Publicado desde 1969
Fundado por José Carlos Tallarico

Hino à humanidade

Abraço o amor pela vida como dádiva do Criador. Louvados sejam as manhãs, as tardes e as noites; bendito o sonho que planta esperança no coração ferido da humanidade. O silêncio ressoa nos ouvidos do tempo, na próxima paragem entre o oásis e o deserto. A vida canta emoções em profundos sentimentos — as dores da humanidade ferida, a paz que ainda ecoa nos corações sedentos, sublimada em harmonia.

Pelas flores que insistem em sorrir. Pelo amor que transpassa o intransponível. Pela guerra que, no chão do homem, desfaz a semente que ainda não nasceu. O bem e o mau são faces de uma mesma face, nutrindo-se de si mesmos.

Às vezes o vento apenas passou, o dia amanheceu, e a humanidade deixou de amar. Por vezes as flores se recusaram a florir, a chuva abandonou a terra e os olhares ficaram sem lágrimas. Pelas vestes que vestiram, pelo pão que saciou a fome, pelas águas que inundaram cidades e imensidões — dores, clamores e perdão tornaram-se canções e orações em favor da esperança.

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Pela fresta da imaginação escapa um verso, inspirando sentimento. Sentimento em ternura, vida em bravura. Rubi e esmeralda — o vermelho, o verde e o azul safira. Um canto triste, o desencanto de um pássaro; uma borboleta contempla o rio indo embora. O infinito se poetiza em um verso, o horizonte escapa aos olhares. Transpassa o caos a solene escuridão de uma noite sedenta pelo amanhecer.

Depois, restam momentos que morreram pela paz — ternura abraçada no aconchego de um instante que beija as faces esquecidas numa sublime canção: um hino à humanidade.

O mundo abre suas asas na imaginação. Paisagens enigmáticas molduram o horizonte nos versos que ainda caminham pela estrada do saber. O relógio não pode deter o tempo, enquanto a chuva encharca os instantes que desejam ser o tempo que brota de uma flor na rachadura de uma pedra.

Lágrimas vagam nos olhares da noite, perdidas nos vazios de uma vida passageira. Frases se gravam nos troncos das árvores, a areia repousa no fundo de um rio de águas cristalinas. Papel, tinta e pincel tingem o coração escurecido, colorindo a vida de mãos em mãos. A fera presa no paraíso bebe a doçura do ser, o inseto habita o próprio ecossistema. O amanhecer se deita sobre o afago da ternura, enquanto miseravelmente os dias passam de estômago vazio.

O arco e a flecha — o alvo é a imaginação. Foge mata adentro, esconde-se em alívios artificiais, em dores noturnas. O gafanhoto e as moscas sob um céu de asas livres comem o que restou da noite passada, e depois seguem os dias. Fazem-se guerras para morrerem inocentes.

E quando a luz se apaga no final do túnel, a vela ainda continua acesa — mesmo com o soprar do vento. Mesmo com o tempo se passando, o sonho ainda permanece jovem. A chuva molha a consciência e faz brotar um novo tempo sobre sentimentos e corações aflitos, enquanto as nuvens escondem o sol.

Flores feridas nos jardins abandonados. A realidade e a fome alimentam a hipocrisia. O sal da terra, os pássaros que passam entre nós, o edifício e a montanha, o rato que foge do gato — e as dores do passado latejando nas feridas do presente. Acolho o abraço no livre olhar dos cacos de vidro que ladrilham o caminho da insensibilidade.

Êxtase da alma — sentimentos se entrelaçam. A porta aberta, o “eu” em metáfora, semeando ternuras no jardim da esperança. A lucidez do silêncio alimenta o húmus do ser no abraço do tempo. O dia amanheceu sob o sol nas margens da noite.

A pele do vento roça as flores e fere suas pétalas. Livros, poesia, versos mergulham no êxtase do ser. Nas mãos, um punhado de qualquer coisa; na mente, a viagem do inesperado e o que ainda está por vir. Depois que a chuva molhou, o sol secou em lágrimas, para regar outros olhares. Sob ternura, o sentimento fere e também cura.

O azul é a imensidão dos olhares que veem o invisível. A fruta tropical, o doce gosto da vida no instante de um sonhador. Basta em mim o coração poético e a leveza da poesia colorida sob flores em tardes quiméricas.

O suor do rosto da terra esmagada, os sofrimentos que não querem chover. Corações em lágrimas, olhares que sangram. A relva deita-se sobre as raízes expostas em pele nua. O sopro do vento serpenteia folhas em redemoinhos de poeira. Dedos e mãos, pétalas e raízes do mundo — o mundo da fantasia e das histórias infantis nas noites escuras.

Depois, é passado. O futuro repousa depois do horizonte. O beijo da noite escura e a lua em êxtase. Uns dias, e depois é somente sol — mesmo que seja noite outra vez. Mesmo que a poesia doa e os versos sejam cortantes, sangrando flores em jardins de sentimento.

No pouco que ainda resta, uma janela aberta e um sentimento me abraça. Depois do jantar, a lua é sobremesa e o orvalho aguarda o sol para dissolver-se em sentimento.

Um livro me descreve em outros momentos — um pequeno universo, e logo nascem outras estrelas. Sentimentos com raízes profundas, pétalas de mãos dadas com a saudade. Eram momentos, eram instantes, eram sonhos semeados nos quintais das noites que se negam a amanhecer. Ontem, os dias eram longos, e os abraços abraçavam o mundo. Eram olhos que sorriam ao ver lábios marejados de lágrimas. Tudo eram manhãs, e o ser se aventurava entre os instantes.

A vida era noite e sol, dias e estrelas, versos que sonhavam. A poesia amanheceu em dia chuvoso. O sol dormiu, e a chuva germinou esperança no caos. O mundo doente, o ar que não respira, o asfalto quente — e o cinza se apegou ao horizonte.

Dores de cabeça, guerras em notícia. Na página sessenta e seis estão incrustados os versos do amanhã. O amor, o ódio e o sorriso sarcástico entre tempestades. O sonho, o pesadelo e os dias melancólicos sob o voo dos abutres.

O cinza é o olhar. O azul, utopia.

Luiz Carlos de Proença – Autor dos livros: O sol nas margens da noite e A pele do vento

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