À margem dos sonhos, caminhos de esperança,
passos lentos ainda sabem caminhar,
há coragem quando a estrada não alcança
o direito de sonhar e de chegar.
É brisa suave anunciando um novo dia,
um amanhecer que insiste em florescer,
um pouco mais de nós, de humanidade,
mãos entrelaçadas para acolher.
A deficiência não define uma pessoa,
somos diferentes, como todos são,
nenhuma diferença nos separa
quando existe respeito e inclusão.
Não somos problemas a serem resolvidos,
nem números perdidos em algum lugar,
somos sujeitos, somos caminhos,
somos o direito de ir e vir.
Quantas barreiras ainda permanecem,
quantos obstáculos diante dos passos?
Há políticas escritas sobre o papel,
mas a realidade ainda fecha os espaços.
Existe uma escada levando ao descaso,
um degrau onde a promessa se perdeu,
uma propaganda de inclusão mau pintada,
enquanto o direito tropeça e não venceu.
Nas calçadas esburacadas da cidade,
o caminho se transforma em provação,
um joelho ralado pode ser pequeno,
mas a exclusão machuca o coração.
Treze mil cento e quarenta e seis,
um número escrito para proteger,
uma lei que fala em direitos e inclusão,
mas que precisa sair do papel para acontecer.
Entre artigos, parágrafos e incisos,
ainda existem muros para atravessar:
cimento, concreto, portas estreitas,
e atitudes que insistem em separar.
Há barreiras que não vemos com os olhos,
mas ferem muito mais que um tropeção:
o preconceito, a indiferença, o silêncio,
a frieza disfarçada de razão.
A estupidez separa, fere e segrega,
enquanto o mundo aprende a caminhar,
e há um elevador que nunca chega,
quando deveria apenas funcionar.
O estatuto repousa sobre a mesa,
entre a poeira e à espera de uma ação,
enquanto a rua pergunta em silêncio:
quando a lei encontrará o coração?
Ruas asfaltadas, calçadas interrompidas,
praças públicas que não sabem acolher,
passos procurando caminhos possíveis,
portas que existem, mas não deixam entrar.
A legalidade e a humanidade se encontram,
duas faces que ainda não sabem se olhar;
a porta está aberta, dizem as placas,
mas há degraus impedindo alguém de entrar.
De mãos dadas com a esperança, seguimos,
mesmo quando o caminho parece adormecer;
entre o público, o privado e o abandono,
há um sonho que precisa acontecer.
Consciência não é favor nem caridade,
direitos não são migalhas sobre a mão,
autonomia não pode esperar eternamente
pela boa vontade de quem detém o poder.
A realidade pede caminhos possíveis,
respeito, autonomia e dignidade,
não promessas, favores ou compaixão,
mas inclusão transformada em realidade.
E quando a lei deixar de ser somente papel,
quando o direito puder finalmente caminhar,
talvez os sonhos encontrem seus caminhos
e todos tenham um lugar para chegar.
Luiz Carlos de Proença – Autor dos livros: A pele do vento e Humana poesia



