Uma criança entre os animais e um rei sem trono, sem púlpito e sem guardas imperiais. As portas estão abertas; sempre estiveram. No escuro de uma noite feliz, deitado sob a relva da existência, conto estrelas e embrulho presentes como um rei mago errante — sem ouro, sem incenso e sem mirra.
Escrevi cartas, e o Papai Noel nunca me respondeu. Brinquei com as palavras e fiz poesia dos versos vazios com os quais tentei me preencher de uma tal felicidade. Plantei meu sonho e reguei minha esperança. Busquei no horizonte minhas inquietações. Ao aquietar-me, vislumbrei o infinito e descansei sob o silêncio. Embriaguei-me entre os instantes, ao sabor dos diferentes momentos. Encanta-me a poesia, os doces instantes na suavidade do ser. Encantam-me os sorrisos de criança, a plena pureza da inocência. Então, dê-me um sorriso: faço verso e construo meu barco para velejar os mares da vida.
Talvez o Papai Noel não goste de poesia — estou apenas conjecturando ideias, pensamentos, tudo isso embebido em algo suspenso no ar. Papai Noel gosta de luzes, luzes artificiais que clareiam o momento, mas não iluminam a alma. Quem sabe esse “velhinho” não conheça todos os endereços ou já tenha esquecido alguns. Seria muito injusto se ele escolhesse presentear apenas quem merece. Mas qual é o critério para medir tal merecimento? O Papai Noel, símbolo do Natal comercializado, nos ludibria com o brilho das luzes artificiais, enquanto permanecemos sedentos por enfeitar as casas, mas não os lares.
O dia amanheceu de uma noite feliz: noite de Reis Magos, estrelas do Oriente e animais em uma estrebaria. Os anjos cantaram Aleluia em saudação ao Menino que acabara de vir ao mundo. Nasceu a luz da luz, que iluminou a escuridão e trouxe alegria à noite. Um novo reinado iniciava-se entre os humildes, e a harmonia de uma nova humanidade emergia: do caos ao cosmos, o equilíbrio se revelava. Um amor que transpassa, refaz e ultrapassa o tempo, tornando-se eterno na eternidade do próprio amor.
Papai Noel, Natal, presentes e noite feliz. Nas ruas do mundo, a humanidade caminha cabisbaixa, e um novo Natal chega. Um novo Natal em meio aos velhos problemas humanos: guerras, conflitos, a força bruta e o poder dos mais fortes, sob luzes artificiais que escurecem as luzes humanas — aquelas que clareiam os corações e iluminam a alma. Soma-se a isso a insaciável busca por ter e parecer, e a fome que se espalha no chão seco da esperança.
Nasceu o Menino. É Natal. Nasceu o Natal em uma manjedoura, entre os animais. Um amor-menino oferecido à humanidade. Ainda assim, insistimos em trocar sua mensagem por aparências e superficialidades. Nos púlpitos e altares, sua palavra é proclamada, mas nem sempre nutre a alma ou fortalece o espírito. Mesmo assim, o Menino renasce. Ele nasce todos os dias, mas não o vemos, não o sentimos.
É Natal, mas trocamos o Natal do Menino pelo Natal do mercado. As luzes brilham, mas apenas na superfície, sem alcançar a profundidade dos corações. Vivemos tempos vazios e hostis, com afetos endurecidos. Onde está o Natal? Como vivenciá-lo? Ocupados demais, esquecemos o valor das pequenas coisas. No inesperado, mora a beleza capaz de nos oferecer os momentos mais sublimes.
Que seja Natal: uma esperança que não se cansa de esperançar. Abraçamo-nos, e tudo parece uma coisa só. É simples viver quando compreendemos o sentido da vida — quando entendemos que tudo está interligado: a terra, a semente, o fruto, o alimento. Tudo se solidariza para ser comunhão. O mundo pede paz, quer a paz e precisa de paz. A miséria machuca a alma e apequena a nossa humanidade.
Com a linha do horizonte traços os meus pensamentos embevecidos em profundos sentimentos. Escrevo entre as margens do intocável, beirando as impossibilidades de esperançar novos tempo. Adormeço e acordo em uma noite feliz, é Natal. Se faz o instante, perfaz o momento e transpassa o Celestial que semeia semente de divindade no coração da humanidade.
O Menino nasceu e sonhou a humanidade em uma noite de luz. O amor entre o todo. E uma paz, ora distante, ora mais próxima, em um entrelaçamento que exala humanidade. O amor amando e se nutrindo de si mesmo em um Deus que está em nós, que se fez humano para ser divino.
Um dia é Natal, e a tristeza faz-se alegria. A alegria se multiplica, refaz-se em si mesma, e o mundo acorda e sonha outras vezes, e outras mais. Palavras e silêncio. Uma poesia bebe o infinito para, em seguida, voar ao encontro da vida. Então é Natal: o nascer. Nascer em cada um de nós — esse “nós” que ainda não conhecemos. Nascer para ser. Estamos sempre nos construindo.
Feliz Natal a todos que amam sem medida e acreditam que a lógica do amor é o próprio amor. Que no pão de cada dia nos fartemos de esperança, na mística e na essência que nos fazem mistério insondável e indecifrável. Acolhamos o Natal: a luz que fez luz, que se faz e se refaz, perfazendo a ternura do Menino de Belém que habita e quer morar em cada ser humano.
Luiz Carlos de Proença – Autor dos livros: A pele do vento e Humana poesia



