Publicado desde 1969
Fundado por José Carlos Tallarico

O sorriso do tempo e o jardim esquecido

Sob os olhares, transpassa um pequeno horizonte, paisagem de um quadro de Leonardo da Vinci. A imagem e o sorriso enigmático da Mona Lisa: um olhar atravessando o tempo como se sussurrasse as inquietações de Heráclito sobre o fluxo eterno das coisas. O fluxo da suavidade e o avesso da complexidade sob a sublimidade humana. O teor da amargura em lembranças emaranhadas, cálice de fel que ecoa à noite do Livro de Jó adormecido em grandes tempestades.

Campos minados não semeiam olhares nem colhem a seiva da menina dos olhos que se esconde entre pétalas de flores, como se a esperança ainda atravessasse as páginas de O Pequeno Príncipe. O sonho do mundo sob mãos maléficas que afagam espinhos e destroem flores.

O clamor por um novo tempo e a mendicância pela paz, lembrando o grito silencioso de Mahatma Gandhi. O senhor do tempo e a mão pesada que estilhaça o metal. A vida negociada nos balcões da intolerância, como denunciou Hannah Arendt ao falar da banalidade do mal. Passos nômades cambaleiam nas ruas escuras de cidades iluminadas. A torre de marfim, hino à decadência humana.

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O rio das lamentações flui como os salmos do Livro dos Salmos sobre lacunas que infinda a imaginação. O teor do tédio e a cor da noite futura. O riso, o choro e as lágrimas de dias que não amanheceram, à maneira das angústias de Franz Kafka. A fornalha que aquece o pão amanhecido para suprir a fome dos jardins esquecidos. O buraco negro, a estrela cadente e o infinito nas paralelas do universo que fascinavam Albert Einstein.

A enciclopédia do destino, e a voz do vento ouvida pelo tempo como um sussurro de Friedrich Nietzsche sobre o eterno retorno. A chuva já passou; depois, a sombra, a aragem e a acidez de um sabor quase amargo. O filme do acaso e planícies floridas em pleno inverno, como cenários de Ingmar Bergman. As dores dos instantes ainda latejam, enraizadas profundamente nos momentos.

Talvez sejam os próximos instantes de um tempo qualquer se disfarçando em sonhos apenas para sobreviver aos próximos momentos, como personagens de Jorge Luis Borges perdidos em labirintos do tempo. Tudo em si querendo ser outro, em outras noites, sob outras estrelas, só para brilhar outra vez como se fosse dono do tempo. Como se pudesse ouvir o silêncio no escorrer de uma lágrima.

Se este for o momento, diga ao tempo que pare, como desejou Fausto diante do instante perfeito. Diga ao poeta que os versos são lágrimas da poesia, lembrando o sopro lírico de Fernando Pessoa. Pois tudo é fruto desse profundo sentimento: viver cada instante como se fosse o único e poder ser, enfim, aquilo que se é. Um sonho que amanhece, um verso que recita o infinito em outros momentos. Só a poesia vive na eternidade dos versos.

Por vezes me assusto com tanta banalidade. Por mais perverso que seja o ser humano, não compreendo tantas atrocidades. Sei que ele é assim e, ainda assim, não me acostumo — inquietação que ecoa o absurdo de Albert Camus.

Ensina-me a semear os dias que ainda me querem. Ensina-me a silenciar para compreender-me, como buscava Santo Agostinho no interior da alma. Ensina-me a ser, a ver e a sentir. Ensina-me a olhar o mundo com os olhos da compaixão que iluminam o caminho de Dalai Lama.

O hálito da vida e a essência exalada por todo canto do mundo. Somos versos que se escrevem a cada instante, compondo a grande obra da criação, como na cosmogonia poética de Gênesis. O sublime afeto e a afeição no olhar do mundo.

A leveza em pleno sentimento. Um sorriso e já é outro dia. Outras manhãs molduradas pelo véu das incertezas. Era dócil, meigo e tão raivoso que portas se fecharam. Um olhar que quer enxergar mais longe. Parecia distante, mas era nítido. Como se os olhos quisessem segurá-la nas mãos.

Entre a suavidade e a sublimidade das pobres manhãs, enroladas em jornais velhos, o dia de hoje se equilibra entre pontes, muros e o mistério do outro lado, como travessia de Grande Sertão: Veredas. Sentado na velha cadeira vazia, lembranças de um tempo que ficou e, ao mesmo tempo, passou. A vida em um livro, os dias em versos e o mundo uma poesia.

Ainda há flores nesse jardim, mesmo que sejam apenas retrato pendurado na velha parede desbotada — persistência que recorda a esperança de Emily Dickinson, que sempre encontrou jardins dentro do silêncio.

Luiz Carlos de Proença – Autor dos livros: A pele do vento e Humana poesia

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