Um fluido de pensamento atravessa o silêncio, como se o tempo respirasse dentro de mim. Em outra margem do sentimento, um dia partiu sem se despedir; foi voar em outro horizonte, escrever outros livros e, talvez, ludibriar a si mesmo. Então pergunto: tempo, o que queres de mim? Queres o tempo do meu tempo — apenas o momento, o instante e um pouco do que já não existe mais. Do que eras? Eras o tempo que me habitava, escorrendo pelas frestas do infinito.
Houve um tempo de amar, de ternura, de suavizar os corações. Um tempo atracado nos mares da vida, nas águas profundas que carregam sonhos, segredos e desejos. São olhares lançados sobre o tempo. Ele passa num piscar de olhos. Vejo os meus dias: entro em cena e logo saio. Faço e refaço e, depois de alguns momentos, desfaço tudo na imaginação. Foi um tempo. Era o tempo. Até que também se esgotem os próximos instantes. Tempo meu, meu tempo, meu caminho e meu caminhar.
E assim segue a vida: os momentos avançam, fluem, florescem. Sinto em mim as dores do mundo; peço cura, cicatrização e bênçãos ao céu. A vida se revela em líricas insinuações. Os gritos cessam, e a suavidade, mansamente, inaugura novos tempos. O tempo se dissolve em mim, moldado pelas intempéries, fiel ao seu próprio ritmo. Ele conhece a hora exata do amanhecer e do anoitecer. O brilho das estrelas e o clarear da lua obedecem a um tempo próprio: sabem quando surgir e quando se ausentar.
A flor conhece o seu tempo e não o desperdiça. As folhas caem porque sabem que o ciclo terminou. Os frutos amadurecem saboreando o percurso que os trouxe até ali. As águas seguem o seu curso — ora mansas, ora violentas. Há o tempo da chuva que molha a terra, o tempo de semear, o tempo da lágrima que se desfaz no olhar, seja na alegria avassaladora, seja na tristeza profunda. O tempo se esvai deixando rastros, marcas e vestígios nas trilhas da memória.
Talvez o tempo esteja entre as palavras de um texto. Talvez exista entre a flor e a raiz, como um intervalo necessário para contemplar o próprio tempo. Agora o vejo pelas frestas do infinito e contemplo um olhar distante ao longo do sol. Passado e presente se misturam em memórias insólitas das manhãs causticantes. Em sonho, vislumbro o futuro nos delírios do amanhã. Entre todos os sonhos, a sabedoria beira a loucura. O poeta, a poesia e as feridas que insistem em não cicatrizar.
Janelas se abrem; ruas e muros recebem mensagens ao vento. O silêncio retorna, acompanhado de um som delicado nos momentos mais ternos. Distante dos olhares que buscam o deslumbre do mundo, procuro uma saída — ainda que seja pela janela. Os dias passam, as manhãs se repetem, as tardes aguardam o abraço da noite. Sempre haverá sentimentos, e também as rugas do tempo marcadas na face da memória.
Entre retas e curvas, as águas contornam seus obstáculos. Há um tempo distante e um sonhador à margem da existência. Na voracidade do mundo, à beira do precipício, os sonhos dormem no jardim da imaginação. Ao contato do que não se viu nem se sentiu, algo se rompe em momentos quiméricos e singelos. Na próxima esquina, a banalidade e os absurdos se apresentam em tempo real. A paz inquieta permanece, e a vida segue seu fluxo.
Nas veredas imaginárias, acumulam-se vestígios, lamentos e a fugacidade das palavras no silêncio do dia seguinte. Talvez reste um sonho num rio de águas limpas, uma lágrima para os dias nublados, um dia inteiro para colecionar momentos. Então me pergunto onde nasce o sentimento e o que ele faz em mim. O momento parece longo; o instante passa depressa. O que o tempo diz sobre o silêncio que se ausenta apenas para afirmar que valeu a pena tudo o que foi vivido?
Diga algo ao tempo. Fale o que sente, diga ao vento. Mas não apague o sol, não roube as estrelas, não ofusque o brilho da lua. Deixe o tempo dizer o que quer. Acolha o sol de cada amanhecer. Você sabe quanto tempo tem o próprio tempo? Ele conhece o valor dos pingos de chuva que enchem os rios e fazem florescer os jardins. Talvez o tempo saiba. Eu não sei.
Peço que não me julgue. Ouça-me. Talvez sejam apenas palavras, mas tente ouvir o silêncio. Talvez ele revele as palavras certas no momento exato em que um sentimento se completa. Peça ao tempo mais tempo para falar e para silenciar, para sonhar e realizar, para ver e enxergar. Caminhemos entre versos e palavras, entre os passos já dados e os vestígios que ficaram.
O tempo é senhor de tudo. Tudo gira ao seu redor. Ter tempo e não ter nada. Não ter nada e ter apenas o tempo. Mesmo quando parece abundante, ele passa depressa. Por isso me apego ao momento presente, ao instante em que escrevo estas palavras e sinto um pouco de mim indo embora. As folhas seguem ao vento, e ao tempo nada basta — ele basta a si mesmo.
Pergunto o que resta ao tempo. Nada sei. Sei apenas que estou aqui, aprendendo com a vida, tentando ser melhor a cada dia. Peço ao tempo que me espere na próxima poesia, nos versos ainda não escritos, no livro que ainda não existe. Que me espere na conversa com um amigo, no copo d’água que mata a sede, na noite que embala o sono. O tempo não espera — mas isso não importa. O que importa é que ainda há tempo. Sempre é tempo de rever conceitos, caminhos e escolhas. Um novo dia já amanheceu. É hora de semear, cuidar, colher e partilhar.
Luiz Carlos de Proença – Autor dos livros: A pele do vento e Humana poesia



