Imaginando o mundo, desenhando um horizonte de paz. A mente já corroída, a névoa cinzenta e a fumaça tragada pela imbecilidade. Na imensidão transfigurada pelo vazio e pelas dúvidas civilizatórias, o metal corroído alimenta a sanidade e colore o painel da ambição. O território da lealdade demarcado em linhas imaginárias, traçando a régua da intransigência.
Às vezes é só o vento que passa, e o tempo permanece em sublimes lembranças. Ao escrever a poesia, não quis que os dias amanhecessem em outros versos. Mas, mesmo assim, outros dias amanheceram — talvez em segredo, não se sabe. Também, às vezes, é só imaginação: dias em poesia, e parece que nada faz sentido.
Mensagem de uma poesia esquecida em um mundo vívido de incertezas. Caminhos que se cruzavam, espinhos que ainda feriam. Era o tempo passando sob o silêncio de uma mensagem esquecida — mensagem dos novos tempos, distante do lugar que a vista podia alcançar.
Eram prosas ao cair da tarde. Risos de rios submergidos em profundos sentimentos. Águas calmas em pensamentos turbulentos. Noite de primavera em flores de outono. Corações vagando, semeando em jardins de pedra. Poderiam ser sonhos, pássaros aventureiros, lágrimas de olhares ausentes.
Folhetim em pergaminho entre folhas secas de um jardim cheio de saudade. Nas infindas incógnitas, livros em agonia e o oásis em plena ternura. Ao alcance das mãos, A Divina Comédia. Logo depois, entre olhares perdidos, A Montanha Mágica, ao lado de Dom Quixote, o cavaleiro andante em sua interminável luta contra os moinhos de vento.
Esqueço por algum momento; lembro, instante depois, o tempo que me resta e o amanhã que está por vir. Em algum lugar distante, ou em um canto qualquer, esperando a chuva para findar o dia. Para dizer adeus e depois partir — mas antes é preciso ver o sol em dias nublados.
Adentra o acaso, e a suavidade passageira é consumida pela miserabilidade humana. Um canto de louvação sob as bênçãos do infinito. A vontade quer saciar seu desejo e pede um pouco de paciência — um pouquinho de instante, o mínimo que faz um momento: a folhagem, as flores, o floral. Um vento que passa distante: perdão, piedade e misericórdia.
Entre pedras e ventos, a mensagem de uma poesia esquecida nas margens da ausência. Em tudo havia pedaços de algo fragmentado pelo silêncio existencial. No fundo escuro, luzes apagadas no submundo da sapiência humana. No ar poluído, frases sufocadas em pétalas petrificadas nos jardins das impossibilidades. As raízes eram profundas, e os espinhos dormiam entre dores e agonia.
Desfaz-se o momento e espia-se o infinito sob os anéis de Saturno. Sob a órbita do eu, o meu cativeiro. As palavras soam ao silêncio, e a poesia fatigada repousa em páginas imaginárias. Embriaga-se ao vento e dorme em outras quimeras para amanhecer entre amores inventados. Em alguns momentos destilam-se venenos; em outros, fluem essências que refazem o eu nas margens das infinitas veredas.
Agora, um romance — uma história ao cair da tarde. Não sei o que será: talvez ventos em vendavais. Ainda é possível ter entre as mãos a impossibilidade de tocar o vazio e enxugar suas lágrimas. O tempo e o absurdo presos na cápsula da memória. Agora, talvez depois, ou em outro tempo, entre sonhos, flores, pedras e pesadelos.
Entre dias e noites, novos infinitos caminham na esperança de novos amanhãs. Rios e livros, poesia e romance remam em águas profundas. Sobre amores e afetos, sobre tudo aquilo que tenta dizer quem somos. A exuberância e o colorido nas pálpebras das manhãs sob o olhar de um horizonte distante. O humano e a humanidade entre as faces dos corações contidos.
Todos os sonhos do mundo e a insinuante sublimidade do ser. Que os sonhos fartos nutram a alma, solidifiquem o espírito e sustentem a concretude humana. Entre noites, lua e estrelas desenham à mão livre a linha do horizonte. O sonho diz ao mundo que ele é imperfeito — e é nessa imperfeição que seguimos em busca do que ainda seremos.
O acaso fez-se em ilusões e imaginou o sol clareando a noite no escuro de um olhar. Um tempo, um momento, um instante — e tudo passa a ser quase inexistente. De momento em momento faz-se o inexplicável. Entre um momento cabe um instante, e o imponderável sussurra ao coração: Basta-me. Tudo é só sentimento.
Luiz Carlos de Proença – Autor dos livros: A pele do vento e Humana poesia



