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Fundado por José Carlos Tallarico

A Avareza do tempo

“Quando me pus a considerar todas a obras de minhas mãos, vi que em tudo havia fugacidade e vento que passa. ... Os olhos do sábio estão na sua cabeça, mas o insensato anda nas trevas” Ecl 2, 11-14

Escrevi um artigo sobre as “faces ocultas da avareza” e, para minha surpresa e imensa alegria, recebi várias mensagens e algumas me emocionaram. Em uma delas meu querido sobrinho Fabinho comentou, em uma carta linda e imensa, como o texto o havia tocado profundamente.

Durante décadas tenho me dedicado a estudar os textos sagrados, assim como autores que ampliem meu conhecimento, porém, se consegui, de certa forma, provocar reflexões ou arrisco a dizer: elevar a Deus, tenho consciência de que não foi por obra minha.

Há alguns anos venho pedindo ao “Senhor do tempo” que me ajude a organizar o meu dia, para que possa cumprir com meu propósito (télos) e não me perder nas distrações que a vida oferece. Reconheço que nem sempre tenho conseguido. Por vezes, tenho me perdido em séries intermináveis, novelas, feitas exatamente para que não tenhamos condições de questionar o quanto de tempo gastamos (ou perdemos) com elas.

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Não estou dizendo que seja ruim assisti-las, certamente podemos nos divertir com bons conteúdos, aliviar tensões, abrir a mente para outros caminhos e até mesmo para fazer uma auto avaliação. (E comendo muita pipoca: amo). O que gostaria de refletir é sobre a forma com que nos viciamos em coisas sem sentido, colocando toda a nossa atenção em coisas passageiras, efêmeras. E isto vale para gastos irrefletidos, supérfluos, no acúmulo de coisas, conversas frívolas ou mesquinhas, vícios em jogos de azar ou dependência ao álcool, drogas ou, o comumente aceito: direcionar a maior parte do tempo para as redes sociais.

Qual o tempo que separamos em nosso dia para estarmos diante do Senhor? Como ouvir Sua voz diante da “ditadura do ruído”? Temos tempo de qualidade para aqueles que precisam de nós ou que necessitam de ajuda?

Se não tomarmos a decisão de agir, de direcionar nosso tempo e nos organizarmos, seremos levados por ondas de distrações. E o tempo, que nos parece tão precioso, se esvairá em coisas tolas, finitas.

E a avareza também pode se refletir em momentos de profunda dor, como a morte de quem muito amamos ou diante das tribulações da vida. Quando perdi meu filho Marcos, fiquei voltada para minha dor (inenarrável). Podemos nos perder nos sofrimentos, ficando presos, paralisados ou isolados. Mas somos mais que a dor – temos um destino. Assim, precisamos das virtudes da fé e da esperança.

O apóstolo Paulo revela em Rom 9, 18-20: “Tenho para mim que os sofrimentos da presente vida não têm proporção alguma com a glória futura que nos deve ser manifestada. Por isso a criação aguarda ansiosamente a manifestação dos filhos de Deus”.

A criação, o céu, aguarda, ansiosamente, pela manifestação dos filhos de Deus. Como nos “manifestamos”? Conseguimos surpreender o céu? E quem são os filhos de Deus, não somos todos filhos?

A Sagrada Escritura revela que todos somos criaturas de Deus, porém, filhos são aqueles que fazem a vontade do Pai. E como realizar a vontade do Pai se nos perdemos nas distrações do tempo?

Paulo, em profunda humildade, revela: “Eu sei que em mim, isto é, na minha carne, não habita o bem, porque o querer o bem está em mim, mas não sou capaz de efetuá-lo”.

Ora, se ele, que largou tudo, tudo, em nome de Cristo: fama, poder, riqueza e aceitou a morte por amor ao Senhor, revela que não consegue fazer o bem, que diremos nós, o que temos feito com nosso tempo?

Mas veja que Paulo revela também, no final de sua vida, que estava pronto para aceitar a morte, que vivia em Cristo e que havia “combatido o bom combate”.

Como o apóstolo conseguiu? Certamente no encontro que teve com a pessoa de Jesus – não se encontrou com algo, mas com alguém. Na metanóia, na conversão conseguiu estar e permanecer no Senhor, o Rei do tempo.

É a Ele que devemos recorrer, em Seu olhar amoroso, olhar que nos constrange a sermos melhores, a tratarmos a todos com amor e realizarmos tudo o quanto se espera de nós (surpreendendo o céu), sem a avareza, no tempo que ainda nos resta.

Professora Drª Maria do Carmo Lincoln Paes. Pianista, Graduada em História; Pós-graduação em Filosofia; Mestre em Educação e Doutora em Educação. Email: carmolincoln@gmail.com

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