Publicado desde 1969
Fundado por José Carlos Tallarico

O silêncio entre a vida e a eternidade

A vida descansa depois de uma longa jornada. Não há nenhum mérito em viver; viver é necessário. A vida não é um fardo, é presente, é dádiva. Talvez seja esse o primeiro mistério: estar no mundo antes mesmo de compreender o significado de nele existir. Depois de uma noite, um dia nasceu, em mensagem refletida no coração da humanidade. A vida é o momento, como pode ser o instante. Assim, ouve-se o silêncio e escuta-se a voz da vida na intimidade com Deus. Há perguntas que não precisam de respostas, pois o próprio silêncio, em sua linguagem indecifrável, já nos conduz a algum lugar.

E o vento soprou nas narinas do mundo e, consigo, plantou no coração da humanidade o amor que ainda floresce. Há, nessa imagem ancestral do sopro, algo que atravessa os tempos: a vida recebida como dádiva e devolvida ao mundo em gestos de humanidade. Para dizer que um dia foi saudade, retalhos de lembranças confeccionados com a linha do horizonte, para adormecer na eternidade. E, nesse algo que mora em nós, habita a plenitude que nos compõe e nos refaz. É o silêncio conversando, num diálogo entre o ser e o próprio ser, com a profundidade de um sentimento repleto de humanidade.

Como se, por um instante, pudéssemos escutar aquilo que Clarice Lispector tantas vezes nos faz pressentir: há experiências que escapam às palavras, embora continuem pulsando dentro de nós. A serenidade e o afago das mãos que resvalam pela inteireza de todo o ser, refletido no espelho da alma.

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Humanamente, demasiado humano. Entre nós e o entrelaçamento do todo, uma visão profunda do ser que se nutre de suas próprias inquietações. A expressão de Nietzsche parece encontrar aqui um lugar: somos humanos, demasiado humanos, feitos de contradições, fragilidades, desejos e esperanças. Para longe, muito próximo, quase ao alcance das mãos. De repente, é a vida; logo depois, sentimentos que emergem em lágrimas. Olhares perdidos à procura de algo em um horizonte distante. Agora é semente; amanhã serão frutos nutrindo a esperança. E talvez sejamos também isso: a possibilidade de recomeçar, mesmo quando o caminho parece ter perdido sua direção.

No outro lado do caminho, o silêncio ao longo da margem da existência. Um dia, partiu em busca da vida, mesmo escondida nas trincheiras do desconhecido. As águas estavam calmas, e a vida passava no sossego dos inquietantes momentos entre chegadas e partidas. O cais e a solidão dos barcos velejando em direção ao próprio destino. Há partidas que não encerram uma história; apenas transferem sua presença para o território das lembranças. O tempo, esse velho enigma que nos atravessa, parece correr sem que possamos segurá-lo. Santo Agostinho, ao refletir sobre o tempo, voltou o olhar para a interioridade humana, como se passado e futuro encontrassem no presente o lugar de sua permanência. Dentre os momentos, o instante entre o tempo e a saudade, sob as asas de um pássaro que ainda sonha.

Um dia escrito nas páginas de um livro que não quis voar sob o vento das novas possibilidades. Ainda se contam novas histórias sobre os velhos tempos de poesias ao sol e chuvas de primavera. Cada palavra de um longo texto, cada passo de uma longa caminhada e cada vida guardada em um baú de saudade. A vida é cheia de imprevistos, embora nada se espere do inesperado. Há páginas que permanecem abertas, mesmo depois de encerrada a leitura, e personagens que continuam caminhando dentro de nós.

Talvez Fernando Pessoa tivesse razão ao fazer da multiplicidade do ser uma matéria de poesia: somos muitos dentro de nós mesmos, atravessados por lembranças, vozes e sentimentos que nem sempre reconhecemos como nossos. E assim, cada olhar que deixou de olhar fechou-se em uma lágrima para ver melhor.

