Publicado desde 1969
Fundado por José Carlos Tallarico

Hoje Hosana, Amanhã Aleluia

Hoje Hosana, amanhã Aleluia. O calvário e a dor transpassam a alma, como a espada anunciada por Simeão ao falar do destino do Cristo. O Jesus da cruz é o mesmo ressuscitado, glorificado e resplandecendo em paz; aquele que, como recorda o Evangelho de João Evangelista, veio para que todos tenham vida em abundância. A Páscoa representa, assim, um sinal de esperança no seio da humanidade.

Ressoa em nós, a cada amanhecer, um convite à renovação. É como se cruzássemos a margem de nós mesmos — um rio como ensinou Heráclito, jamais entramos duas vezes nas mesmas águas. Nessa travessia íntima, buscamos a presença do Ressuscitado naquilo que, muitas vezes, habita adormecido no fundo de um coração endurecido pela pressa do mundo moderno, tão inquieto quanto o homem descrito por Blaise Pascal em sua incapacidade de permanecer em silêncio diante de si mesmo.

A Páscoa nos chama a esse mergulho: um tempo de nos alimentarmos da esperança, da fé e da empatia. É momento de acordar os sonhos que repousam no silêncio; de sentir, mesmo entre as dores do mundo, um amor profundo que eleva e humaniza — aquele amor que Paulo de Tarso chamou de o maior de todos os dons.

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Páscoa é vestir-se de si mesmo e despir-se das velhas roupas, lembrando o convite existencial presente na filosofia de Søren Kierkegaard: tornar-se aquilo que verdadeiramente se é. Solidários e compassivos, seguimos por caminhos estreitos, entre flores e espinhos, procurando o jardim não apenas da existência, mas da vivência — esse jardim interior que ecoa o Paraíso perdido narrado no livro do Gênesis.

Há uma nova forma de ver o mundo quando nos deixamos tocar por essa sensibilidade. Uma nova maneira de enfrentar os desafios, com ternura nos gestos e leveza nos passos, mesmo no duro chão da caminhada, como o peregrino espiritual descrito por Santo Agostinho, para quem o coração humano permanece inquieto enquanto não repousa no amor.

Porque a vida, ainda que envolta em noite escura, amanhece em versos que clareiam o dia — uma aurora semelhante àquela cantada por São João da Cruz em sua noite escura da alma. São momentos de plenitude, como a face sorridente de uma criança imaginando o futuro, imagem que lembra a esperança radical celebrada por Paulo Freire como ato de resistência humana.

O tempo, com suas dores e silêncios, também nos oferece recomeço, perdão e entrega. A cruz, com suas feridas, fala da passagem da vida, do avesso da pele — uma experiência limite que dialoga com a ética da responsabilidade diante do outro pensada por Emmanuel Levinas, onde o rosto do outro se torna chamado irrecusável.

A cruz é símbolo de um novo tempo, lembrando que sempre é hora de recomeçar. Ela carrega o peso da indiferença, da injustiça e de tudo o que apequena a vida. O lucro de poucos se torna sofrimento de muitos, realidade denunciada ao longo da história por vozes proféticas como a de Dom Hélder Câmara, que via na fome não um destino, mas uma injustiça social.

Entre discursos de ódio, preconceitos e guerras, o Cristo é crucificado novamente todos os dias: na fome que esvazia corpos e na miséria que desnutre esperanças — imagens que lembram o grito ético presente na obra de Amartya Sen ao afirmar que desenvolvimento verdadeiro é expansão da dignidade humana.

Talvez amar seja, neste tempo, um ato revolucionário. Amar é compreender a condição humana ao ver o rosto do outro como morada da ética. Amar é entender, como escreveu Martin Luther King Jr., que o amor é a única força capaz de transformar inimigos em irmãos.

E a morte? A morte anuncia que a vida venceu. O amor, em sua forma mais pura, fez-se poesia — como intuía Carlos Drummond de Andrade ao reconhecer que a esperança resiste mesmo quando o mundo parece endurecido.

Hoje Hosana, amanhã Aleluia, em um dia de glória e túmulo vazio. A Boa Nova do Evangelho surge como mensagem fundante do reflorescimento, lembrando que, como escreveu Leonardo Boff, a ressurreição é a afirmação radical da vida contra todas as formas de morte.

Nos caminhos tortos, os passos tornam-se retos, guiados pela soberania humana e pela graça do viver. Pairando no mistério do ser — esse mesmo mistério contemplado por Martin Heidegger — glorificamos o amor como compromisso que nos humaniza, semeando amanheceres que ainda estão por vir.

Luiz Carlos de Proença – Autor dos livros: A pele do vento e Humana poesia

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