Publicado desde 1969
Fundado por José Carlos Tallarico

Ainda bem que a esperança não se cansa

Uma manhã cheia de sol escrevendo na palma da mão com letras garrafais — como se o dia repetisse, em silêncio, que há um tempo para cada coisa debaixo do céu. Viajando na imensidão de um pensamento à procura de um lugar seguro para pousar, feito pássaro de Drummond que insiste em existir apesar do mundo. Feito metade e desfeito em outra metade, quase sem querer, de braços dados com o tempo que passa depressa demais e se esconde num canto escuro de uma casa vazia, onde a memória, como diria Walter Benjamin, acende lampejos. Feito criança, na outra margem do rio, brincando no jardim da inocência — antes da queda, antes do peso.

O dia termina em um sono profundo, sem tempo para sonhar, como se Freud tivesse fechado as portas do inconsciente. O latir do cão entre correntes e um pássaro que voa aos confins da imaginação. O outro lado de algum lugar, o mato seco sobre a terra úmida. O relógio do tempo corta os pulsos do próprio tempo, que sangra até a próxima estação, lembrando que tudo o que é sólido desmancha no ar. O dia, a noite e a ferida dolorida que cicatriza ao ar livre.

Escrever sobre política. Escrever sobre economia. Escrever sobre educação. Escrever sobre gente. Escrever sobre o mundo. Escrever sobre tudo o que nos envolve. Sobre tudo o que somos. Sobre tudo o que pensamos que somos — essa identidade líquida que escorre entre os dedos. Escrever sobre o todo que nos compõe, sobre aquilo que buscamos, mesmo sem saber ao certo o quê.

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Um cronista, um poeta, um transeunte correndo atrás das palavras, como quem corre atrás do vento. Um escritor perdido nos labirintos dos pensamentos que insistem em pensar livremente, à maneira de Saramago, desconfiando das verdades prontas. Como pensar sem as amarras e as armadilhas que nos mantêm presos em cápsulas de analgésicos, em descansos artificiais, nessa felicidade de prateleira? Nosso tempo é fugidio, sob asas imaginárias, com o ninho no último degrau da escada para o firmamento — talvez a mesma escada sonhada por Jacó.

Uma nuvem passageira cobre o sol num instante de lucidez. A guerra dos homens e a semente da maldade semeada no jardim da imbecilidade. A invasão do território inimigo, a cúpula imperial impondo suas condições, como se a história insistisse em repetir seus erros. As raízes da maldade acopladas a todo o aparato hegemônico da perversidade advinda do poder, lembrando que o mal também é banal.

Uma árvore olha para o céu e deixa suas folhas mortas sobre o chão. No chão, alimenta e nutre tudo o que se move, como ensina a natureza que a morte também é princípio. O voo da imaginação germina versos e alimenta a poesia que adormece envolta em algum sentimento. O resto da fruta madura, as bicadas de um pássaro. Um rio e suas torrentes, águas cristalinas que bebem da vida — e a vida que há entre hidrogênio e oxigênio, átomos que poetizam sua essência, como se a ciência também rezasse. As pedras do caminho e as areias do deserto sob a poeira no olhar do vento.

A Terra pensa e, ao mesmo tempo, sente todas as dores, todos os males e toda a pobreza que alimenta nossa mesquinhez. Todo o azul em silêncio de um céu cinza. Às vezes — muitas vezes — os olhos não queriam olhar, mas o coração sentiu todas as vezes em que o céu era azul, como canta Milton, mesmo quando a noite parecia eterna.

Entre caminhos e margens, rastros e trilhas, ainda resta um pouco sob o olhar que se escondeu entre o azul e o cinza de um paraíso distante. A semente que vingou e floresceu nos dias seguintes. As flores imaginárias que suavizam oásis em terrenos férteis, alimentando sonhos em noites de esperança — porque a esperança insiste, contra toda evidência.

O encanto das flores. A melodia de um sentimento e o refrão em pensamento. A sinfonia do tempo e as lágrimas da chuva que enchem o rio e, às vezes, desertificam a imaginação. O conto da noite escura e os dias que ainda não amanheceram. Ainda não é o fim, talvez nem seja o começo. São muitas manhãs por amanhecer, como nas utopias que Eduardo Galeano nos ensinou a perseguir. Dentre essas manhãs, muitos sonhos em sonos profundos.

Dizem que o caminho é suave, apesar dos espinhos. Que sempre há abraços à espera de alguém. O mundo escondido sob a face decadente dos poderes apodrecidos. A hipocrisia entre o ódio e a indiferença, sob os gritos da tirania e o descolorir do horizonte. Ainda há os amores da vida entre flores e canções, porque onde há amor, ainda há resistência.

E a esperança não quer descansar. Ao longe, distante, há um novo caminho caminhando ao encontro de si mesmo. E a poesia? A poesia amanhece, anoitece, mas não adormece — como a palavra que se fez carne. A vida exige um pouquinho mais de nós. Em algum lugar, um mundo melhor quer nos abraçar. Queiramos abraçar o mundo e, nesse abraço, desarmar tudo o que nos impõe perigo. Por que a guerra? Ainda bem que a esperança não se cansa. Sempre há um sonho para sonhar, mesmo quando o dia demora a amanhecer.

Luiz Carlos de Proença – Autor dos livros: A pele do vento e Humana poesia

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