Há muito tempo venho tentando compreender o início do mal no interior das pessoas, já escrevi sobre esse tema, sobre a progressão da maldade, mas, neste artigo, gostaria de compartilhar algumas reflexões que me vieram à mente após reler a carta de Paulo aos Romanos:
“Porque para mim tenho por certo que as aflições deste tempo presente não são nadas comparadas à glória que em nós há de ser revelada […] Porque a criação ficou sujeita à vaidade, não por sua vontade, mas por causa do que a sujeitou, Na esperança de que também a mesma criatura será libertada da servidão da corrupção, para a liberdade da glória dos filhos de Deus”.
Paulo, dentre outras revelações, afirma que a criação ficou sujeita à vaidade. Repare como isso parece espelhar um cenário atual de nossa sociedade. Estamos sujeitos à vaidade na medida em que nos submetemos e aderimos aos prazeres e conquistas mundanas. Ressaltando que estamos constantemente expostos, principalmente pelas mídias sociais, ao consumismo, ao prazer imediato e, de um modo geral, o egoísmo é profusamente validado na busca pela “felicidade” imediata.
O apóstolo evidencia a condição de escravo daquele que se deixar levar pela servidão da vaidade. Estarmos sujeitos à vaidade representa também estarmos propícios ao mal, recordando que o mal em si não foi uma invenção humana, mas sim angelical. Por isso é tão difícil lidarmos com a maldade.
Mas como se inicia a maldade em nosso interior? Reconheço a complexidade do tema, contudo, dentre outros fatores, quero destacar o pecado da soberba. Repare como o orgulho, a arrogância, remete, em alguns casos, ao anjo decaído retratado nas Sagradas Escrituras. Confesso que sempre achei difícil entender como um Anjo de Luz, feito com amor, ornado com as mais belas pedras preciosas, pôde recusar o amor de Deus e se decidir pelo mal. Todavia, analisando a progressão do mal na humanidade sob diversos aspectos, seria importante destacar que pode ocorrer ou ter ocorrido conosco traços dessa mesma recusa em diversos momentos de nossas vidas.
Repare como há, de um modo geral, uma busca frenética pelo reconhecimento do ego, por status, riqueza, poder, em um consumismo frenético, na propagação e incentivação dos vícios, tais com bebedeiras, embriaguez, uso de drogas, dentre outros. Esses comportamentos anestesiam o grau de consciência, escravizam e nos afastam dos planos de Deus.
Paulo admite que nossa natureza humana, pecadora, está sujeita à vaidade, porém, exorta que podemos nos libertar de nossos pecados, inclinações, tendências, se buscarmos pela Graça, se mirarmos o que nos aguarda: o céu.
Difícil? Certamente. Cada um de nós enfrenta um tipo de prova particular. Mas precisamente nos momentos difíceis, como diante da morte de quem muito amamos, nas doenças, injustiças, enfim, nas provações é que precisamos nos lembrar quem somos (cidadãos celestiais) e para onde caminhamos. Porque a todos é ofertada a Graça, assim como a virtude da fé. Todos recebem essas dádivas, a diferença (o pulo do gato) é que nem todos as aceitam – preferem confiar nas próprias forças, seguir por caminhos em que a presença de Deus não está incluída.
Creio que a evolução do mal, dentre outros fatores, acontece lentamente, por vezes sem que tomemos consciência da mudança provocada em nós mesmos. Acontece diante das decisões egoístas que fazemos, da validação do ego, em que permitimos que o orgulho sobressaia, em que não exercitamos a humildade, não ofertamos o perdão, em que não nos dispomos a acolher o outro.
Repare como essas escolhas é que fazem o diferencial na vida das pessoas. Veja que não é somente o tempo que nos modifica, como também as decisões que tomamos, assim como as renúncias que fazemos em prol do bem. E essas escolhas podem nos transformar a ponto de ficarmos irreconhecíveis.
Conheço pessoas que se tornaram infinitamente melhores com o passar do tempo, expressam amabilidade, bondade, e perto delas sinto a presença de Deus, tenho o desejo de ser melhor também. Algumas, infelizmente, já faleceram, mas continuam a me inspirar, como meus avós e meu filho Marcos. Penso que a providência divina nos cerca com pessoas que exalam até mesmo santidade, diante do grau de bondade, de amor que há nelas. Outras, no entanto, parecem despertar o que há de pior no ser humano, e, por vezes, nem sequer as reconheço, diante da dureza de coração, da constância em atitudes desrespeitosas e que expressam mesquinharias.
Creio que somos testados em nosso convívio diário, diante das circunstâncias, de pessoas (difíceis) e principalmente, por aqueles que fazem parte da nossa família. Para todos seria importante praticarmos a caridade, em todos os sentidos que esta palavra possa abranger, porém, mais ainda para os familiares próximos, e são justamente eles que podem revelar quem somos de fato.
Será que conseguimos perceber com clareza as mudanças operadas em nós mesmos, tanto para o bem como para o mal? E como não sucumbir à fogueira das vaidades?
Diversas respostas poderiam ser apresentadas, entretanto, gostaria de compartilhar uma frase que ouvi certa vez e que, ao menos para mim, define bem o que tanto buscava e no que acredito:
“Jesus nos constrange com Seu amor”.
Para avançarmos em nossa luta particular, para não aderirmos pouco a pouco ao mal, é necessário mirarmos e compreendermos a dimensão do olhar de Jesus! Abraçarmos a Sua causa. E, nessa adesão voluntária, pedirmos por sabedoria, prudência – por caridade. Para que nossas atitudes não sejam expressões de egos feridos, de pessoas mesquinhas, mas, de filhos de Deus.
E, nessa condição, tendo, constantemente, o olhar de Cristo, envolto em Seu amor, ficarmos tão constrangidos ao ponto de não querermos mais ofender Àquele que a quem tanto amamos.
Profª Drª Maria do Carmo Lincoln Paes
Pianista, Graduada em História; Pós-graduação em Filosofia; Mestre em Educação e Doutora em Educação.
Email: carmolincoln@gmail.com