Publicado desde 1969
Fundado por José Carlos Tallarico

Fragmentos de nós

Falemos de nós: esse amontoado de sonhos partidos e utopias por construir. Nós, seres humanos. Nosso mundo, nossa humanidade, e tudo que nos faz ser o que somos — ou o que deveríamos ser, mas não somos. Sonhadores, conquistadores, desiludidos. Tudo o que somos, o que não somos, ou o que pensamos ser. Alimentamos em nós todos os momentos, nutrimos em nós todos os instantes. Todo o tempo e o tempo todo, aquilo que nos consome, nos rouba um pouco de nós cada vez que deixamos de ser o que em nós ainda pulsa.

As histórias do mundo, sua formação, e os fantasmas que alimentam o presente — como no Livro de Jó, quando a dor não tem nome e o silêncio de Deus é uma pergunta sem resposta. Compramo-nos e nos vendemos a qualquer preço — ou a preço de mercado. Valorizamo-nos, e esse mesmo valor pode nos deteriorar. O que alimentamos em nós pode ascender em nós o degrau da nossa própria decadência — como dizia Nietzsche, quem combate monstros corre o risco de tornar-se um.

O que nos diz o futuro? Onde levam os caminhos que se abrem aos estranhos horizontes? Onde nos perdemos como espécie? E se perdemos, onde poderemos nos encontrar? Nos despedimos do passado, mas ficamos estáticos na mesma esquina — como o anjo da história de Walter Benjamin, olhando os destroços sendo arrastados pelo vento do progresso. Caminhamos rumo ao futuro, mas não sabemos em que momento tudo isso fará sentido — ou se tem algum sentido.

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O mundo é real ou ficcional? As guerras, os conflitos, as dores que afligem a humanidade. Os avanços tecnológicos, o dito desenvolvimento humano, e tudo aquilo que nos faz crer que somos inteligentes. Mas as guerras continuam — bélicas, culturais, ideológicas — e alimentam as mentes e nutrem a banalidade. Como alertava Hannah Arendt, o mal se esconde nas rotinas dos bem vestidos. O lucro da ganância. O dinheiro que financia as fronteiras do caos.

O luxo, a luxúria, e o esgoto a céu aberto. O paraíso dos ratos. O aconchego das moscas. A sujeira nos quintais, sob as mãos sujas do poder e os privilégios dos políticos e seus asseclas.

A maldade é humana. Nossa humana estupidez. Os senhores do poder afagam as flores de um jardim devastado. Ainda que humano seja, a mentira se esconde sob o véu da maldade. A face em neblina em uma manhã qualquer, bebendo o orvalho em um cálice de hipocrisia — misturado com a estupidez e um pouco da nossa indiferença. Como em Clarice Lispector, há em nós uma força secreta que resiste e uma sombra que nos trai.

Agora, sentado às margens do caminho, embevecido em silêncio, imagino o paraíso. E adormeço sob os olhares das estrelas. Compartilho sentimentos e abraço os versos que me encantam ao sabor das utopias e dos sonhos adormecidos logo ali, no horizonte — feito os sonhos de Belchior, que já não cabem mais nos bolsos do tempo.

No sonho, desenho o mundo. Com as linhas do horizonte, costuro as bordas do amanhecer. O céu ainda é azul. O sol brinca de esconde-esconde entre as nuvens — e por um instante, a infância de Saint-Exupéry se deita na relva da imaginação.

O mundo, então, se desenha com os pincéis da esperança. Versos que bebem da alma a essência do viver. Letras garrafais escrevem, sobre os cristais, as incessantes buscas que nos fazem caminhar, mesmo em terrenos perigosos. Como disse Rubem Alves: é preciso esperança — essa teimosa que dança nas pedras.

O que plantamos ontem nos alimentará amanhã. O passado carrega em si as memórias do que fomos. A ilusão tem seus limites. Mas a ponte da imaginação ainda nos leva para o outro lado — para sermos o que poderíamos ser. O horizonte quer seguir o infinito. E tudo que em si mesmo transborda preenche o vazio de possibilidades.

Agora é noite outra vez. Em outros tempos, para dizer que viver é uma dádiva. E sonhar é embriagar-se de si mesmo. Outra vez, semeei o meu pequeno jardim e reguei com as lágrimas do amanhã – como nos salmos, onde quem semeia com lágrimas colherá com alegria. Outra vez, plantei o meu sonho em noite de luar, para colher estrelas nos meus dias de escuridão.

Meu barco aportou na calmaria do mar, que em mim se fez rio e bebeu a sede do meu mundo. E desertificou o coração da humanidade. Mas aqueles versos que ficaram incrustados no horizonte… ainda falam de sonho, vida e amor.

Luiz Carlos de Proença – Conselheiro Municipal dos Direitos da Pessoa com Deficiência – Capão Bonito SP – Autor do livro: O sol nas margens da noite

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