Publicado desde 1969
Fundado por José Carlos Tallarico

A sensibilidade humana

A voz trêmula e os ouvidos atentos, nada restava em meio àquela calmaria. Aos olhares vazios, tudo parecia escuro. Nada se via, a não ser sombras que se infiltravam pelas frestas da parede. Pairava um sentimento cinzento e nublado, entrelaçado à atmosfera rarefeita que se dilacerava ao vento, entre portas entreabertas.

O silêncio, a voz e uma poesia cantada ao som do vento se misturavam em um murmúrio tácito. A casa, vazia, tinha as janelas trancadas, sufocando asas e abelhas que sobrevoavam as cabeças dos transeuntes que ali entravam e saíam. Era um poema de longos versos, sem rima e sem métrica. Uma imaginação sem sal e sem açúcar, torta em suas linhas retas. A vida parecia tênue sobre a horizontalidade do olhar, e a efemeridade dos desejos fúteis planava na superfície dos pensamentos toscos. Sonhos rasantes e pesadelos profundos voavam para longe.

Eram noites e eram versos. Era o escuro frio de uma triste poesia sobrevivendo entre as tempestades. Antes, cantava ao silêncio. Agora, os versos amanheciam sob a brisa mansa do vento ao entardecer. O tempo dizia aos instantes: “ouça o silêncio, ele só quer a paz”. As noites já não conversavam com as estrelas, e os versos seguiam a Via-Láctea, os jardins das flores e a primavera dos sonhos.

Imagem

O mundo das perversidades era o lado sombrio do jardim florido. Os desejos, as necessidades e a precariedade humana se entrelaçavam atrás da porta do acaso, onde o silêncio ouvia a canção da ausência e as sobras alimentavam bocas famintas. A alma, cansada, pedia um sorriso, queria ver as cores da poesia. No quarto abandonado, o cheiro de naftalina envolvia as roupas guardadas e os versos amarelados pelo tempo. Depois alguém ia embora, talvez pela última vez.

E ainda restava aquele sentimento: o mesmo que alimenta a fome nas noites vazias. Nos dias de chuva, a terra comia o barro e aperfeiçoava o ser e sua humanidade. Mas o que buscam as dores nas pétalas da flor? O alívio em conta-gotas e a febre em trinta e oito graus. As flores feridas e o sorriso da noite escondiam dores entre racionais momentos. Os campos da fertilidade secavam, o capim já não alimentava o boi, e o rio deixava de ver a água que não vinha.

Nas esquinas, contavam-se histórias de gente que perambulava em busca de sentido. Meninos e meninas sonhavam sob asas feridas, insistindo em voar. A matemática do sonho era pura poesia e o “x” da questão estava na essência de cada verso, que inspirava verdade entre o falso e o verdadeiro. A linha tecia a rede, e nela descansava a esperança: o sonho aninhado no penhasco mais alto da nossa altivez.

As flores murchas à margem dos caminhos ainda guardavam o desejo de ser infinito, de ser semente, de ser gente; e depois de tantos lamentos, repousar esplêndidas no âmago da poesia. Rastros seguiam o sol de todas as manhãs; versos entrelaçados teciam novos caminhos e desenhavam o mapa do sentimento. Entre noites, o suspiro do silêncio embalava um sono profundo.

O ser, o verso e a poesia dialogavam com o dia num fraterno abraço com a vida, semeando o jardim da criação. À tarde, extasiada, se esvaía. O sentimento, embrulhado num pacote quase descartável, deixava apenas uma poça de água suja evaporar sob o céu cinzento. O vento, a chuva e as lágrimas umedeciam outras faces em outras manhãs.

Embevecido pelas bênçãos do céu, o poeta escrevia entre nuvens versos que a chuva apagava. A mãe que alimentava a natureza bebia de si mesma, e a vida amanhecia. A poeira, escondida num canto qualquer, entupia as narinas do tempo. Em terras minadas, sementes irrompiam das crostas vulcanizadas, submersas sob vasta imaginação.

A sensibilidade humana, envolta em ternura, repousava junto à preguiça sentada na cadeira vazia da varanda da casa grande cheia de vazio. As dores eram tão doídas, e os instantes evaporavam, enchendo as nuvens de quimeras. As manhãs ainda queriam sonhar e dar sentido aos seus sentidos, que permeavam uma tarde inteira.

O silêncio afagava a pele do tempo e dormia o sono dos versos que humanizavam a poesia. Sob a luz que ainda alumiava o resto da noite, via-se o inesperado pela janela. Depois, restavam apenas passos lentos caminhando pela longa imaginação em algum lugar, em qualquer estação, ou em um tempo qualquer.

As horas passavam e o vento ainda era forte. A areia não queria sair do lugar. Ainda chovia, e a tarde chegava depressa. Do alto dos olhares plácidos, nada se enxergava além de uma tímida imaginação. Apenas os rostos permaneciam entristecidos. E, ainda assim, era belo ver o sol indo embora, as matas e as flores caindo sob o véu da saudade. São sublimes esses momentos e os olhos se fecham por alguns instantes.

Luiz Carlos de Proença – Autor dos livros: O sol nas margens da noite e A pele do vento

Facebook
Twitter
WhatsApp

PUBLICIDADE