Publicado desde 1969
Fundado por José Carlos Tallarico

Esperançando o amanhecer

Acomodado em meu ego ferido, vejo fantasmas desfilando lentamente todas as ilusões transfiguradas nos restos dos dias que ainda querem ver o sol. Atento aos sinais que meus olhos não podem ver, mas que, para os ouvidos, são hinos de redenção. Apego-me em alguns momentos e velejo em meu barco sob as águas limpas que saciam a minha sede. Mas ainda há aquele instante incrustado em painéis imaginários, em vitrais coloridos de catedrais distantes. Mesmo assim, é possível que, em algum lugar distante, talvez escuro, uma chama tenha se apagado ao soprar do vento sobre a janela aberta do casebre solitário.

Talvez já seja tarde. Não importa o que diz o relógio; o tempo consome o próprio tempo, com medo de dizer adeus. Olha, não diga que o mundo é uma coleção de desgostos, tampouco de dores e ferimentos que fazem machucar o sol e as estrelas. Em esquinas esquecidas, em ruas escuras das cidades do mundo ou nos caminhos das grandes civilizações, ainda há quem procure uma saída para o labirinto. Talvez Teseu tenha deixado seu fio em algum lugar, e nós, perdidos entre becos e incertezas, continuemos procurando a porta de saída. Mesmo em sinais de benevolência, sei que há momentos angustiantes em que o descaminho é um horizonte descolorido. Se assim for, seguem as águas dos rios que inundam as margens da imaginação.

Arquétipo do nosso tempo, paradigma do acaso e das boas intenções de um mundo preservado em conserva, misturado com flores de plástico. Acadêmicos de Atenas, herdeiros das perguntas de Sócrates, ainda procuram uma verdade que talvez tenha se escondido entre as sombras da caverna de Platão. Filósofos das auroras boreais do subterrâneo, do surreal emerso pela realidade virtual, conectando os absurdos do submundo. Teorias irracionais da geometria da desumanidade das aldeias virtuais. Pesadelos dos dias vindouros em resquícios de noites passadas, sob a lua cheia, clareando mentes vazias. Os custos bélicos e a balança comercial da nossa hipocrisia humana.

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A parede pintada com bolor do quarto imaginário da princesa de papel e os três porquinhos da floresta de pedra. O coração sujo e as joias roubadas dos porcos selvagens. À beira de tudo, depois dos próximos momentos, dorme o sorriso nos lábios do caos. O livro da noite, um romance da lua ao amanhecer, sob os rios de sol. Talvez alguma página perdida de Borges tenha deixado um labirinto dentro desse livro, e talvez cada corredor leve a outro espelho, onde o homem procura a si mesmo sem saber se encontrará o rosto que procura.

As portas entreabertas e a mensagem do infinito sobre as asas de um pássaro que esqueceu de voar. A montanha mágica do tempo, onde a espera parece alongar a existência, e a meia-idade do absurdo. A retórica do momento de um tempo passado e a beleza do inesperado. A janela do horizonte e o baú das grandes novidades. Kafka talvez sorrisse diante de tantas portas, sobretudo daquelas que permanecem abertas apenas para quem ainda não sabe como atravessá-las.

Alguns pensamentos atingem o inalcançável; outros rastejam sobre superfícies inócuas. Uma outra frase insignificante em outro texto para dizer a mesma mensagem com outras palavras. Qualquer palavra para dizer alguma coisa, para falar e depois calar-se. A mensagem em silêncio quer se calar para ser ouvida em outros momentos. Não sei o que diz o silêncio sob uma tarde de um dia qualquer, esperando que algo aconteça. Não sei ouvir o silêncio, não sei se conseguiria entender tal mensagem. Talvez o silêncio seja apenas a linguagem que ainda não aprendemos a traduzir.

O que quer de mim a dúvida? Num canto da vida, o inexplicável; a lógica da vida é extremamente ilógica de tudo. O caminho nem sempre nos leva ao paraíso. E assim, desfaz-se o dia e faz-se à noite, dando vida ao novo dia e a tudo que está por vir. Na busca de sentido, tem-se a sensação de que tudo passa a não fazer sentido. Talvez sejamos como Sísifo, empurrando diariamente a mesma pedra pela montanha, sabendo que ela voltará a descer quando estivermos próximos do alto. Ainda assim, há alguma estranha dignidade em continuar caminhando. Nos quintais da vida, flores e essência, e um pouco de paz para ver o novo dia.

Quem é você? O que te inspira? O arco-íris tem sete cores. A imaginação é multicolorida e o tempo está passando rápido demais. A poesia do acaso. A crônica do absurdo. O conto da meia-noite e as cantigas de ninar. A fome, a sede e a busca de si mesmo. Talvez Rimbaud tenha razão em procurar uma linguagem para aquilo que ainda não sabemos nomear, enquanto nós continuamos escrevendo com palavras gastas para sentimentos que permanecem novos.

São tantos dias caminhando no mesmo compasso que o tempo parece cansado. A existência humana alimentando o caos e nutrindo-se de si mesma. A beleza de tudo se perde no próprio olhar. Farto o pão, nasce o impossível no terreno imaginário de algum sonho, semeado ao bel-prazer. Folhas secas sobre as pedras da maldade. Frutos podres, e o poder da ambição embebece o ego ferido nos lentos passos da humanidade. Talvez o homem continue procurando uma saída para o próprio labirinto, construindo muros enquanto sonha com horizontes.

Caminha, o caminhar; depois, descansa para ver a lua das noites em sol, esperançando o próximo amanhecer. Porque talvez seja essa a nossa única resposta diante do absurdo: continuar. Continuar mesmo quando a estrada desaparece, quando o silêncio não responde, quando o tempo parece consumir a si mesmo. Continuar como quem empurra a pedra, como quem procura o fio no labirinto, como quem abre uma porta diante de uma paisagem desconhecida. E talvez, em algum lugar entre o caos e o amanhecer, descubramos que o sentido não estava esperando por nós no fim do caminho, mas escondido em cada passo.

Luiz Carlos de Proença – Autor dos livros: A pele do vento e Humana poesia

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