Uma poesia declama seus versos como mensagem de novos tempos. Uma noite adormece e, ao acordar, sonha com uma nova ordem mundial. Em seus lares, nada de absurdos: apenas a perenidade dos momentos. Momentos esses que ficam ou que, por vezes, passam; machucam, ferem e seguem em frente. Por vezes parecem tormentos, mas são apenas dores passageiras doendo na imaginação.
Há um tempo, depois do devaneio, como nuvem anunciando chuvas horas antes da tempestade. Talvez o sonho ainda não tenha acordado e o pesadelo afague as faces sob luzes artificiais. Um pouco de tudo para encher a vastidão de um pensamento que caminha por caminhos estreitos.
É só a noite e o silêncio entre o tudo se escondendo entre o nada. E nada ainda, mesmo se houver outros caminhos. Mesmo se for um pesadelo caminhando sobre longas estradas sob o sol de um dia inteiro — tal qual a utopia de Eduardo Galeano, que insiste em se afastar apenas para nos manter em movimento.
Antes mesmo que fosse poesia, um dia nasceu: nasceu o jardim das utopias. Nesse tempo de guerras, ainda há corações que sangram. Mesmo sob escombros, olhares não querem se fechar. Mas o que há que ainda persiste, mesmo sabendo que a paz está ferida? Mesmo que o rio inunde o deserto e que a sede beba a última gota de esperança.
O que somos e o que queremos? Ainda vivemos. Ainda caminhamos, mesmo consumidos pelo perigo; mesmo que o pensamento se perca nos caminhos da efemeridade. E os sentimentos ainda resistem à secura dos corações. Na floresta de pedra e nas raízes da insanidade, são vários olhares alheios ao vazio que alimenta a miserabilidade humana. São as mãos que semeiam e as mesmas mãos que colhem o fruto de toda a insanidade. Planta-se, em terreno fértil, sentimentos que florescem e alimentam um pouco do que ainda resta. A guerra e seus agentes matam inocentes.
Em um caminho estreito, não sei se há sonhos, mas a realidade é um labirinto do medo. O jogo do poder e a política como promoção do bem comum escondem-se em meio à retórica e à demagogia. Como advertiu Hannah Arendt, a barbárie encontra solo fértil justamente onde o pensamento se interrompe. A geopolítica do medo se expande sem respeitar território, impondo seu poder opressor. Fazer guerras parece ser uma arte do ser humano.
E os dias que estão por vir ainda se alegram com o sol das manhãs e com a esperança que resiste em anoitecer. Resiste ao tempo, ao soprar do vento entre afago e tormento. Tudo ainda está por viver, mesmo neste tempo anestesiado por meios que nos fazem acreditar na superficialidade de uma vida desajustada. É a exaustão da “Sociedade do Cansaço” de Byung-Chul Han, onde mentes estilhaçadas se perdem em um aquário suspenso, prisioneiras de uma lógica que ignora a poética dos sentimentos.
As páginas de um livro e o capítulo final das guerras imperiais. O cantar do silêncio e a máquina mortífera que aterroriza mentes atrofiadas. O senhor da guerra rouba o sorriso da inocência que quer brincar no jardim encantado. Um canto triste para ouvir o meu silêncio; na singeleza do olhar, juntei os meus desejos e semeei no jardim da esperança. Esperei a chuva para germinar os meus sentimentos e florir a minha alma.
Tudo em um só instante se refaz em mim e se perpetua no êxtase da alma. O tempo não queria o mundo imaginário. Não sabia quanto durava o tempo de um sonho. E a imaginação, sem saber que o sonho podia dar a vida, imaginava a poesia em uma tarde silenciosa. Com os seus versos acariciando as suas faces envolvidas em lágrimas. Vagas lembranças de momentos que já esqueci — como se buscasse o tempo perdido de Marcel Proust no perfume de um instante. Um instante é o tempo do próximo verso.
É o que ainda resta, é o que há em um pensamento. Ainda há sentimentos em pequenos instantes. Outros olhares tentam olhar o mesmo horizonte. É tão sutil esse jeito de ver, esse meigo olhar. Essas lágrimas que insistem em molhar a relva toda manhã. Esse sol ardente que faz evaporar as lágrimas.
Um dia esperando o sonho, sentado na velha cadeira de balanço. E tudo ali era silêncio. E algo inimaginável transpassava toda aquela atmosfera sublimada em contágio que, em contato consigo mesmo, desejava apenas que o dia fosse feliz. Ainda os olhares em resquícios de memória suavizavam aquela longa espera. E assim se fez poesia das estrelas da noite passada. E assim se fez momento do instante que ainda vive.
Luiz Carlos de Proença Autor dos livros: A pele do vento e Humana poesia



