Uma crônica escrita às pressas. Um texto ligeiro, querendo que chegue logo ao ponto final, mas sem transgredir as regras estabelecidas. As palavras vêm e vão, e aquelas que ficam alimentam este texto, sem constranger o seu sentido. E assim ele vai tomando forma, de um jeito ou de outro, ocupando o seu espaço em algum lugar desta página.
Os pensamentos voam fora da órbita dos sentimentos. Pássaros feridos em seus ninhos desfeitos. Árvores de folhas largas e frutos abundantes. Igual à flor que desabrocha na primavera do olhar. Entre mares e sertões, lágrimas e olhares na pupila azul de um céu ao amanhecer.
São passos de uma longa caminhada, são águas de rios profundos. E o tempo? O tempo, pendurado nos ponteiros do relógio, perde-se entre os grãos de areia que enchem a ampulheta da eternidade. Na beira do caminho, casas coloridas e janelas abertas ao vento. Logo em seguida, na próxima curva, uma encruzilhada, duas direções e apenas um sentimento.
E agora, como iniciar este novo parágrafo? Não sei. Vou escrever o que vem à mente; depois, vê-se o resultado. Entre os pensamentos, alguns sentimentos se retraem, talvez por timidez. Mas nada que atrapalhe a construção deste texto. Assim, as palavras vão caminhando, familiarizando-se, conhecendo-se e formando frases, alimentando essa longa imaginação.
Por que escrever? A linha do horizonte na branca folha de papel é um convite para imaginar novas palavras ou dar novos sentidos àquelas já esquecidas. Escrever o mundo em versos e prosas ao final do dia. E, à noite, contar estrelas sob o clarão da lua. Não importa que ninguém queira ler o que escrevo. O que importa mesmo é escrever. Isso basta.
Ainda é tempo. Ainda há tempo de escrever para dizer algo ao próprio tempo. O momento e o instante seguram-se pelas mãos e caminham juntos, sem pressa de chegar. Antes que as luzes se apaguem, escrevo para iluminar a noite que sempre chega. Escrevo para ver a lua e dela me iluminar. Escrevo para sentir as estrelas e, em seu brilho, me esconder.
Por onde caminham os passos incertos nesse duro chão onde ainda brota esperança e nascem sonhos? A maldade humana, assim como a mentira e a flor entre os espinhos. O fruto doce no galho mais alto exige de nós algo mais. Nossos passos tendem a continuar incertos; mesmo assim, caminhamos. Sabemos da nossa coragem, contudo também conhecemos os nossos medos.
Perguntas, até certo ponto, não necessitam de respostas. Indagações de um mundo perdido na periferia do absurdo. A chave do castelo e o vazio das incógnitas escondidos no jardim das decepções. Através do espelho, a imagem tridimensional do egoísmo humano e das trapaças cotidianas.
Como seria se tivéssemos certeza em tudo o que fôssemos fazer? Como seriam as nossas dúvidas? E se os caminhos fossem sempre certos? Haveria somente flores? Não sentiríamos a dor dos espinhos? As pedras do caminho, as margens da consciência e a beleza voando nas asas de um pássaro ferido. A leveza no ar e a poesia esvoaçante de um coração sem fronteiras e sem medo de sentir.
A noite perde-se entre as matas escuras, à procura do fruto imaginado nas manhãs dos dias seguintes. Preciso terminar este texto antes que a imaginação vá embora e o vento leve as páginas em branco de um livro que não quis ser escrito.
Ainda às margens de qualquer caminho, um verso de uma estranha poesia e o cair da tarde em torrentes de chuva e espuma. E, na manhã seguinte, o rastro de um pensamento que passou e os sentimentos em um só coração. Para dizer algo das coisas que escrevo, invento o sol, invento o chão flutuando sobre sonhos distantes.
Leio o mundo e me perco nas palavras emblemáticas que querem dizer coisas que eu entendo. Se entendo, não compreendo, e depois rabisco outras páginas para ver se consigo descobrir novos horizontes. Não quero o sol; quero sonhos, sonhando o infinito entre os olhares. Então, deixe alguém contar o conto de outras noites, mesmo em dias de sol.
Assim, meio devagar, o texto foi se complementando, as palavras dialogando e as frases se formando. A água e o rio entre as flores de um jardim que não tem pressa de florir. Em poesia e dias de chuva, o sol como espectador. E o tempo se esconde entre frases e palavras de uma crônica sem pressa de terminar.
Luiz Carlos de Proença – Autor dos livros: A pele do vento e Humana poesia



