Falamos de caminhos e de rios, do pensamento e da fragilidade humana. Sabemos, ainda que de modo impreciso, que nunca pisamos duas vezes na mesma água e que tampouco somos os mesmos quando retornamos a um pensamento antigo. Falamos do mercado, da economia e da busca incessante por um lugar ao sol, como se a vida fosse uma disputa silenciosa por algum espaço de luz. Há uma casa no meio do nada, e o nada, por vezes, torna-se companhia. É dessa mistura de coisas grandes e pequenas que nasce uma poética do universal, uma tentativa de dizer quem somos diante de tudo o que nos envolve porque o caminho, muitas vezes, não está fora de nós, mas acontece enquanto caminhamos.
Há um cristal quebrado e algo que insiste em ser, mesmo quando não se encaixa no molde que lhe é oferecido. Talvez aí resida uma forma íntima de revolta: continuar existindo quando o sentido falha. As estrelas parecem seguir um modelo que não alcançamos, as frases saem desajustadas e o horizonte se apresenta em linhas tortas.
Abutres sobrevoam montanhas, aranhas aguardam em suas teias a pressa alheia, e seguimos jogando o segundo tempo de uma partida interminável, mesmo quando já sabemos quem será o vencedor.
Entre paradigmas e contradições, borboletas voam sobre flores de plástico. Um rio recita poesia enquanto as águas da vida acompanham o ritmo do caminhar, como um decassílabo invisível. As portas das grandes casas permanecem fechadas, assim como as janelas de um mundo cada vez mais cúbico, organizado para o cálculo e para a utilidade. Há despedidas de momentos, futuros que cabem em instantes e lembranças de noites plácidas marcadas pelas inglórias vitórias do medo. Mesmo quando é tarde, mesmo quando os mares não acolhem os barcos ancorados no porto da imaginação, seguimos talvez porque seguir seja nossa forma mais humana de esperança.
Moscas formam suas cúpulas, abelhas constroem colmeias e produzem mel. A mata é densa, os dias se alongam como travessias necessárias para outras formas de imaginar a vida. Tudo parece obedecer a uma ordem que não julga nem absolve, apenas acontece.
O dente do leão e o veneno da cobra, paradoxalmente, alimentam campos floridos entre lírios e ervas daninhas, lembrando que nem tudo o que fere é apenas destruição, e que a vida não se deixa reduzir à moral do conforto. Um pássaro voa sozinho e, nesse voo solitário, parece alimentar o infinito ao atravessar as incógnitas da Via-Láctea. Depois, pousa de forma forçada sobre árvores secas, fincadas em desertos de águas cristalinas que não saciam a nossa própria sede.
Descobrimos muito, evoluímos bastante, mas encenamos nossas conquistas em palcos mediáticos, onde a imagem vale mais que a experiência e a sedução frequentemente substituem o sentido. O espelho já não diz o que vê; devolve apenas aquilo que desejamos acreditar. Frases enigmáticas se acumulam em páginas de livros que prometem atalhos para dores complexas.
A vida ensina à sua maneira, e o instante também se torna pedagógico. A terra e a água brotam de uma fonte primeira, enquanto a mente tenta compreender o mundo e o coração insiste em senti-lo. Há um sentimento do próprio sentimento que nos reveste do inexplicável, como acontece com o poeta que trabalha as palavras com cuidado, tocando cada uma delas sem lhes roubar o brilho, sabendo que nelas habita mais do que significado, por vezes, habita o próprio ser.
As nuvens guardam a chuva, a terra se solidariza com a semente. Os versos de uma poesia convivem com a dor de uma ferida que faz do tempo, ao mesmo tempo, algoz e alívio. O passado insiste, o futuro chama, e o presente escapa entre os dedos. As manhãs se misturam às manhas na inocência do sorriso de uma criança. Ainda chove, mas o sol sempre retorna, e o cheiro da terra molhada lembra que somos feitos dela e que com ela estamos profundamente entrelaçados.
Quando o texto perde o contexto, torna-se pretexto para a superficialidade e para voos rasantes que ferem as asas. Já em águas profundas, a profundeza nos envolve por inteiro e exige outro fôlego. Nas margens dos caminhos estreitos, próximos ao penhasco, a esperança permanece atenta e pede licença para voar conosco, sem promessas, sem garantias, sem medo.
Entre o ser e o estar, o pensar e o pensamento, habitam as perguntas sobre o que somos, o que fomos e o que ainda seremos. O humano que nos humaniza, a coragem que nos sustenta, a verdade que liberta e o sentimento que nos devolve a humanidade perdida. Voamos com a incerteza por paisagens belas e infinitos que sublimam o olhar, aprendendo que viver talvez seja sustentar perguntas mais do que acumular respostas.
Sobre nós e sob nós, céu e terra. Outras margens, outros rios. Caminhos, caminhantes, sonhos que se sonham. Vidas que se entrelaçam em sentimentos profundos, onde convivem o amor, o ódio, a indiferença e o jardim silencioso da passividade. Mãos que se tocam, rostos que se revelam, olhos marejados em lágrimas do mundo.
O vento sopra e talvez diga algo sobre o caminho do tempo. Um jardim de flores coloridas exala essência enquanto abriga também o indesejado. Há dor, tormenta e tempestade, mas há também a estranha festa dos desafetos, onde aprendemos a duras penas a conviver com aquilo que não escolhemos.
Por fim, as portas se abrem. A casa é nossa, iluminada, com tapete de linho. A mesa está posta, coberta por toalhas brancas e abundância. Comemos, bebemos, cantamos. O outro deixa de ser ameaça e se torna presença. Permanece, no entanto, o encanto de uma paz inquieta, solenemente silenciosa. A noite passou. O dia amanheceu.
Luiz Carlos de Proença – Autor dos livros: A pele do vento e Humana poesia



