Publicado desde 1969
Fundado por José Carlos Tallarico

A essência do silêncio

Nutre-me sob a luz desta noite escura. Ilumina-me e desbrava os próximos passos. Instiga-me, lança-me ao caos e deixa o silêncio fluir. A essência da poesia é o silêncio que alimenta o verso. Depois de outros momentos, outros versos surgem nas entrelinhas da inspiração. Contemplo os momentos. O belo momento em que a vida somente quer ser vivida. O simples que se faz todo, na totalidade que está em tudo. A essência da vida, embevecida na profundeza do ser.

O essencial aos olhos do mundo. E os olhos que veem suas próprias dores nas dores do mundo. Nada falta, e nossas necessidades estão sempre famintas. Nenhuma palavra poderia ser retirada. Nenhum sentido fica subentendido. E nada mais precisa ser dito, apenas aquilo que permanece no submundo da imaginação.

A poesia do vazio e o verso cheio de sentimentos alimentam o silêncio de uma tarde inteira. E, se roubassem o essencial, morreríamos. E, se roubassem nossas asas, mesmo assim voaríamos. A substância do corpo, a essência e o êxtase de cada momento que se concretiza em todos os instantes. Saudações, congratulações, e o universo acolhe todas as sensações na sensibilidade que inspira o essencial no humano, no amor que amorosamente nos humaniza.

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Nas profundezas da imaginação, o inimaginável corta o silêncio e desfaz o infinito. Imagino um mundo sem que eu possa sentir tudo aquilo que sou capaz de sentir, sem nenhuma tristeza em especial, mas também sem a plenitude de tudo aquilo que a vida oferece.

A chuva que cai, o sol que ilumina e aquece, a lua que clareia as noites escuras e as estrelas na intensidade de seu brilho. As flores nos incansáveis momentos de florir. Os frutos para saciar a vida.

Um barco na solidão do mar, sem o vento para soprar suas velas. Imagino o mundo sem os pássaros, os campos sem a relva e as matas sem as cores da vida. A terra alimenta o fruto entre a exuberância e o mistério deste mundo, nossa casa, nosso lar, a beleza que envolve o todo. A vida em suas mais diversas formas, nos mais inóspitos lugares. A essência e o essencial entre as incertezas do inesperado.

A vida precisa de simplicidade. Das palavras que querem dizer alguma coisa. Dos momentos escondidos em um breve silêncio. E assim é possível ouvir as vozes do mundo, no silêncio que habita em nós. O essencial, a essência, a poesia e os versos se maravilhando com a vida, engravidando-se de êxtase. Doendo por tanto doer, mesmo assim, apesar de estar assim, tudo pode ser exuberante na exuberância e na essência que faz de si mesma a própria essência.

No reino encantado, as palavras estavam em busca de um texto, e a solidão da poesia habitava os versos que haviam perdido o encanto. O açúcar, o sal e o sabor dos tempos entorpecidos em pequenas cápsulas de saudade. No reino encantado, ainda se podia ouvir o silêncio entre as algazarras dos versos. Eram sublimes, e todos os seres dormiam profundamente, com medo de acordar.

— Quem está aí, perturbando a poesia?

— Sou eu — respondi, em silêncio, com uma voz meio sonolenta. E assim seguiram outras noites, em outros tempos, ainda desencantando o mundo sem palavras e sem poesia. Mas algo ainda podia acontecer, mesmo em meio às dores e aos tormentos. O mundo parecia incrédulo diante do futuro escondido entre enigmas e palavras.

— E o sonho já acordou?

— Quem pergunta?

— Alguém que ainda acredita na humanidade. Entre prosa e poesia, tudo se harmonizava. O cosmos, mesmo distante, queria percorrer o infinito, caminhando por vários horizontes. Poetas, poetisas, poesias e a métrica do sentimento. Uma estrofe que alguém escreveu com carvão, colorindo os muros da intolerância. Frases de protesto. Um livro é revolucionário.

A menina, com sua boneca, adentra a mata escura para ouvir e contar histórias dos dias, das noites, de tudo aquilo que a atormenta. Um pequeno livrinho, escondido entre as folhagens secas daquela densa mata, revela medos e segredos. A menina se apossa daquele livrinho envolvido em inocência. Era um sonho em suas mãos. Pensou: era só abrir, e tudo se realizaria.

As páginas eram céus e terras. E tudo se concretizava em belas e exuberantes mensagens. Seria um poema que se perdeu em suas métricas. Um sentimento rebelde, perturbador, que tira dos momentos a paz. Um poema de olhar sereno e lágrimas de cristal que, mesmo assim, não perdeu a capacidade de sonhar.

Quem era o sonhador? A noite dormiu por um instante e acordou em outras madrugadas. Emerso em profundo silêncio, estava a voz da poesia. Era um emaranhado de sons, mas, mesmo assim, perpetuava os profundos sentimentos de uma poesia que só queria sonhar. Nas tardes partidas em lágrimas, os olhares ainda permaneciam distantes. Entre caminhos e trilhas, fragmentos de esperança, ladrilhados por cacos de vidro e versos escritos em sangue.

Já é tarde.

— Quem disse isso?

O tempo? Não. Não é o tempo. O tempo não conversa com ninguém. Ele nos dá a imensidão e a profundidade, a entrada, mas não a saída. Qual é a saída? Talvez a saída esteja no final do infinito.

Luiz Carlos de Proença – Autor dos livros: A pele do vento e Humana poesia

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