Agora, sentado à beira da estreita margem que separa o todo em um sincronismo quase descomunal, percebo o abismo, o precipício e a lealdade do cosmo e do caos. A fome e a sede de mãos dadas seguem um longo caminho em busca de novos horizontes. Logo amanhece, é outro dia, e ainda sinto a esperança e alimento toda a bondade que nutre o ser humano. O dia de hoje passou rápido demais; agora já é noite, e ainda estou sentado à beira dessa estreita margem, contemplando o mundo em uma sublime e singela canção de paz.
O que nos faz acreditar em um mundo melhor? Será que acreditar no ser humano é acreditar em um mundo melhor? Embora eu acredite nisso, o momento em que estamos vivendo, de certa forma, me deixa mais pessimista do que otimista. O mundo ou os mundos, sim, podemos analisar dessa forma. Então, existem vários mundos? Na realidade, há apenas um mundo. O termo mundo é utilizado em várias concepções. Alguém já ouviu falar em primeiro mundo, segundo mundo e terceiro mundo? Mas o que isso quer dizer?
Entende-se como primeiro mundo as regiões mais ricas, os países mais desenvolvidos, como Estados Unidos, Canadá, Japão e outros. Os países em desenvolvimento, como Brasil, China, Rússia e outros, são considerados segundo mundo. Enquanto o terceiro mundo se refere às regiões pobres, como a maioria dos países latinos e muitos países da África e da Ásia.
Volto ao questionamento do início desse texto: o que nos faz acreditar em um mundo melhor? Quem é o dono do mundo? Por que uns têm muito enquanto outros têm pouco ou nada? Alguém pode, com certa razão, dizer: não há o que fazer, o mundo sempre foi assim. E, realmente, o mundo sempre foi marcado por guerras e conflitos. As grandes e poderosas nações dominaram e continuam dominando, colonizadores e colonizados.
O que fizeram os países ricos para serem ricos, e o que fizeram os países pobres para serem pobres? Mérito para os ricos e demérito para os pobres, será que é isso? Quem foram e quem são os colonizadores? Quem foram e quem são os colonizados?
O mundo e suas aberrações cotidianas. O relato do caos no painel de absurdos. A política e a politicagem, e o mundo dos privilegiados. A política e o mundo, e o mundo da política, onde privilégio pouco é bobagem. O mundo ferindo o próprio mundo, e a humanidade implora por piedade.
A condição humana e a contradição humana frente às mazelas do mundo. As periferias do capitalismo e a face da decadência sob a égide do capital. No jardim do exílio, as flores em lágrimas e a tenacidade da dor na esperança saqueada. Reféns do sensacionalismo político, o capitalismo periférico e o desmando do estado.
A economia, o índice de inflação, o sobe e desce da bolsa de valores, o mercado financeiro e as benesses dos donos do capital. Ainda o questionamento do início desse texto: o que nos faz acreditar em um mundo melhor? Quanto custa a nossa esperança? Precisamos ter esperança ou a esperança é apenas um devaneio?
Onde guardei os meus sonhos também guardei a minha esperança. Mesmo um pouco descolorida e mesmo com um pouco de timidez, ela me acena com um quase pedido: não abandone o sentimento que tens por mim. Ainda aqui, um pouco esquecida, posso mover-te e impulsionar a acreditar em algo que seja melhor. No entanto, mesmo diante desse cenário, há algo que nos faz acreditar em um mundo melhor. Somos humanos, movidos e dotados de muitos preceitos. A nossa humanidade se humaniza mesmo diante da força bruta e dos corações petrificados.
É a nossa capacidade humana de sonhar, de resistir e de lutar por justiça e igualdade. É a nossa capacidade de ir em frente, de caminhar mesmo entre os obstáculos. É a nossa vontade se concretizando, como círculo virtuoso exalando a essência do ser. É o poder da solidariedade, da empatia e da cooperação. É a esperança que se renova a cada amanhecer, a crença de que podemos, sim, construir um futuro mais justo e humano. Porque, no final das contas, o que nos faz acreditar em um mundo melhor é a nossa própria humanidade e o desejo inato de transformar nossa realidade, apesar de todas as adversidades.
Luiz Carlos de Proença – Conselheiro Municipal dos Direitos da Pessoa com Deficiência – Capão Bonito SP – Autor do livro – O abraço do tempo