No início da década de 1990, o Brasil possuía 78 escolas médicas. Em 2025, esse número chegou a 494 cursos de Medicina, dos quais aproximadamente 80% pertenciam à iniciativa privada. Juntos, esses cursos passaram a oferecer 50.974 vagas de graduação. Com isso, o Brasil tornou-se o segundo país do mundo em número de escolas médicas, atrás apenas da Índia, nação cuja população ultrapassa 1,4 bilhão de habitantes.
Não há dúvida de que o Brasil precisava formar mais médicos, especialmente para atender cidades pequenas, regiões afastadas e comunidades historicamente desassistidas. O problema não está simplesmente no aumento da oferta, mas na maneira acelerada, desordenada e predominantemente mercantil pela qual essa expansão aconteceu.
Durante uma greve de médicos no Ceará, em 1992, uma frase depreciativa foi atribuída ao então governador Ciro Gomes: médico deveria ser como o sal, branco, barato e encontrado em qualquer lugar. Ciro Gomes sempre negou tê-la pronunciado, razão pela qual sua autoria permanece controversa. Verdadeira ou não, a frase acabou simbolizando uma concepção perigosa: a ideia de que bastaria inundar o mercado de profissionais para resolver os problemas da saúde pública.
O resultado dessa política está diante de nós. A formação médica transformou-se em um dos negócios mais lucrativos do ensino privado brasileiro. Grandes grupos empresariais, fundos de investimento e empreendedores sem tradição acadêmica perceberam rapidamente a oportunidade. Empresários provenientes dos mais variados setores passaram a investir na abertura de faculdades de Medicina, atraídos não necessariamente por uma vocação educacional, mas pelo extraordinário potencial de faturamento.
Não se pode generalizar. Existem instituições privadas sérias, estruturadas e comprometidas com a excelência. O que se critica é a abertura indiscriminada de cursos sem hospitais de ensino, laboratórios adequados, professores qualificados, campos de estágio suficientes e programas de residência compatíveis com o crescente número de formandos.
O médico que deveria ser barato nunca foi barato para sua família. Em algumas instituições privadas, a mensalidade do curso ultrapassa R$ 15 mil. Ao longo dos seis anos de graduação, sem considerar reajustes, moradia, alimentação, livros, instrumentos e demais despesas, o custo total pode superar R$ 1 milhão.
O paradoxo é evidente: vendeu-se à sociedade a promessa de democratização da Medicina, mas criou-se um mercado educacional extremamente caro e altamente rentável. De um lado, empresários comemoraram a oportunidade de ganhar dinheiro. De outro, governos passaram a exibir o crescimento do número de cursos e profissionais como prova de compromisso com a saúde da população.
Politicamente, todos pareciam satisfeitos. Os investidores ampliavam seus lucros; os governos anunciavam mais vagas; e as cidades comemoravam a chegada de uma faculdade como sinal de progresso econômico. Entretanto, a qualidade do ensino nem sempre recebeu a mesma atenção dedicada ao número de matrículas.
Medicina não se aprende apenas em salas de aula, apostilas ou plataformas digitais. Sua formação exige contato permanente com pacientes, hospitais estruturados, laboratórios, professores experientes, preceptores, pesquisa científica e acompanhamento rigoroso da prática clínica. Uma escola instalada em prédio inadequado e sem acesso a uma rede assistencial suficiente pode até conceder diplomas, mas dificilmente garantirá uma formação completa.
A consequência desse crescimento sem planejamento é a colocação no mercado de milhares de profissionais recém-formados, alguns deles sem a experiência prática e a segurança necessárias para enfrentar situações complexas. Não se trata de responsabilizar individualmente esses jovens. Muitos também são vítimas de um sistema que lhes cobrou mensalidades elevadíssimas e lhes prometeu uma formação que nem sempre foi entregue integralmente.
Também não se pode confundir quantidade de médicos com qualidade da assistência. O Brasil pode multiplicar o número de diplomas e continuar convivendo com filas, diagnósticos tardios, falta de especialistas, hospitais superlotados e profunda desigualdade na distribuição dos profissionais.
Nos municípios menores, existe ainda o risco de o atendimento médico ser reduzido a um protocolo de encaminhamentos. O paciente passa pela unidade local, mas, diante da falta de estrutura, de exames, de especialistas ou de segurança clínica, acaba enviado para centros de maior complexidade. O município suporta os custos da unidade básica, do profissional, do transporte e do encaminhamento, mas não consegue oferecer uma solução efetiva ao cidadão.
A abertura desordenada de faculdades também não foi acompanhada pela ampliação proporcional das vagas de residência médica. Forma-se um número cada vez maior de profissionais, mas não se oferece a todos a oportunidade de especialização prática e supervisionada. Cria-se, assim, um enorme contingente de jovens médicos lançados diretamente no mercado, muitas vezes justamente nos serviços públicos destinados à população mais pobre e vulnerável.
A saúde pública brasileira consome um volume gigantesco de recursos. O problema não é somente quanto se gasta, mas como se gasta, como se administra e, principalmente, o que efetivamente se entrega ao cidadão. Mais dinheiro, mais faculdades e mais profissionais não produzem automaticamente melhores resultados.
A expansão da formação médica poderia ter representado um grande avanço nacional, se tivesse ocorrido com planejamento, fiscalização e compromisso acadêmico. Entretanto, quando a educação médica passa a ser orientada prioritariamente pelo lucro, o diploma corre o risco de se transformar em mercadoria e o paciente, no destinatário final das consequências.
Não precisamos de médicos tratados como sal — abundantes e baratos. Precisamos de profissionais bem preparados, valorizados, distribuídos adequadamente pelo território e amparados por estruturas capazes de permitir o exercício digno e eficiente da Medicina.
A saúde da população não pode ser submetida à lógica de uma linha de produção. Formar médicos não é fabricar diplomas. É preparar pessoas para tomar decisões que podem significar a diferença entre a vida e a morte.
Quando o lucro ocupa o lugar da qualidade, a conta não chega apenas para o estudante ou para sua família. Ela chega aos hospitais, aos municípios, ao Sistema Único de Saúde e, sobretudo, ao cidadão que procura atendimento no momento em que mais precisa.
Mariano Higino de Meira, foi escrivão de polícia, delegado de polícia, vereador, chefe de gabinete, pos graduação em direito público e de Estado, advogado com especialidades em direito bancário, imobiliário, consumidor e trabalhista
REFERÊNCIAS
ASSOCIAÇÃO PAULISTA DE MEDICINA. Mercantilização das escolas médicas no Brasil. 6 maio 2025. Disponível em: https://www.apm.org.br/mercantilizacao-das-escolas-medicas-no-brasil/
OLIVEIRA, Bruno Luciano Carneiro Alves de et al. Evolução, distribuição e expansão dos cursos de Medicina no Brasil (1808-2018). Trabalho, Educação e Saúde, 2019. Disponível em: https://www.scielo.br/j/tes/a/SGBd4Hbk5ghWD3yg6vqt3Jk/
FOLHA DE S.PAULO. Ciro discutiu com médicos ao governar CE. 24 ago. 2002. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/fsp/brasil/fc24082002 33.htm.
DIÁRIO DO NORDESTE. Novo secretário de Saúde, Ciro Gomes nega desafeto com classe médica no Estado. 9 set. 2013. Disponível em: https://diariodonordeste.verdesmares.com.br/politica/novo-secretario-de-saude-ciro-gomes-nega-desafeto-com-classe-medica-no-estado-1.851351.



