Publicado desde 1969
Fundado por José Carlos Tallarico

O jardim das utopias e o labirinto do medo

Uma poesia declama seus versos como mensagem de novos tempos. Uma noite adormece e, ao acordar, sonha com uma nova ordem mundial. Em seus lares, nada de absurdos: apenas a perenidade dos momentos. Momentos esses que ficam ou que, por vezes, passam; machucam, ferem e seguem em frente. Por vezes parecem tormentos, mas são apenas dores passageiras doendo na imaginação.

Há um tempo, depois do devaneio, como nuvem anunciando chuvas horas antes da tempestade. Talvez o sonho ainda não tenha acordado e o pesadelo afague as faces sob luzes artificiais. Um pouco de tudo para encher a vastidão de um pensamento que caminha por caminhos estreitos.

É só a noite e o silêncio entre o tudo se escondendo entre o nada. E nada ainda, mesmo se houver outros caminhos. Mesmo se for um pesadelo caminhando sobre longas estradas sob o sol de um dia inteiro — tal qual a utopia de Eduardo Galeano, que insiste em se afastar apenas para nos manter em movimento.

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Antes mesmo que fosse poesia, um dia nasceu: nasceu o jardim das utopias. Nesse tempo de guerras, ainda há corações que sangram. Mesmo sob escombros, olhares não querem se fechar. Mas o que há que ainda persiste, mesmo sabendo que a paz está ferida? Mesmo que o rio inunde o deserto e que a sede beba a última gota de esperança.

O que somos e o que queremos? Ainda vivemos. Ainda caminhamos, mesmo consumidos pelo perigo; mesmo que o pensamento se perca nos caminhos da efemeridade. E os sentimentos ainda resistem à secura dos corações. Na floresta de pedra e nas raízes da insanidade, são vários olhares alheios ao vazio que alimenta a miserabilidade humana. São as mãos que semeiam e as mesmas mãos que colhem o fruto de toda a insanidade. Planta-se, em terreno fértil, sentimentos que florescem e alimentam um pouco do que ainda resta. A guerra e seus agentes matam inocentes.

Em um caminho estreito, não sei se há sonhos, mas a realidade é um labirinto do medo. O jogo do poder e a política como promoção do bem comum escondem-se em meio à retórica e à demagogia. Como advertiu Hannah Arendt, a barbárie encontra solo fértil justamente onde o pensamento se interrompe. A geopolítica do medo se expande sem respeitar território, impondo seu poder opressor. Fazer guerras parece ser uma arte do ser humano.

E os dias que estão por vir ainda se alegram com o sol das manhãs e com a esperança que resiste em anoitecer. Resiste ao tempo, ao soprar do vento entre afago e tormento. Tudo ainda está por viver, mesmo neste tempo anestesiado por meios que nos fazem acreditar na superficialidade de uma vida desajustada. É a exaustão da “Sociedade do Cansaço” de Byung-Chul Han, onde mentes estilhaçadas se perdem em um aquário suspenso, prisioneiras de uma lógica que ignora a poética dos sentimentos.

As páginas de um livro e o capítulo final das guerras imperiais. O cantar do silêncio e a máquina mortífera que aterroriza mentes atrofiadas. O senhor da guerra rouba o sorriso da inocência que quer brincar no jardim encantado. Um canto triste para ouvir o meu silêncio; na singeleza do olhar, juntei os meus desejos e semeei no jardim da esperança. Esperei a chuva para germinar os meus sentimentos e florir a minha alma.

Tudo em um só instante se refaz em mim e se perpetua no êxtase da alma. O tempo não queria o mundo imaginário. Não sabia quanto durava o tempo de um sonho. E a imaginação, sem saber que o sonho podia dar a vida, imaginava a poesia em uma tarde silenciosa. Com os seus versos acariciando as suas faces envolvidas em lágrimas. Vagas lembranças de momentos que já esqueci — como se buscasse o tempo perdido de Marcel Proust no perfume de um instante. Um instante é o tempo do próximo verso.

É o que ainda resta, é o que há em um pensamento. Ainda há sentimentos em pequenos instantes. Outros olhares tentam olhar o mesmo horizonte. É tão sutil esse jeito de ver, esse meigo olhar. Essas lágrimas que insistem em molhar a relva toda manhã. Esse sol ardente que faz evaporar as lágrimas.

Um dia esperando o sonho, sentado na velha cadeira de balanço. E tudo ali era silêncio. E algo inimaginável transpassava toda aquela atmosfera sublimada em contágio que, em contato consigo mesmo, desejava apenas que o dia fosse feliz. Ainda os olhares em resquícios de memória suavizavam aquela longa espera. E assim se fez poesia das estrelas da noite passada. E assim se fez momento do instante que ainda vive.

Luiz Carlos de Proença Autor dos livros: A pele do vento e Humana poesia

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