Os próprios cientistas que contribuíram decisivamente para o desenvolvimento da inteligência artificial demonstram perplexidade diante da velocidade e da dimensão das transformações que essa tecnologia poderá produzir no futuro. Nem mesmo seus criadores conseguem prever com segurança até onde chegará a capacidade das empresas e startups que trabalham com sistemas inteligentes.
O avanço começou com o aperfeiçoamento das redes neurais artificiais, modelos inspirados, ainda que de maneira simplificada, no funcionamento do cérebro humano. Posteriormente, a criação da arquitetura conhecida como transformer permitiu que as máquinas processassem enormes quantidades de informações, identificassem padrões complexos e produzissem respostas cada vez mais elaboradas.
A medicina está entre as áreas que poderão sofrer as transformações mais profundas. Sistemas de inteligência artificial já conseguem analisar exames de imagem, cruzar sintomas com históricos clínicos, identificar riscos, sugerir diagnósticos e auxiliar na escolha de tratamentos. Em determinadas tarefas específicas, essas ferramentas alcançam níveis de rapidez e precisão comparáveis — e algumas vezes superiores — aos obtidos por profissionais humanos.
No futuro, uma inteligência artificial poderá examinar simultaneamente o prontuário do paciente, seus exames laboratoriais, imagens médicas, histórico familiar, características genéticas e milhões de estudos científicos publicados em diferentes países. Enquanto um médico depende de sua formação, experiência e capacidade individual de atualização, a máquina poderá consultar, em poucos segundos, uma quantidade de conhecimento impossível de ser assimilada por uma única pessoa.
Essa capacidade poderá permitir diagnósticos mais precoces, prescrições personalizadas e tratamentos ajustados às condições particulares de cada paciente. A inteligência artificial também poderá acompanhar continuamente os resultados, modificar recomendações e antecipar complicações antes mesmo do aparecimento de sintomas evidentes.
Mais revolucionária ainda será a participação da IA na descoberta de medicamentos. Sistemas inteligentes poderão analisar moléculas, simular seus efeitos, selecionar compostos promissores e reduzir significativamente o tempo necessário para o desenvolvimento de novas terapias. Doenças que atualmente são consideradas incuráveis poderão, no futuro, ser controladas ou definitivamente superadas com o auxílio dessa tecnologia.
Diante desse cenário, surge uma pergunta inevitável: a profissão médica poderá tornar-se obsoleta?
Em algumas atividades, principalmente àquelas baseadas na análise de dados, na interpretação de exames e na comparação de protocolos, a inteligência artificial poderá substituir parte considerável do trabalho atualmente realizado pelos médicos. O profissional que se limita a formular diagnósticos padronizados ou prescrever medicamentos de maneira repetitiva certamente enfrentará uma profunda redução de seu espaço de atuação.
Entretanto, isso não significa necessariamente o desaparecimento completo do médico. A medicina envolve também responsabilidade, julgamento, diálogo, confiança e acolhimento diante do sofrimento. Uma máquina pode identificar uma doença com extraordinária precisão, mas a comunicação de um diagnóstico grave e a decisão sobre tratamentos delicados exigem sensibilidade humana, prudência e consideração pelos valores do paciente.
O cenário mais provável, portanto, não é o desaparecimento imediato da medicina, mas a transformação radical da profissão. O médico deixará progressivamente de ser o único detentor do conhecimento clínico e passará a atuar como intérprete, supervisor e responsável pelas decisões tomadas com o auxílio dos sistemas inteligentes.
A profissão poderá não se tornar totalmente obsoleta, mas certamente se tornará obsoleto o médico que desprezar a inteligência artificial. Os profissionais que souberem utilizá-la poderão oferecer tratamentos mais seguros e eficientes. Aqueles que resistirem às mudanças correrão o risco de serem superados por uma tecnologia capaz de aprender continuamente e de consultar, em segundos, praticamente todo o conhecimento médico disponível.
A grande questão, contudo, não é apenas saber se a inteligência artificial poderá substituir os médicos. É necessário definir quem responderá por seus erros, quem controlará os dados dos pacientes e quais limites serão impostos às empresas proprietárias desses sistemas. A saúde humana não pode ficar subordinada exclusivamente aos interesses econômicos das grandes corporações tecnológicas.
Estamos diante de uma revolução que poderá ampliar a expectativa de vida, democratizar o acesso ao diagnóstico e contribuir para a cura de inúmeras doenças. Mas esse progresso exigirá fiscalização, ética e responsabilidade. A inteligência artificial poderá tornar obsoletas muitas práticas médicas tradicionais; não deverá, porém, eliminar a presença humana justamente no momento em que o paciente mais necessita de compreensão, segurança e esperança.
Mariano Higino de Meira, foi escrivão de polícia, delegado de polícia, vereador, chefe de gabinete, pos graduação em direito público e de Estado, advogado com especialidades em direito bancário, imobiliário, consumidor e trabalhista