No outro caminho, um novo caminhar e, assim, corações partidos. Das dores do caminhar, sempre surgem feridas curadas e dores cicatrizadas. Lá no jardim da saudade, flores sem primavera e corações demasiado prontos para o amor. Vida e saudade são passos do mesmo caminhar. Vasos de flores enfeitam os corações e, depois, desabrocham antes que as sementes germinem. Existe uma estranha sabedoria nas coisas que florescem fora de seu tempo, como se a natureza nos ensinasse que nem tudo obedece à pressa dos nossos desejos. No céu do olhar, um gosto de vida que quer saborear a doçura dos momentos na completude do viver. Porque amar talvez seja isso: acolher a imperfeição do mundo sem deixar de acreditar na possibilidade de torná-lo mais humano.

Depois de alguns versos, o rio saciou a sede, e o horizonte sonhou outra vez com um beijo na face da vida. E se as noites não quisessem ser escuras? O luar seria eterno, e as estrelas brilhariam de mãos dadas com o sol. Mas talvez a luz só tenha sentido porque conhecemos a sombra, e talvez a esperança encontre sua maior grandeza justamente onde a realidade parece negá-la. O perfume dos lírios nos líricos cânticos dos dias felizes.

Assim como os sonhos caminham nas veredas do lirismo de uma vida que passou para a eternidade. Há uma poesia silenciosa na passagem das horas, um verso que não se escreve no papel, mas permanece na memória de quem soube contemplar o mundo.

E se a vida fosse soprada pelo vento, o sentimento nasceria no jardim da saudade. Os pés que pisam a terra, o barro que contorna a imagem do infinito. Somos feitos também dessa matéria simples, desse pó que ganha forma e, por um breve instante, aprende a amar. O pão tem fome, e a água farta a vida em um gesto de benevolência. O caminho para o horizonte e uma escada para o infinito. O amor nos dias de paz, e a paz quer abraçar a vida para semear um mundo novo. A inspiração do poeta no silêncio de uma flor e a constelação estelar da vida sob o olhar fraterno da irmandade. Talvez a grandeza humana não esteja em conquistar o infinito, mas em reconhecer a dignidade de quem caminha ao nosso lado. A transcendência, afinal, também pode morar em um gesto de cuidado, em uma mão estendida, em um pedaço de pão repartido.

O mistério da vida, o indecifrável. A vida não é um enigma para ser decifrado. A vida é para ser admirada e vivenciada. Talvez seja esse o ponto em que a filosofia precise fazer silêncio para que a existência possa falar. O sublime do amanhecer e a sublimidade do anoitecer. A lua aos pés da cama, em um sono profundo, enquanto as estrelas iluminam o caminho a seguir. O poder da bondade e os olhos do coração que enxergam a humanidade admirando a si mesma. Não se trata de encontrar uma resposta definitiva, mas de aprender a habitar as perguntas, aceitando que algumas verdades só se revelam quando abandonamos a pretensão de possuir todas as respostas.

Portanto, são os momentos, todos os momentos, aglutinando afetos, mesmo quando o mundo diz não. Agora, um tempo para contemplar a vida e todos os milagres da sublimação humana. A fragilidade enaltece a fortaleza do templo humano. Somos fortes não porque deixamos de sentir a dor, mas porque, apesar dela, ainda somos capazes de acolher, compreender e amar. Lágrimas que choram pelos olhares que se fecharam. Há ausências que permanecem como uma presença silenciosa, e lembranças que se transformam em pontes entre aquilo que fomos e aquilo que ainda podemos ser. No outro lado do caminho, não há lamentos: tudo é infinito e infinitamente pleno. E talvez a eternidade não seja apenas o lugar para onde partimos, mas também aquilo que deixamos florescer nos outros enquanto ainda estamos aqui.

Luiz Carlos de Proença Autor dos livros: A pele do vento e Humana poesia

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