Depois de alguns momentos, dorme sob o escuro de uma noite sem luar. O horizonte parecia descolorido, num tom quase cinza. Ainda assim, o dia acenava com promessas de novas possibilidades. O metal derretia debaixo do sol e consumia o suor do rosto sofrido. Tudo parecia distante, e os olhares se perdiam em meio a ilusões espontâneas. E assim seguiram outros dias, sem pressa de acabar, mesmo sufocados pelo cansaço.
Escarra o escárnio de toda a hipocrisia entranhada na face obscura dos podres poderes. Dorme ao relento, a pele nua diante dos abutres que infestam o mundo, alimentados pelo submundo da insensatez. Cospe-se na face suave do homem o poder delinquente dos hipócritas e ladrões que surrupiam sonhos e maculam vidas.
Pelas ruas, a injustiça, o ódio e a indiferença; a fome e a miséria. No alto do poder, o desmando e toda a sua discrepância. Mãos sujas afagam o caos, indiferentes a tudo e a todos, alimentadas pela esperteza dos maus. E, enquanto uns acumulam excessos, outros recolhem do chão apenas aquilo que restou dos sonhos.
Assim caminham passos lentos por veredas desconhecidas. A cada passo, destila-se o fel; em outros, dizimam-se essências. Ratos infestam os jardins. A mudez e a indecência contaminam o horizonte vazio da existência, entre armadilhas e covis de hostilidade. Explora-se o pouco que resta do bem, subtrai-se o sumo da dignidade e alimentam-se as mentes de uma sociedade que parece ter esquecido o próprio rosto.
Entre a sutileza e a barbárie, mãos sujas corroem os girassóis. Ladram cães ferozes pelas veredas vazias. Sonhos são roubados sob luzes apagadas, enquanto o silêncio murmurante dos insanos invade os jardins para arrancar flores. É a guerra contra a paz. A injustiça ocupa as trincheiras da tirania. E, no meio de tudo, o homem mata o próprio homem.
A fome sobre a mesa oscila entre migalhas e farturas. Campos imensos, castelos e mansões saciam a fome do corpo, mas não alimentam a alma. No peito, a dor latente. O golpe daqueles que surrupiam o suor da labuta. No chão dos sonhos, a secura; no olhar, o ópio. A boca que beija é a mesma que cospe o fel de suas entranhas.
O ser humano e sua história; o ser humano em sua própria história. Sapiente e demente, em busca de si mesmo e perdendo-se de si mesmo. Será que nos conhecemos? Quem é o nosso inimigo? Consumimos aquilo que nos alimenta, aquilo que deveria nos humanizar e tudo o que está ao nosso alcance. Mas o que nos alimenta realmente nos humaniza? Consumimos o tempo ou somos consumidos por ele?
Traços deixados de lado — lápis, pincéis, o contorno da fragilidade humana no painel do imaginário. Sonha-se com uma manhã sob as sombras do mundo, ouvindo histórias dos primórdios da humanidade. Caminha-se pelos becos, pelas favelas, pelas margens esquecidas, tentando compreender as aflições de um mundo que se escreve como um romance de vendavais.
Percebe-se, então, a força que move e, ao mesmo tempo, paralisa; essa força sem rosto, sem ordem, que impulsiona tudo e devasta campos e cidades. Ainda assim, semeiam-se flores à beira do caos para enfeitar as cicatrizes da alma. O sol pede licença para brilhar em meio à tempestade. Sua luz atravessa as nuvens, aquece mentes atrofiadas e toca, ainda que por instantes, corações dilacerados. O mundo é imaginado entre planícies e montanhas por cegos que olham, mas não conseguem enxergar. O caminhar distante segue o rastro do arco-íris em busca do oásis. Entre lágrimas e flores, permanece a tristeza nos olhares, a dor de um mundo ferido e a esperança de que alguma coisa ainda possa nascer da terra devastada.
Nômades nesta terra de hipocrisia, luxúria, fome e injustiça. Primeiro o sentimento, depois as paixões — e quem sabe ainda haja amor. A ampulheta perdeu-se nas areias do deserto. O tempo passou sem testemunhas, e a fenda permanece aberta, como uma cicatriz que ninguém ousa tocar.
