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Fundado por José Carlos Tallarico

Visibilidade não substitui preparo na política

O perfil dos candidatos às próximas eleições vem sofrendo mudanças significativas. Cada vez mais, observa-se o ingresso na política de pessoas cuja principal qualificação não está na experiência administrativa, na formação intelectual ou no conhecimento das necessidades coletivas, mas na visibilidade conquistada nas redes sociais, nos meios de comunicação ou em determinados grupos de influência.

É evidente que a democracia deve permanecer aberta à participação de todos. Ninguém pode exigir títulos acadêmicos como condição para o exercício de um mandato popular. A vida pública sempre contou com grandes representantes que, embora sem formação superior, possuíam sabedoria, equilíbrio, experiência e profundo conhecimento da realidade do povo. O problema, portanto, não está na ausência de diplomas, mas na falta de preparo, responsabilidade e consciência da importância do cargo pretendido.

A popularidade pode ajudar um candidato a conquistar votos, mas não é suficiente para habilitá-lo a legislar, fiscalizar recursos públicos ou participar de decisões que afetam diretamente a vida de milhares ou milhões de pessoas. Governar e legislar exigem conhecimento da Constituição, das leis, do orçamento público, da economia, da realidade social e das limitações da própria administração. Exigem, acima de tudo, racionalidade, independência e capacidade de diálogo.

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A política transformada exclusivamente em espetáculo tende a privilegiar discursos simplificados, frases de efeito e confrontos artificiais. Nesse ambiente, propostas sérias perdem espaço para conteúdos produzidos com o objetivo de provocar emoções imediatas, ampliar seguidores e fortalecer grupos ideológicos. A aparência de liderança passa, perigosamente, a valer mais do que a capacidade real de exercer a liderança.

Outra preocupação está na crescente influência das estruturas partidárias e dos núcleos de militância sobre a elaboração dos programas dos candidatos. Quando falta preparo pessoal, o futuro representante torna-se excessivamente dependente de assessores, dirigentes e militantes para definir aquilo que deverá defender. Com isso, os projetos apresentados ao Legislativo podem deixar de refletir as legítimas aspirações da população para reproduzir cartilhas ideológicas e interesses internos dos partidos.

O mandato popular não pode ser terceirizado. Assessores são necessários e partidos são fundamentais para o funcionamento da democracia, mas o candidato deve possuir discernimento próprio para analisar propostas, compreender suas consequências e decidir de acordo com o interesse público. Quem não conhece suficientemente os assuntos sobre os quais votará corre o risco de se transformar em simples porta-voz de grupos políticos, econômicos ou ideológicos.

Também não se pode confundir militância com representatividade. O militante, por natureza, defende uma causa ou uma visão partidária. O representante eleito, contudo, assume responsabilidade muito mais ampla: deve governar ou legislar para todos, inclusive para aqueles que não votaram nele. Precisa ouvir posições diferentes, reconhecer a complexidade dos problemas e buscar soluções possíveis, em vez de apenas alimentar divisões.

O verdadeiro desenvolvimento não nasce de palavras de ordem. Ele depende de planejamento, segurança jurídica, responsabilidade fiscal, investimentos, educação de qualidade, saúde eficiente, infraestrutura e políticas públicas avaliadas por seus resultados. Essas pautas não podem ser tratadas com improvisação, superficialidade ou fanatismo político.

Nas próximas eleições, caberá ao eleitor observar não apenas quantos seguidores possui determinado candidato ou a intensidade de sua presença nas redes sociais, mas também sua história, sua capacidade, seus conhecimentos e os compromissos que efetivamente assume. É preciso perguntar se ele compreende os problemas da comunidade, se apresenta propostas viáveis, se sabe dialogar e se demonstra independência para não se tornar refém de grupos ou partidos.

A democracia necessita de renovação, mas renovar não significa substituir experiência e competência por fama passageira. Significa abrir espaço para pessoas honestas, preparadas, sensatas e verdadeiramente comprometidas com o bem comum.

A visibilidade pode apresentar um candidato à sociedade. Entretanto, somente o preparo, a responsabilidade e o respeito à vontade popular poderão transformá-lo em um representante digno da confiança recebida nas urnas.

Mariano Higino de Meira, foi escrivão de polícia, delegado de polícia, vereador, chefe de gabinete, pos graduação em direito público e de Estado, advogado com especialidades em direito bancário, imobiliário, consumidor e trabalhista

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