda haja quem tenha coragem de erguer a voz contra os vendilhões dos templos e das consciências.

Depois da semente, a liberdade. Depois da liberdade, os girassóis. Girassóis nas ondas do rádio, conectando sonhos e esperanças em meio às intermináveis guerras dos homens, que aniquilam justos e injustos e dizimam vidas e sonhos. Como o grão de mostarda das parábolas, os sonhos parecem pequenos quando lançados à terra, mas carregam em si a possibilidade de transformar paisagens e destinos.

No alto da montanha, os resquícios de cristais se unem, harmonizando céu e terra, aproximando homens e animais em um rito universal. Então, o sertão vira mar. E, como nas travessias de Guimarães Rosa, compreende-se que o real não está na partida nem na chegada, mas no caminho percorrido entre ambas. A lua mergulha na imensidão do distante, tão próxima do infinito. E inicia-se uma viagem pelo universo, caminhando sob a Via Láctea e embriagando-se de todo o azul que habita a vastidão do cosmos.

Num instante qualquer, roubam-se as cores do arco-íris para pintar o horizonte. Depois, contempla-se o esplendor desse colorido no olhar surpreendido do mundo, despertando de um sono profundo, como quem acorda de um romance que jamais terminou e continua vivendo nas entrelinhas do tempo. Talvez seja essa a grande aventura humana: seguir caminhando entre sonhos e abismos, carregando dentro de si a esperança de encontrar, em alguma curva do infinito, uma razão para continuar olhando as estrelas.

Luiz Carlos de Proença – Autor dos livros: A pele do vento e Humana poesia

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