Zumbidos. Moscas voavam em seus voos rasantes por praças públicas, púlpitos, gabinetes e palácios. Uma picada aqui, outra acolá, e sucessivamente todo o bosque se contaminará. É a mosca azul, e todos os que são picados por ela se nutrem de poder num lastro de ambição descomunal. O poder pelo poder, o sumo da hipocrisia. Uma mistura sórdida com porções de arrogância, soberba e muito cinismo. Um tempero indigesto para a saúde da sociedade; em contrapartida, um prato saboroso para quem tem fome de poder.
Por que o poder é tão sedutor? Por que a política dá tanto poder aos políticos? Nessa mesma esteira, podem-se questionar os privilégios. Por que tantos privilégios? Benefícios, muitos benefícios. Para que tantos? Arranjos, negociatas, um jeitinho aqui, outro ali, e tudo vai se retroalimentando.
O sistema? Quem alimenta o sistema são os mesmos que se alimentam dele, enquanto o sistema corroído continua corrompendo e se corrompendo. Segundo Maquiavel, a política tem lados: o que acontece diante dos nossos olhos e o que acontece nos bastidores. Será tudo um jogo de cartas marcadas, movido pelo poder? Como será que tudo se ajusta? Esse ajustamento favorece a quem?
Já que estamos em campanha política e a caça aos votos já começou, nada mais oportuno do que escrever sobre o tema. Por onde e como começar? Tenho que achar o “fio da meada”. Escrever sobre política, sobre os políticos e sobre o nosso cotidiano diante deles. “A política é suja” — é comum ouvir isso em meio a tanto lamaçal promovido por maus políticos, o que distorce o verdadeiro sentido da atividade pública. A política é, em essência, um instrumento para gerir a coisa pública, cujo objetivo é a promoção do bem comum.
A política nos manipula ou, melhor dizendo, o poder é manipulado pela política? Será isso? Ou talvez os políticos nos manipulem, usando a estrutura como uma ferramenta que obedece a ordens preestabelecidas? Será que somos manipulados, será que somos ingênuos? A política e o poder. A política e o poder da política. Eu, político? Imagina… Meu universo é outro. Qual é o seu universo? Você precisa se sustentar, e de onde vem o seu sustento? Você trabalha; todos nós precisamos trabalhar para nos mantermos. Acredito que nisso todos e todas estão de acordo.
O que Maquiavel escreveu lá no século XVI move a política até os dias de hoje. Os interesses são os mesmos: a classe política faz política para obter o poder e para se manter nele. Promessas mirabolantes norteiam a cena e desenham um país ideal, mas, depois de eleitos, resta a realidade — o realismo político maquiavélico.
Pensando na política em nível federal, são 513 deputados (as) e 81 senadores (as). Acompanho os jornais e vejo aquelas cenas de homens engravatados e mulheres bem-vestidas decidindo o destino do país, o que interfere diretamente em nossas vidas. Parece que, no Brasil, exercer um cargo político é ter muitos privilégios. Privilégio pouco é bobagem! Quem paga por eles? Lembrando que este ano tem eleições. Dentro de alguns dias começa o horário eleitoral gratuito. Gratuito? Será? E o fundo partidário, para que serve?
Política? Indiferença? É isso mesmo? Enquanto o fanatismo toma conta de grupos extremados que idolatram seus ídolos e mitos, a política continua sendo simplesmente política. Depois que passa esse período de afagos e abraços, o que resta no pedestal é a soberba misturada com hipocrisia, arrogância e mesquinharia.
A política deve ser um instrumento de correção das distorções sociais e precisa fortalecer uma sociedade que respeite os direitos sociais, com uma ética pautada na solidariedade, liberdade, democracia, justiça e equidade. A transformação social através da política depende das nossas escolhas. A qualidade da política depende da qualidade dos políticos. Nós, como sociedade, temos a responsabilidade de escolher bem nossos representantes. Não importa para que lado sopra o vento: o importante é que nossos objetivos, sonhos e anseios sejam impulsionados pela força revigorante da esperança.
Porque, no fim, talvez seja justamente a esperança — e não a mosca azul do poder — que ainda possa contaminar o bosque inteiro.
Luiz Carlos de Proença – Autor dos livros: A pele do vento e Humana poesia



