Publicado desde 1969
Fundado por José Carlos Tallarico

O texto que queria escrever a vida

Um texto querendo escrever sobre a vida. Uma folha em branco de um calhamaço cheio de indagações. No quintal ao lado, árvores em verdes páginas desabrocham mensagens ao vento. Em algum momento, tempestades momentâneas, redemoinhos de imaginação sob o sol ardente.

Antes que o texto queira escrever, preciso ler nas entrelinhas do subtexto. Perceber, ver, enxergar a imaginação voando nas asas de uma abelha, de uma mosca ou de outro inseto que se aventure a voar. E os rastejantes? E a força de caminhar em bando, como as formigas? E qual o destino do sapo que chega longe, saltitando? Todos cabem na aventura de imaginar. O que não pode é não imaginar. Não ver, não enxergar as manhãs. Não sentir a suavidade de uma tarde que se deita em uma rede costurada com as linhas do horizonte, esperando a noite chegar.

À noite, o texto, as estrelas e um verso clareando a lua. Letras maiúsculas, um diálogo entre os parágrafos.

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— É noite? Boa lua para vocês.

— Que tal a gente amanhecer para ver o sol? — Perguntou o próximo parágrafo.

— Sim, mas antes temos que terminar de escrever esse texto.

E assim o fizeram.

Depois de um intenso e profundo sentimento que sufocou toda e qualquer imaginação, mesmo assim, ou ainda assim, sem saber o que vinha pela frente, projetava novos desafios e possibilidades de grandes vitórias. Esvaem-se os sentimentos como um rio que se desloca de seu leito. Manifestam-se estranhos e deliberados pensamentos, como se se apropriassem de algo que se encontrava distante. A razão aparece e se oferece como um novo caminho.

Movimentos coordenados mapeavam toda a região inócua e insólita que demarcava a fronteira da imaginação, localizada próxima ao bosque esquecido. Um pensamento metódico dentro de uma caixa mágica, moldurada com platina medieval. No décimo terceiro grau da imaginação, entrando pela décima terceira porta, chegará ao jardim dos tártaros.

Entre o subterrâneo, o contemporâneo e um singelo gesto de modernidade, as coisas se contradizem. Contra o vento, águas provenientes de gelos artificiais, em conglomerados comerciais que vendem ilusões em suaves prestações. O jabuti sobe na árvore para observar a imaginação, na tentativa de inventar ou imaginar novos caminhos. Embora não exista caminho, e muito menos novos caminhos. Mas o poeta diz que se faz caminho ao caminhar.

Lembrando as lembranças guardadas em figuras geométricas para disfarçar as palavras. O comum, o incomum e o subconsumo do substrato nutriente do acaso. O quintal das serpentes e a semente do fruto do conhecimento. O infinito e a aliança firmada entre o paraíso e o jardim devastado. A poeira enche os olhos de lágrimas artificiais. Depois, o sorriso guardado nas faces de outros dias.

Dentro de um pote transparente, é possível ver a imaginação nas asas de um pássaro que alça voo para sonhar em outro horizonte. A roupa amassada e o ferro frio em plena manhã de verão.

E agora, o que dizer? Como alimentar os próximos parágrafos com essas frases famintas? Nutre o vazio com a imensidade infinita da imaginação. Olha ao redor. Está acontecendo algo que valha a pena? Esse caminho é longo, e as noites dormem nas encruzilhadas dos próximos textos.

O menino ainda brinca de imaginar. Escreve suas aventuras nos muros e paredes de um lugarejo cheio de incógnitas. Atravessa o rio profundo sob a ponte construída pelas linhas do horizonte e pela fragilidade humana. Escreve em cascas de árvores, folhas secas e frutos apodrecidos. Uma história da história, iluminada em um feixe de luz transcrito, subscrito e transpassado em algum lugar do tempo.

O sonho amanhece depois de longos dias escondido e perdido nos labirintos de um texto desconhecido. Extasiado pela exuberância da face oculta que quer ser um verso de uma poesia que precisa nascer. A porta entreaberta e um fluido perpassam os profundos sentimentos que alimentam essa imaginação. Um texto imperfeito, retroalimentando-se de si mesmo. Faz, refaz e perfaz.

Tudo é infinito, e o infinito é o voo do pássaro que, no bater de suas asas, reorganiza as maravilhas do cosmos. Sonhar é o tempo de um relógio que se esqueceu de marcar as horas.

Luiz Carlos de Proença – Autor dos livros: A pele do vento e Humana poesia

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