Eu ainda caminho sob os passos da utopia, entre horizontes, mesmo quando as luzes estão quase se apagando. Há olhares e a plenitude do infinito na imanência humana de acreditar, mesmo quando os sonhos adormecem em noites escuras. Talvez exista em nós esse princípio da esperança, essa inquietação que nos faz olhar para o amanhã como quem procura no presente aquilo que ainda não nasceu. Ainda assim, meu silêncio quer me escutar em suaves canções de esperança. Mesmo assim, ressoa nos subúrbios da vida a possibilidade de que a distopia seja evitável. Afinal, o mundo ainda não terminou de ser escrito.
Talvez seja o lado estranho de mim mesmo. Talvez seja um verso ecoando nos confins desses rincões, uma opção que enseja caminhos utópicos. Mesmo nos lugares mais distantes, há um cantinho iluminado pelas chamas de gentes que, sendo luz, insistem diante da voracidade do vento. Há sempre alguma coisa que resiste, mesmo quando a realidade parece conspirar contra os sonhos. E, como se a existência nos colocasse diante de uma pedra que insiste em rolar montanha abaixo, continuamos a caminhada, não porque conhecemos o destino, mas porque ainda somos capazes de recomeçar.
Outro jeito de ser: sendo caminho, caminhando ao som do canto da cigarra e do voo do pássaro que se aninha entre o horizonte e o infinito. A gente é diferente, inspira bondade e escreve versos entre as pedras do caminho. Talvez seja essa a nossa maneira de responder às contradições do mundo: não com a certeza de quem possui todas as respostas, mas com a inquietação de quem ainda procura. A vida, afinal, não se deixa aprisionar em uma única definição. É assim mesmo que ela caminha. Depois, os olhos choram, a água sacia a sede e respira o mundo. Tudo vai se ajuntando, e as mãos colhem flores no jardim da benevolência, como se cada gesto de bondade pudesse devolver à humanidade um pouco daquilo que ela perdeu.
Por quem os sinos dobram? A pergunta atravessa o tempo e nos recorda que nenhuma existência está inteiramente isolada das outras. Os cães ladram e a caravana passa. Em um pequeno espaço de tempo, passos curtos numa longa caminhada. O que diz a mensagem encrustada na pedra alçada ao pico mais alto de uma montanha? Talvez não haja uma resposta definitiva, apenas o silêncio de quem contempla a vastidão e reconhece a própria pequenez. A serenidade do orvalho das manhãs e os raios de sol na quietude do tempo. Depois da estabilidade, o silêncio se compunha de instabilidade, um pouco de tudo o que ainda respira sob as margens submergidas de um dia qualquer. E o tempo, esse velho escultor de ruínas e esperanças, continua a transformar as certezas em perguntas.
A extremidade do caos e o sumo da podridão nas mãos dos vassalos. A cortina de fumaça e a parede falsa que esconde o outro lado de algum lugar. Espreme-se a fruta semeada no quintal abandonado da mesquinhez humana. O ser humano, reprimido em sua própria humanidade, pede clemência e caridade aos seus algozes. A fogueira da vaidade e a vaidade das vaidades, condensadas em uma pílula de imbecilidade. Há algo de profundamente trágico nessa condição: construímos templos à grandeza enquanto permitimos que a dignidade humana permaneça do lado de fora.
A corda sempre arrebenta do lado mais fraco, revelando a junção tímida dos fracassos da inoperância humana. E, enquanto alguns se alimentam da própria importância, outros continuam esperando que a justiça deixe de ser apenas uma palavra pronunciada em discursos vazios.
Um silêncio para ouvir o som da imaginação e ver a face do nada. Como se tudo fosse apenas um querer. As estrelas querem brilhar a noite inteira, e a lua, timidamente, se esconde na escuridão da noite. Talvez o universo não nos deva explicações, e talvez seja justamente nesse silêncio que aprendamos a formular as perguntas essenciais. Alguém quer dizer alguma coisa? Ouça, escute e absorva, se isso lhe fizer bem. Nem toda palavra precisa ser respondida, nem todo silêncio significa ausência. Há momentos em que escutar o outro é uma forma de reconhecer nele a mesma fragilidade que habita em nós.
Depois do tormento, dos relâmpagos e dos trovões. Depois da chuva, o embrião, a semente e o resto da paisagem que os olhos ainda conseguem ver. Ainda há, para além da tempestade, o vento da temperança, e nuvens flutuantes adentram os painéis imaginários em vidraças celestes, num céu entrelaçado com a terra. A natureza parece ensinar que a destruição nem sempre encerra uma história; às vezes, abre espaço para aquilo que ainda não encontrou condições de nascer. E a esperança, quando não se confunde com a ilusão, aprende a reconhecer a dor sem fazer dela uma morada definitiva.
O sagrado, o sacrifício e as montanhas culminantes de um adeus. A corda aperta o pescoço, e a ampulheta enche os pulmões de areia. A certeza: a flecha acerta o alvo, e a seta aponta para o norte, onde o sonho se escondeu. Os momentos alimentam os instantes e, depois, fazem vomitar o coração da humanidade. Há algo de bíblico nessa vaidade que se repete, como se a humanidade ainda estivesse aprendendo a distinguir a sabedoria da soberba. E há algo de trágico na nossa insistência em procurar certezas absolutas num mundo em permanente transformação. O silêncio atravessa a fronteira desconhecida de um tempo que amanheceu nos próximos dias, sob a luz de várias manhãs. Talvez o futuro não seja uma resposta àquilo que fomos, mas uma pergunta sobre aquilo que ainda podemos ser.
Agora são outros versos procurando outros caminhos, desviando dos obstáculos, mas nunca deixando de caminhar. Deixe o fardo que carregou até aqui, beije as faces das manhãs e não se canse de esperar, esperançando por dias melhores. Não se trata de fechar os olhos diante das contradições, nem de acreditar que o sofrimento desaparecerá por força de um desejo. Trata-se de continuar, apesar de tudo, sem permitir que a amargura tenha a última palavra. Porque, se a realidade nos impõe limites, a imaginação nos recorda que ainda existem possibilidades. E talvez seja esse o sentido mais profundo da utopia: não prometer um mundo perfeito, mas recusar a ideia de que o mundo imperfeito em que vivemos seja tudo o que nos resta.
Luiz Carlos de Proença – Autor dos livros: A pele do vento e Humana poesia



