Publicado desde 1969
Fundado por José Carlos Tallarico

Conhece os exercícios espirituais de Santo Inácio?

“Primeiro, vão ser tentados com a cobiça, as riquezas, como de costume, para que cheguem à honra vã do mundo e, depois, à grande soberba. Desse modo, o primeiro grau de tentação é o de riquezas; o segundo, de honra; o terceiro, de soberba, e esses três graus induzem a todos os outros vícios.”

Durante mais de um ano fiz a leitura do livro de Santo Inácio de Loyola e, devo confessar, achei muito difícil acompanhar os exercícios. Mas qual foi minha surpresa (e alívio, ufa) quando comentei com meu filho Bruno e ele respondeu que teve o mesmo sentimento. Porém, após novas leituras e estudos, gostaria de compartilhar um pouco da riqueza e grandiosidade desta obra atemporal.

O livro aborda a prática de oração, com exercícios separados em quatro etapas (4 semanas espirituais) com o propósito de nos purificar e elevar a Deus. Para tanto, é necessário conhecermos a nós mesmos (saber quem somos de fato); conhecermos melhor a Deus, buscarmos pela intimidade com o Senhor e aprendermos a decidir segundo a Sua vontade.

O texto nos remete a profundas reflexões, como a importância da humildade, de tomarmos consciência das armadilhas das tentações: da cobiça (do desejo compulsivo por riqueza e acúmulo de bens); das honras que o mundo oferece (que inflam nosso ego), em que caímos no pecado da soberba e passamos a apresentar todos os outros vícios e pecados.

Imagem

Santo Inácio fala da importância de reconhecermos nossos pecados, buscarmos pelo perdão e da profunda gratidão ao Pai e, desta forma, experimentarmos a união com o amor misericordioso de Deus. E neste encontro, termos o incansável desejo de mudar de vida – de buscar pela santidade!

Como linha principal é apresentada a contemplação da vida de Cristo, desde a Encarnação até o Domingo de Ramos, em que refletimos sobre: a Anunciação; o nascimento; a vida oculta; o chamado dos Apóstolos, os milagres e ensinamentos. Aprendermos a nos colocarmos em oração, com um profundo amor a Jesus, rememorando e imaginando a cena do Evangelho, vendo os lugares, ouvindo as vozes, sentindo o ambiente e nos colocarmos dentro da cena.

E no ato de contemplarmos a Paixão de Cristo, termos como ponto principal não a tristeza exagerada mas a profunda união com o Senhor. Acreditarmos na alegria da Ressurreição, na vitória de Jesus sobre a morte, na importância da fé e da esperança e no forte desejo de fazer o bem (Caridade).

Compreendermos que fomos criados para Deus, que está em tudo, assim, em todos os momentos do nosso dia, em nossas convivências, agirmos em um ato de profunda oração. Quando permanecemos nEle recebemos a Graça, a paz interior, a alegria espiritual. E, ao contrário, quando nos afastamos de Deus a consequência é a desolação, o desânimo, a confusão (com o sentimento de que estamos sozinhos).

Os exercícios espirituais são uma forma de prestarmos atenção em nossos pensamentos, em nossas ações, de treinarmos o coração para amar verdadeiramente a Jesus e a escolhermos como Ele escolheria; a percebermos o que vem dEle e o que pode nos afastar.

Para fazermos os exercícios precisamos: separar de 20 a 30 minutos por dia para ler o Evangelho, um caderno para anotar o que sentimos, conversarmos com Jesus, colocarmo-nos diante da cena do Evangelho (ver, ouvir e sentir) e termos uma atitude de profundo silêncio (interior e exterior). Calar para ouvir a Deus.

E nunca decidir algo importante nos momentos de desolação, de desânimo ou dificuldades: esperar, rezar e, em oração, perguntar a Deus sobre o que fazer naquela ocasião. Mas como saber se algo é ou não de Deus?

Para tanto, termos como meta as seguintes questões: isso me traz paz; me aproxima de Deus; aumenta a minha fé, esperança e caridade? Se sentir medo, analise se o medo é prudência ou desconfiança. O segredo que Santo Inácio quer nos passar é: querer o que Deus quer, não o que nosso ego deseja. São três importantes movimentos: entrega; confiança e intimidade com Deus.

Entregar nossa vida, nosso dia, tudo, sem reservas. Mas não representa uma entrega passiva em que Deus resolverá tudo. Representa que coloco tudo diante dEle e escolho com Ele, mas faço também a minha parte. É uma fé madura, em que mesmo que não se resolva como quero, confio.

Os exercícios levam a um processo de desapego interior em que saímos do apego ao ego, da desordem, do egoísmo para o amor que liberta – não por obrigação, mas por amor a Deus. O problema não é desejar as coisas, somos humanos, temos anseios, sonhos. O problema é desejar de forma desordenada, compulsiva. A desordem gera orgulho, soberba, apego, medo, ansiedade extrema (gera doenças).

Santo Inácio revela que tudo é dom e Graça de Deus e a importância de confiarmos no Senhor. Veja que, aos poucos, essa confiança gera uma intimidade com o Pai, um conforto que acalma a alma diante da certeza de que não estamos sozinhos.

Tenho para mim que o ponto chave de tudo é: não se trata de consolo emocional, mas sim do encontro com a Presença Total em nós. Sempre. Apesar das circunstâncias…

Professora Drª Maria do Carmo Lincoln Paes. Pianista, Graduada em História; Pós-graduação em Filosofia; Mestre em Educação e Doutora em Educação. Email: carmolincoln@gmail.com

Facebook
Twitter
WhatsApp

PUBLICIDADE