O que vem à mente neste momento? Faço essa pergunta para tentar abrir as portas da imaginação e conectá-la com a realidade. E se as portas não se abrirem? Sem problema; pelas janelas também se pode entrar. O que importa é imaginar que se está escrevendo algo inédito. E, nesse imaginar, viajar mesmo sem ter um lugar nessa aeronave. Escrever para transpor barreiras, perpassando o próprio ser.
Ler o mundo e escrever nas entrelinhas dos parcos momentos. Escrever os momentos e ler os instantes nas páginas de um livro feito de sentimentos. Ir além do que se imaginou, talvez colher o que não se plantou. Mergulhar nas noites escuras para apanhar sentimentos no fundo de um coração.
Quando o novo dia amanhecer, com o sol querendo brilhar, deixe tudo como está; logo virá a chuva para molhar a suavidade dos próximos dias. E, entre as nuvens, perdidos nos labirintos e esquecendo-nos de pensar, lembramo-nos do sentimento que ainda vive, apesar das barbáries. Mesmo assim, o ser humano, às vezes herói, outras vezes vilão. Tampouco são apenas os tormentos e os dias cansativos, cheios de aborrecimentos. Há sempre a esperança de outros tempos e de outras possibilidades.
Quanto vale a vida quando se investe em guerras? E o sorriso triste de uma criança, sem nada entender, apenas sofrendo pela imbecilidade humana? Eis o lado perverso da humanidade: a inteligência que produz a guerra e produz a morte; o interesse, a geopolítica do expansionismo e o confronto que se torna hegemônico. Quanto vale o que se paga? E o que se paga não tem preço.
O que irá sobrar quando a guerra terminar? Não se sabe, pois, a guerra é contínua. O que alimenta o lado mau da humanidade? O poder dos algozes e o sentimento humano em farrapos. A face que fere, as lágrimas ausentes e o sorriso distante. O que nos desumaniza?
Por que fazemos tantas perguntas? As respostas estão fugindo ou fingindo ser o que não são. Através do espelho, a face da imagem espedaçada espera alguém para reconstituí-la. Depois, outra imagem, em outras palavras, com novos significados. Com frases aparentemente desconexas, segue um texto sem saber para onde vai, traçando novas paralelas em uma visão tridimensional do todo, formando-se sobre um lastro de tempo.
O mapa de um pensamento territorialmente organizado em pequenos feixes de dúvida, refazendo-se em sinapses. Os detalhes de um todo dividido em partes desiguais, distribuídas como castas. O termômetro do tempo e o placar no jogo dos sentimentos. A justa medida entre os segundos que antecedem a queda.
Todas as dores em uma única ferida, assim como todas as lágrimas de um só olhar. Talvez seja um caminho; também pode ser apenas um atalho. Um rosto triste no meio da multidão. Um rio que se perde em sua própria grandeza. Um cais de porto para ancorar águas passadas. O vento que move o moinho sob o sol de outros temporais. Espera-se tanto do futuro para colher os frutos das sementes plantadas no presente. Um diálogo entre o sol e a lua sobre sentimentos que não conseguem sentir. E o que diz o pensamento que voa sozinho, com medo da solidão e do pesadelo das noites escuras?
Agora, depois que o dia amanhece, transpassa e perpassa, pelas frestas do humano, um sentimento que alimenta e nutre. Nasce dos jardins, das sementes transpiradas pelo tempo e do broto que insiste em ser flor e fruto. A bondade da terra inspira os afetos na ternura que nos faz solidários. Não é o campo devastado o sinal da morte, mas a ação das mãos predadoras que secam os rios e fazem cinzas das flores frondosas.
O desenho do mundo imaginado por um sonho que acordou com o silêncio da esperança. Depois de muitos afazeres, a abelha voou e a borboleta pousou sobre os grãos de areia que margeiam a consciência. Há algo mais além do que existe, e os olhos conseguem vê-lo sem que as mãos possam tocá-lo. São os versos de uma poesia derradeira. E, sob esses versos, a terra, o céu e todos os louvores à divina criação.
Luiz Carlos de Proença – Autor dos livros: A pele do vento e Humana poesia



