Eu não havia refletido sobre a virtude da coragem, de ser ela uma das maiores, até entrar em contato com as obras de São Tomás de Aquino. Tenho profunda admiração por tudo quanto se refere a ele, desde sua trajetória de vida, como da grandiosidade de suas obras. Vou descrever um pouco sobre a vida do filósofo, a forma como sua história me impactou, para depois comentar sobre o valor da coragem.
São Tomás foi um moço quieto, tímido, introspectivo; vivia debruçado nos livros, dedicando seus dias a estudar e a tentar compreender mais sobre as coisas de Deus. Devido a essas características seus colegas o apelidaram de Boi mudo. Confesso que isso me causou indignação, pela forma jocosa com que o trataram, penso que justamente por ele não se encaixar nos padrões do senso comum, por se destacar por sua singularidade e inteligência. Creio que desconheciam que estavam diante de uma alma sensível, determinada, e que caminhava com o Senhor.
Ele nasceu na Itália, em uma família rica e era o mais novo entre nove filhos. Relata-se que aos cinco anos de idade foi enviado a um monastério para estudar com os monges beneditinos (que dó, tão pequeno) e permaneceu até aos 13 anos, pois, seus pais queriam que ele se tornasse culto, rico, que tivesse prestígio. Sua família não imaginava que ele seguiria a vocação religiosa e não queria que se tornasse um dominicano, devido ao fato de que pediam esmolas e viajavam para evangelizar.
São Tomás usou os pensamentos de Aristóteles para explicar os fundamentos da fé cristã, argumentando que a lógica e a fé se complementam, que podem trabalhar juntas (precisamos muito disso, principalmente no contexto do cotidiano). Acreditava que a “Revelação” poderia guiar a razão e ajudar na prevenção de erros; a razão poderia esclarecer e desmistificar a fé, para que não fosse cega.
Na Suma Teológica ele explica como a reconciliação do ser humano com Deus se torna possível por meio de Cristo. Ele descreve Deus, Sua existência; examina a natureza e o ser humano, com questões como o propósito nosso na Terra, os tipos de leis, vícios, a importância das virtudes, como a prudência, a justiça, a coragem e a temperança, dentre outras. Ele faz a distinção entre virtudes morais, intelectuais e teologais.
Virtudes são hábitos bons, adquiridos na prática do dia a dia, não resultam do acaso, mas sim do empenho individual, da busca constante em agir no bem. Algumas virtudes servem para auxiliar em nossas condutas, como a prudência, que é uma virtude moral e intelectual ao mesmo tempo. Ela é indispensável para que o ser humano aja corretamente, com boas decisões morais, tendo conhecimento das situações, da realidade, com uma análise lógica da mesma, sem precipitações ou impulsividades.
Nas virtudes teologais o próprio Deus vem em nosso auxílio; elas têm a função de orientar em questões que ultrapassam o entendimento humano – ultrapassam a razão, pois pertencem à esfera espiritual.
Vou me deter na virtude da coragem, que me causou espanto quando São Tomás descreve também como fortaleza, e que possui uma dimensão dupla: o lado sobrenatural, vinda de Deus, como um dom, como vemos nos mártires e também seu aspecto natural, como uma virtude que podemos almejar. Coragem é quando não desistimos diante do medo, dos perigos, quando não deixamos o medo nos dominar, paralisar, pois temos um propósito maior, com as ações no bem. Ou seja, na fortaleza existe uma coragem aplicada de nossa parte, para que enfrentemos dores, sofrimentos, provações, sem desistir, mas, há o suporte da Graça, dando-nos força para agirmos, para enfrentarmos com fé e esperança (virtudes teologais).
A virtude da coragem pode nos ajudar a refletir sobre o comportamento humano, a forma como agimos e atuamos em nosso dia a dia, diante das provações, tribulações, para direcionarmos o nosso agir. Sem a coragem, fica difícil agir dentro da justiça, com ações que promovam o bem comum, pois, ficamos presos na intenção – os atos não se concretizam. Por outro lado, veja que a coragem sem medida, sem justiça, deixa de ser corajosa e é meramente ousadia ou temeridade ou mesmo impulsividade ou burrice. Em alguns momentos precisamos realmente da coragem para agir, em outras, sabedoria para a aceitação.
A coragem resulta também de uma lógica, do uso da razão. E muitas vezes precisamos de muita coragem para fazer prevalecer o bem, para não paralisarmos pelo medo, para não nos adaptarmos aos padrões estabelecidos, não nos acomodarmos diante das injustiças, sofrimentos. Ter coragem significa enfrentar com perseverança, voluntariamente, em função de um bem maior – decisão que implica uma grandeza de alma, daquele que age na magnanimidade – no altruísmo.
Coragem é o que tiveram os heróis bíblicos, os profetas, tantos santos e mártires, em que abdicaram de suas próprias vidas por uma causa, com um propósito maior.
Coragem é o que teve minha avó ao perder seu caçula em um desastre fatal, e, mesmo com o coração dilacerado, não reclamou, não desistiu, ao contrário, levantou-se (marchou), seguiu cuidando de todos, mesmo quando foi tomada pela dor lancinante do câncer, que finalmente a levou.
Coragem é o que teve meu marido Roberto ao ver a morte levar nosso amado filho Marcos, e, mesmo diante da dor esmagadora, não desistiu, não desiste: continua a fazer o bem, a cada dia, com pequenos atos de amor e dedicação aos outros.
Creio que em muitos momentos necessitamos da virtude da coragem. Coragem para prosseguir, mesmo quando perdemos a quem muito amamos; quando o caos se instala a nossa volta; quando nos sentimos solitários em nossas lutas pessoais, sem conseguir vislumbrar o que nos aguarda…
A virtude da coragem é maior do que imaginamos. Resulta da decisão em agir no bem, de caminhar com determinação, constância, rumo a um destino que transcende o entendimento humano, pois, tem como suporte o inenarrável auxílio da Graça.
Professora Drª Maria do Carmo Lincoln R. Paes. Pianista, Graduada em História; Pós-graduação em Filosofia; Mestre em Educação e Doutora em Educação.
E-mail: carmolincoln@gmail.com



