Uma frase, um verso, e o dia amanhece em outra página. A vida se faz no intervalo entre erros e acertos, sonhos e pesadelos. Ontem, sentado à beira do caminho, eu esperava a imaginação chegar — como quem aguarda uma luz tardia para reinventar o mundo à margem deste mundo. E me perguntei o que cabe em um instante: o passado que já se foi, o futuro que ainda busca forma, o presente que se desfaz assim que o nomeamos. Começar este texto já foi atravessá-lo.
Ainda assim, algo insiste em me fazer acreditar que tudo pode melhorar. Uma manhã de sol basta para lembrar que a vida se recria em tudo o que se move. À noite, cansada, deseja paz: dorme e sonha um céu azul, um horizonte vasto, um gesto de partilha que alimenta o mundo.
Mergulho então em mim, buscando uma essência que me reúna num único sentimento. Vejo jardins florescendo e semeando instantes que ainda brotarão em outros versos. Depois das flores, outro dia nasce para compor a vida e desejar o amanhã. A existência nos presenteia no suor do trabalho, no mínimo gesto que permite sermos quem somos. O amor, tão humano, devolve-nos a humanidade que às vezes perdemos.
Caminhamos suportando os espinhos, mas não desistimos. Mesmo no escuro de um olhar há sempre uma réstia de esperança. Mesmo nas contradições, pulsa um sentimento que nos ampara e humaniza.
Acredito num mundo feito de singelezas: o sabor suave de um cálice de sabedoria jogado ao vento, palavras que se abrem como flores — ainda que algumas nasçam sem sentido e carreguem a maledicência das frases desalinhadas. Às vezes, é preciso uma pausa. Nem sempre as palavras precisam ser ditas. Somos muitos, e somos um; filhos da mesma terra. Os jardins se petrificam, mas as sementes persistem. As águas inundam desertos e irrigam corações.
Há um canto triste que escuta meu silêncio, e nele deposito meus desejos no jardim da esperança. Espero a chuva como quem implora ao tempo que desperte sentimentos adormecidos e dê à alma a chance de florir. São pequenos instantes preenchendo o que resta — como o último verso de uma última poesia.
Há lágrimas escondidas em cada olhar, e em cada lágrima, um sorriso da alma. A vida poetiza seus próprios caminhos nas nuances entre um olhar e outro, na carícia breve do tempo sobre o que sentimos. As lembranças são vagas, mas basta um instante para escrever o próximo verso. Ainda há sentimentos nos pequenos intervalos; escuto, porque o tempo também deseja ser feliz.
Viver é mais do que existir — é ter histórias para contar. O vento passa e leva algo de mim; o silêncio fica tateando o vazio onde mergulho na imensidão do nada. Nas veredas do futuro, o trem da história segue rumo ao infinito. Entre o ser e o ter, há um vazio que consome. Os rios se perdem no próprio curso, as águas evaporam, e o mundo parece submergir em decadência.
Mas ainda é possível confortar corações, ensinar o amor, desconstruí-lo e reconstruí-lo em poesia. Um sorriso clareia o escuro que às vezes habita meu olhar. A noite invade meus sonhos e rouba minhas estrelas. Eu rabisco a imaginação, desenho sentimentos e fujo entre horizontes que também fogem de mim. Enquanto isso, bocas famintas engolem as estrelas do firmamento.
Mesmo assim, os sonhos renascem no pôr do sol. Aos olhos do mundo, somos o ser, o ter e o pouco que sabemos da nossa frágil sapiência. Restam-me migalhas em mesas fartas. Fugi dos espinhos e me feri entre flores; apaguei estrelas e escureci meus dias. Um sonho me deixou — escapou pelas entrelinhas de um adeus.
Guardo versos escondidos para compor outros dias. O silêncio se recolheu, as flores do meu jardim murcharam. Houve tristeza, instantes escravizados, momentos amordaçados. Sinais de guerras esquecidas ainda estremecem as trincheiras da memória. Entre escombros, restam ilusões e uma melodia ao luar.
São outros dias em outros tempos. Lábios que beijaram e luas que acariciaram rostos ainda sussurram que o caminho pode ser suave, apesar dos espinhos, e que sempre há abraços esperando alguém.
O mundo, no entanto, se esconde sob a face decadente dos podres poderes — entre a hipocrisia, o ódio e a indiferença que desmancham a poesia e descolorem o horizonte. E, mesmo assim, entre flores e canções, ainda há amores que resistem.
Meu resto de sol se esconde entre a lua e as estrelas. Entre sonhos e pesadelos, sempre nasce um novo horizonte. São flores feridas pelos próprios espinhos, são olhares e lágrimas, são dias esquecidos guardados numa última lembrança.
E, poeticamente, permanecem versos silenciosos — mesmo em tempos bravios.
Luiz Carlos de Proença Autor dos livros: A pele do vento e Humana poesia



