O que há entre os sentimentos? Talvez a vida caiba em qualquer instante. A poeira sobre a parede guarda a cor de uma lembrança entre pétalas murchas. Há dias que doem; outros florescem em rara beleza. A chuva cai no telhado, e alguns sentimentos evaporam sem ruído.
O cheiro do café anuncia a manhã. As tardes aguardam o brilho das estrelas. Estranhos caminhos atravessam os dias, enquanto os passos inventam o chão por onde caminham. O sonho segue sonhando o próprio infinito.
O tempo e a chuva entre a seca e a semente que germina. O sentimento nasce, floresce, desabrocha. Que ser é esse, tecido de emoções, tentando compreender onde começa e termina o infinito? Perguntas atravessam o silêncio. Logo é manhã, e o horizonte já mora no dia seguinte.
Versos margeiam um rio lento. A sinfonia dos detalhes repousa num gesto de ternura. Restos de manhãs sobrevivem em pedaços de tempo, sob noites enluaradas. Mesmo quando a música silencia, a imaginação ainda enxerga o próximo passo.
O infinito permanece pergunta. O mundo é um caderno de receitas, e cada um escolhe seus ingredientes. Todo caminho leva a algum lugar — ainda que seja para dentro de si. Em terras de esperança, esperar também é caminhar.
Outro dia amanhece. A chuva insiste, sacia a terra, desperta sementes invisíveis. A noite chega devagar. Os jardins florescem sem pedir licença ao tempo. O infinito repousa nos braços da imaginação e atravessa cada instante que se refaz no silêncio.
Quero escrever as dores e, nelas, me aliviar.
As palavras às vezes ferem. Ainda assim escrevo. Mesmo quando não fazem sentido, escrevo para sentir meus instantes antes que se tornem memória. Guardo o que fui, o que sou, o que ainda não sei.
Desenho o mundo à mão livre: um mapa da face humana. Pensamento, sentimento e humanidade caminham sob a sombra das inquietudes. Desenho para sonhar um novo horizonte, ainda incompleto.
Retrato de uma tarde que, aos poucos, se esconde em vestígios de noite, sob resquícios de sonhos adormecidos. O sonho não mede o tempo. Sonhar é construir o próprio mundo: ser barco e mar, proa e vento.
Entre páginas abertas, um outro mundo amanhece. A esperança nasce em silêncio. Cada verso carrega um fragmento de infinito atravessando diferentes olhares.
Amanhã ainda não tem passos. Apenas horizontes.
E aquela tarde — que insiste em não passar — permanece como paisagem refletida na face de um sonho que continua tentando acordar, mesmo nas noites mais escuras.
Luiz Carlos de Proença – Autor dos livros: A pele do vento e Humana poesia



