Publicado desde 1969
Fundado por José Carlos Tallarico

Fragmentos de existência

Escrever sobre os assuntos do cotidiano, sobre os eventos humanos e suas condições e contradições. A constituição do todo envolvido na busca, na perda, no caminho e no descaminho. Um texto antigo, reescrito e contemplado sob uma nova leitura. As mesmas “coisas”, as mesmas rotinas que preenchem os dias e cansam a imaginação.

Escrevo o que vem à mente de forma totalmente desconexa. Debaixo dos trigais, descansa a paz tão desejada, tão almejada, mas distante do alcance das mãos que mendigam na próxima esquina. Alguém anda cabisbaixo por entre ruas estreitas, rastejando por um pouco de dignidade; e assim segue a vida, atravessando vales e montanhas.

O sentido das coisas são as coisas sem sentido. Tudo o que quiser está aí: coma e beba à vontade, não faça cerimônia, a casa é sua. Debaixo de uma frondosa árvore, dialogam com a paz a justiça, a solidão e a felicidade, todas em busca de sentido para a própria existência. O futuro é incerto, mas, ainda assim, há a certeza de que ele chegará.

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O mundo está aí, à beira da sua porta. Por favor, entre sem bater, e juntos vamos saudar o sol da manhã, a escuridão da noite e o sereno da madrugada. É outro dia. Vamos conversar sobre a vida, contar histórias e rir de nós mesmos.

Nossa política é marcada pelo fisiologismo — essa relação promíscua do poder nas decisões que favorecem grupos ou bases aliadas em troca de benefícios próprios, em detrimento do bem comum. Essa prática está profundamente enraizada e transforma a política em uma negociata que, infelizmente, já se tornou habitual.

Quando se pensa em política, vêm à mente inúmeras siglas partidárias, e logo nos afastamos de tudo isso. Compreendemos por que isso acontece com tantas pessoas: elas associam imediatamente a política à corrupção e a todos os seus males. Contudo, a política não se resume à política partidária, embora esta seja importantíssima, apesar do excessivo número de legendas existentes hoje.

Cansei de falar sobre esse assunto. E um beija-flor beija a flor. A fruta madura desprende-se do galho e alimenta a terra. Uma mensagem poética e um poeta embevecido pelos versos alimentam as manhãs à espera do sol. A chuva chega de repente e faz sorrirem as folhas e a folhagem. A terra respira, e o céu ainda é azul.

Agora, o rio transborda, e a poesia submersa engole estrelas. O voo da imaginação pousa sobre a montanha mais alta. A ave ferida voa em sua dor, suavizando o próprio canto. Ainda é cedo para partir. Uma flor na janela e o castelo abandonado tornam-se morada das lembranças que ainda vivem entre os versos de uma poesia clandestina.

O ser humano vive entre buscas e contradições. Procuramos a nós mesmos enquanto nos perdemos na próxima esquina. Um pensamento que pensa apenas por pensar. E um sentimento, apenas um sentimento, que se esvai aos poucos entre lágrimas e lamentos.

As guerras, os conflitos e tudo em nós encontram-se à beira do desconhecido. Os momentos são sufocados, a nossa atenção é roubada e, muitas vezes, não percebemos isso. O próximo parágrafo de um livro, um romance sobre o mundo, o ser humano entre a mentira e a verdade. A água é rasa, o rio está quase seco. Bebe-se a sede, alimenta-se a secura da alma e suaviza-se o coração em seu sublime pulsar.

Este texto, estas palavras, são fragmentos da existência sonhando em uma noite de luar. Está escuro, mas ainda é possível enxergar as lágrimas e o sorriso da vida sob o pranto dos amanheceres. Não sou portador de nenhuma mensagem. Apenas escrevo para saciar a minha fome e despertar o sonho em uma fria noite de inverno.

O transcendente perpassa o ser em um momento extático: forma e essência unem-se em perfeita simbiose. Humanizar o humano que há em nós é sermos um pouco mais de nós mesmos, enquanto cada indivíduo constrói e se constrói na edificação do todo. Fazer o bem sem esperar recompensas; agir de acordo com aquilo em que se acredita — não por promessas vindas do alto, mas pela convicção de que todas as pessoas necessitam de cuidado.

Luiz Carlos de Proença – Autor dos livros: A pele do vento e Humana poesia

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