Atravessando caminhos estreitos em turbulentos pensamentos que arrancam raízes no vazio subterrâneo. A cabeça e a terra entre areias de um deserto apático e plantas aquáticas sufocadas pelo silêncio que bebe suas entranhas. Machucado, ferido — e ainda o coração pulsante. O derradeiro e o primeiro a embarcar na cápsula petrificada e mumificada pelo tempo.
A corte e sua majestade. O bem praticado e o mal vivenciado entre bombas e tormentos. As forças de paz e asas supersônicas sobrevoam o céu e a paisagem em noites neolíticas. Como na lucidez de Hannah Arendt, o mal se torna banal sob o rugido dos motores. O caderno de anotações relata o tumulto momentâneo em uma sala de estar; o voo do pássaro entre campos e florestas. O aconchego da esperança e os sonhos observam, pela fresta da noite, o pouco que restou da sapiência humana.
Dentro do espaço, um copo cheio de boas intenções. A legalidade, a imoralidade e os auditórios da superficialidade entre privilégios e privilegiados. O oráculo dos sonhos perdidos e a efemeridade dos desejos alimentam algoritmos em um cardápio de fugacidade. É a sociedade do cansaço descrita por Byung-Chul Han, onde o excesso de positividade e a pressa digital consomem o que resta de nossa profundidade.
O prelúdio, a ilusão ao entardecer. Em dias de paz, as ruínas do agora. Amanhã à noite, entre as pétalas de uma flor, as dores no voo de um pássaro. O azul de um infinito nublado entre pedras e os caminhos das horas exatas de um momento que já se passou — e o sentimento ainda anda devagar.
As paredes, os palácios e as favelas em alamedas e ruas que não caminham. O manuscrito debaixo de uma pedra e cacos de vidro ladrilham trilhas e ruínas. O não ser e ainda ser; a lagarta em seu casulo. O coração da gente e o silenciar, em outros momentos, é só isso: o resto é sobra do acaso. A terra e as lágrimas da terra; a semente que ainda não germinou. Neste desassossego, como diria Epicuro, a felicidade não reside no excesso, mas na quietude que permite à alma florescer mesmo no solo árido.
Escrevem-se cartas para alguém desconhecido enquanto o caminho se consome em obstáculos. O choro, as lágrimas e a comida fria alimentam a solidão que dorme na suíte presidencial. A mesa sob o sol, instante sobre o vento. Flores em vasos de quintais e olhares em vão. Talvez a chuva não caia; lágrimas evaporam e um sorriso surge no horizonte em faces ocultas.
Folhas em árvores solitárias, como asas de liberdade ferida sobre o chão seco, em passos úmidos entre as margens do agora. Um livro de raízes profundamente selvagens. A cabeça do mundo e o pensamento se perde entre as trincheiras do acaso. Salas vazias, janelas fechadas e um resto de silêncio enche o copo quase cheio. Um pedaço de alguma coisa fere as mãos que tateiam o escuro do outro lado.
O tormento como vento em tempestade e o olhar que vê o escuro encontra o brilho de uma pérola escondida, ainda que passageira. Um rio alcança o mar. Os braços, as mãos e o todo imperfeito talvez sejam algum sonho. Talvez. Eu não sei. Não vou alcançar as estrelas, e o sol está longe dos olhares. As palavras querem silêncio.
O azul dos olhos da noite logo amanhece; o arvoredo em ruas desertas logo anoitece. O chá que acalma a tempestade suaviza a alma. O chão abraça os braços quase próximos do outro lado. O relógio, o voo da imaginação e o tempo que ainda resta. O jantar está na mesa e a fome espera por migalhas. São somente flores; depois, velhos conhecidos. O sonho ainda chora ao lembrar o pesadelo da noite passada. Depois do sol, lágrimas soltas no ar rarefeito.
Os pontos cardeais e o vento seguem as águas. Alguém abraça o sorriso, mas é só tristeza. As rugas nas faces do tempo e as memórias entre lembranças. A ave e seu voo atravessam a parede de concreto e, como pétalas de cristal, flores com raízes profundas habitam o submundo do mundo — a baronesa de papel.
A física clássica e a nanotecnologia do amanhã. As dores e o futuro de um sorriso em um espetáculo de grandes alegrias. As maravilhas do entardecer e as lágrimas das estrelas ainda são olhos que querem ver o invisível. A busca por si mesmo e os caminhos que querem caminhar sós. A seiva em ramagem deita sobre a face febril dos olhares ao vento.
Ao tempo cabem pergaminhos em fagulhas de noites efêmeras. A dor dorme embrulhada em falanges vermelhas com sabores de frutas cítricas. Perguntas, respostas e o pólen em ares angustiados sob montanhas artificiais. Ainda cai a tarde nos espectros das tumbas icônicas e há ferrugem nas paredes do quarto nupcial. A renda de seda e o rebanho dos algozes em aquarelas de pedra entre flores feridas.
Rios evaporam sob nuvens de sujeira e pântanos aos sóis de mercenários. Tempos miseráveis vomitam sentimentos cáusticos e o coração ainda pulsa na insistência de voar.
É a utopia de Eduardo Galeano: por mais que o horizonte se afaste, o caminhar é o que nos mantém vivos contra a barbárie. Versos escritos em cores transparentes, como aquarelas translúcidas sob chuvas e vendavais. Em lacunas intermináveis, o silêncio em perplexo sentimento é mais um verso em muitos dias ainda por amanhecer.
Luiz Carlos de Proença – Autor dos livros: A pele do vento e Humana poesia



