Publicado desde 1969
Fundado por José Carlos Tallarico

A complexidade humana entre o tempo, o sentimento e a realidade

Não parece estranho o que está acontecendo? Aliás, nada é estranho. O estranho está na maneira como vemos as coisas. De repente, nada daquilo que parecia ser é o que parecia. O sentido perde o sentido diante da efemeridade de um mundo decadente, dependente. Num momento, estou sóbrio; em outro, sou refém dos meus desejos. Falo de poesia, de política e de coisas que vão além do imaginário. Muitas vezes, o tédio me corrói e me nutre por alguns instantes. Refugio-me no mundo, nesse mundo que me acolhe.

Não sei se esse mundo está em mim ou se eu estou no mundo. Não sei se voo ou caminho; se escolho caminhar, não sei se contemplo a paisagem, se sinto o perfume das flores ou se devo me preocupar com os espinhos. O meu sentimento é um mundo paralelo. Quando a realidade me machuca, viajo pelo subterrâneo das palavras e deparo com a beleza da vida e a magia de viver. Em seguida, volto ao mundo real e vejo a vida acontecer na simplicidade de cada momento que perfaz todo o instante.

Cada um vê as coisas à sua maneira ou conforme a sua conveniência. O nosso reflexo reflete quem somos, e não o contrário. A compreensão das coisas se dá a partir da realidade de cada um. O que temos são superficialidades que atraem os olhares e alimentam o corpo, mas não sustentam a alma. Não importa, nada me importa. Preocupo-me com muitas coisas, mas a única que não me preocupa é o que as pessoas pensam de mim. Intenso, imenso é o infinito.

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Deixa-me ao tempo; vivo este momento e me alimento de instantes. Deixemos isso para lá. Vem ao meu lado contemplar a face que ainda não conheço, fitar os olhos que nunca me olharam. Agora, vai embora e me deixa sozinho, eu e minha solidão. Não tenhas pena nem piedade; prefiro o ódio à indiferença. Então, deixa-me. Não te preocupes: vou me embriagar com um cálice de silêncio. E minha solidão irá sonhar ao meu lado. Talvez eu te encontre em outros sonhos e, juntos, contemplaremos estrelas neste momento que agora se faz eternidade.

Frases de protesto e a melodia suave do vento ao entardecer. Num canto qualquer, talvez qualquer coisa, talvez um sonho tentando esquecer a realidade e se escondendo por entre o vazio do nada. Na mente, apenas lembranças, resquícios de momentos, vestígios de um instante que se faz presente na ausência de um olhar. Mas o mundo não para, para repor e recompor os instantes que se fizeram passado num simples piscar de olhos. Não adianta consertar o que se quebrou; o tempo não se refaz, e as águas correm para o mar.

Talvez alguém me explique o inexplicável, essa complexidade cujo paradoxo seja o próprio complexo humano. Ainda que haja respostas para tudo, haverá perguntas sem respostas. E não adianta dar velhas respostas para novas perguntas. Não será possível explicar o acaso; não sabemos ler o enigma do tempo. Tudo se esvai na perene perplexidade do absurdo. O sentimento apagou o sol no silêncio de um instante que se acabou.

Quem são os autores da divina comédia humana? Imagino o inimaginável e a possibilidade de não imaginar o quanto a solidão é vasta. O sonho não quer sonhar, e a noite parece uma eternidade, mas os olhos querem ver, e as mãos acariciam a face das manhãs. A dor, porém, perpassa a alma e perfaz o caminho sobre as curvas das veredas, sob os olhos do caos.

Não adianta dizer que amas se a realidade está errada. Não adianta vir com meias-verdades, pois, na batalha humana, elas são as primeiras a serem derrotadas. A mente aturdida busca o inalcançável, embora se saiba que o céu é o limite. Não, não vás! Fica mais um pouquinho e se delicie com a doçura das lembranças dos dias que estão por vir. Ainda há voz, mesmo que seja apenas um murmúrio. Ainda há paz, mesmo que esteja distante.

As mãos querem alcançar as estrelas, mas o céu está distante demais, e a indignidade impede que nos aproximemos delas. Não fale que não há mais tempo; não me deixes só em meio à escuridão. Envolvido em êxtase, desfaço-me em silêncio, embriago-me com um cálice de desejo e me perco mata adentro. Não posso ver, não consigo sair: sou um transeunte nessas estranhas veredas.

Não é metáfora, muito menos parábola: é a pura realidade da saga humana, do poder e do querer. Talvez haja outros caminhos, mas há flores mortas e palavras vazias. Ainda assim, o sol aquece, a chuva faz florescer os jardins e um Deus solidário habita em cada um.

Pela fresta da janela, uma réstia de sol e um convite à vida, pulsando incessantemente. De repente, o transcendente se desfigura diante de mim e descortina o paraíso. Volto a mim mesmo e refaço todos os momentos na eternidade de um instante, na louca loucura de um sonho interminável.

Um alento do tempo ao próprio tempo, e as águas fluem, formando outros rios, desertificando corações e mentes, semeando flores no caminho da esperança. Depois das lágrimas, o arco-íris colore o horizonte, trazendo em si a magia das cores. Ouço a melodia do tempo nas canções da vida, sem versos e sem palavras, apenas o silêncio. De momento a momento, faz-se o inexplicável; entre um momento e outro, cabe um instante, e o imponderável fala ao coração. Basta-me apenas o sentimento.

A dureza do caminhar atiça a coragem, e a verdade parece distante, assim como o sol e a Terra. Glorificam-se os vitoriosos, enquanto os derrotados são jogados aos leões. Ousa-se fugir dos castelos de ouro e prata, enfrentando as fúrias dos dragões e dos vendavais.

Criam-se monstros e fantasmas nas noites insólitas para assustar o dia e assombrar homens e animais, e animais-homens. O mundo e seus conflitos, aflições e tormentos; a guerra em busca da paz. Ao lado, dorme a fome; multiplicam-se os olhares assustados e a miséria humana nutrindo a própria humanidade.

Preenche-se o vazio e tenta-se fugir do isolamento nos campos de trigais e ervas daninhas que matam aos poucos, sugando a essência e envenenando o mundo.

Uns falam o que pensam; outros nem pensam: consomem o supérfluo que lhes enfiam goela abaixo. Assim, fica difícil fazer florescer campos e jardins para colher a próxima estação. Todos querem um lugar ao sol e, ao mesmo tempo, todos brigam pela sombra.

Luiz Carlos de Proença – Autor dos livros: A pele do vento e Humana poesia

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