A solidão machuca, e a dor é silenciosa. O menino anda pelas ruas sem saber o que procura, de onde veio ou onde chegará. Carrega nos pés a poeira da estrada e, nos olhos, uma pergunta que ninguém responde. Chora uma lágrima no escuro do olhar. A rua é sua casa; a calçada, sua cama; e a lua não se cansa de clarear.
Mas o sonho desperta sob os raios de muitos sóis, enquanto a criança adormece nos braços da esperança. Essa esperança caminha sobre flores e espinhos, atravessa becos, desertos e noites sem estrelas. Talvez seja pequena. Talvez seja quase nada. Ainda assim, insiste em nascer.
Tememos nossos erros e, quando erramos, nos apequenamos diante do que pensam de nós. O erro faz parte de qualquer processo; o que não podemos é transformar o fracasso em culpa alheia. A soberba, a arrogância e a hipocrisia desfazem a essência e desvirtuam a virtude. Em meio a tudo isso, morre a humildade.
De mãos atadas, buscamos as estrelas, mas elas parecem sempre além do alcance. Desvirtuamos o caminhar, perdemos o porto seguro e desnorteamos o próprio ser. Talvez o maior abismo não esteja diante de nós, mas dentro de nós. Uma manhã silenciosa. Um vento suave. Uma sombra à beira de um riacho de água cristalina. E a mente entregue aos fluidos de um pensamento distante… Enquanto os olhos se perdem na imensidão, delineiam-se os próximos passos de uma longa imaginação. Por alguns instantes, o mundo silencia.
Em meio a toda essa crise em que vivem as pessoas — pois são as pessoas que estão em crise —, nós somos o mundo. Estamos nele e somos parte de sua maldade, de suas contradições e de suas feridas. Somos capazes de inventar, transformar e sonhar; mas também somos capazes de destruir e transformar sonhos em pesadelos. Talvez seja essa a nossa maior contradição: construir com as mesmas mãos que destruímos. Plantar flores e arrancá-las depois. Procurar a paz enquanto alimentamos a guerra. Pedir justiça enquanto permanecemos indiferentes diante da injustiça.
Ao sabor do tempo, voam asas em liberdade, e infinitas verdades povoam mentes insólitas que ainda sobrevivem, apesar da soberba acampada ao ar livre. O caos e o oásis se encontram sob o olhar de nuvens passageiras. Torrentes de chuva enchem mares e rios, atravessam cidades, inundam os sertões e carregam consigo aquilo que o homem acreditava ter construído para sempre. Seguem as veredas em diferentes direções. Abismos alimentam o cume da ignorância, e a estupidez encontra terreno fértil onde deveria nascer a compreensão. Nos campos e desertos, a fome; na garganta, a sede; no coração, toda a nossa insensatez.
Ao tempo, um segredo que peço que não conte a ninguém: não sei em que momento o mundo encontrará a paz. Talvez ela esteja escondida em algum lugar que ainda não aprendemos a procurar. Talvez caminhe ao nosso lado e não saibamos reconhecê-la. Não sei se algum dia te encontrarei sorrindo entre as estrelas, apanhando flores no jardim secreto, sob suaves melodias de uma noite enluarada. Mas gosto de imaginar que sim.
Lembro-me, não faz muito tempo, de um sentimento viajando por pensamentos insólitos, desembarcando na solidão dos jardins. Envolto em alfazemas, perdi-me entre os olhares do mundo e, por algum tempo, não me encontrei. Depois, olhei para além do horizonte. E compreendi que o meu mundo talvez se faça logo ali: entre resquícios de cristais, sob as asas de um pássaro sonhador que atravessa planícies verdejantes, levando consigo aquilo que ainda não morreu em nós. A esperança. Mesmo entre ruínas. Mesmo depois do escárnio. Mesmo quando os abutres ainda sobrevoam os jardins.
Luiz Carlos de Proença – Autor dos livros: A pele do vento e Humana poesia



