Publicado desde 1969
Fundado por José Carlos Tallarico

Não lhe parece arbitrária e cruel a morte dos primogênitos egípcios?

Esta pergunta foi feita por um querido familiar, com o acréscimo de que Deus cometeu uma grande maldade para com os bebês e escolheu um povo em detrimento de outro. Para refletirmos sobre os fatos é necessário compreendermos o contexto narrado no livro do Êxodo, sobre a história do povo de Israel. Receberam este nome devido à aliança feita com Deus e foram escolhidos para levar a salvação a todos os povos. Era o único povo que praticava o monoteísmo, em meio a um mundo politeísta, pagão, que inclusive sacrificava bebês aos vários deuses.

Por mais de 400 anos foram escravizados no Egito. Por diversas vezes Deus ordenou que fosse libertado Seu povo, considerado primogênito, remetendo assim à filiação divina devido à aliança. Porém, não foi obedecido.

No Egito Antigo, o Faraó era considerado uma divindade e seu filho primogênito representava a continuidade desse “poder divino”. Cada praga atingiu diretamente um elemento sagrado da religião egípcia. A décima praga serviu para provar a impotência absoluta dos deuses pagãos e do próprio Faraó diante do verdadeiro e único Senhor.

Imagem

Ressaltando que o Faraó havia ordenado o assassinato sistemático de todos os bebês hebreus do sexo masculino, afogando-os no Rio Nilo (Êxodo 1,22). Moisés escapou porque foi protegido pelos seus e pela filha do Faraó, que o adotou ainda bebê.

Os textos sagrados revelam que o Egito foi advertido: ”Se recusares deixá-lo ir, eu matarei o teu filho primogênito”. (Êxodo 4,22-23). Apesar de o Faraó ser avisado das pragas que receberiam por não libertar o povo israelita, ele não arrefeceu, continuou com o coração endurecido. Assim, receberam dez pragas, sendo enviadas no sentido de eliminar o culto aos vários deuses que eles adoravam, para a conversão ao único Deus verdadeiro.

A décima praga previa a morte dos primogênitos, caso hão houvesse a libertação do povo de Israel. Desta forma, podemos compreender que foram dadas diversas chances para que houvesse o arrependimento, a mudança de vida. E a todos foi dado o direito de proteção: quem acreditasse em Deus deveria colocar a marca do sangue do cordeiro na porta, para que a morte não entrasse em suas casas. Assim, muitos egípcios foram realmente salvos. Em Êxodos vemos que quando Moisés libertou os israelitas havia entre eles muitos egípcios.

Contudo, infelizmente, foi necessária a morte de todos os primogênitos do Egito para que o Faraó se decidisse pela libertação do povo hebreu. Neste sentido, a morte dos bebês poderia ter sido evitada. Não foi um ato de crueldade arbitrária por parte de Deus, mas, sim, uma sentença dada pelo próprio faraó.

Todo esse acontecimento representa também uma prefiguração do Mistério Pascal de Cristo; nos leva ao encontro de Jesus, o Cordeiro imolado, que se entregou por nós em sinal de sacrifício, em sinal de amor.

Um Deus amoroso que veio ao mundo em um ato de humildade jamais vista, em um amor incomensurável. Para que viesse entre nós, na forma de um menino, precisou se esvaziar de toda a Sua glória. Aceitou morrer na cruz (a mais horrenda e dolorosa morte, destinada aos malfeitores, aos ladrões, homicidas …) com o único propósito de nos salvar.

Em Cristo conhecemos a Misericórdia – a Graça. A libertação do povo hebreu no Egito se relaciona com a salvação oferecida por Cristo – estendida agora a toda a humanidade.

O Deus do Antigo Testamento não é diferente do que conhecemos hoje. À primeira vista, alguns textos podem dar a impressão de um Deus cruel. Mas Deus não muda: foi sempre amor, justiça, misericórdia. O que muda é a compreensão de ser humano, na forma como vê o Cristo revelado ao longo da história e em nossa trajetória.

Por último, quando lemos as Sagradas Escrituras devemos ter em mente: o que o texto revela na época em que foi escrito; o que podemos compreender deslocando para a atualidade e o que ele revela para nós, neste exato momento de nossas vidas: o que o Senhor quer nos revelar – o que precisamos mudar!

Professora Drª Maria do Carmo Lincoln Paes. Pianista, Graduada em História; Pós-graduação em Filosofia; Mestre em Educação e Doutora em Educação. Email: carmolincoln@gmail.com

Facebook
Twitter
WhatsApp

PUBLICIDADE