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Fundado por José Carlos Tallarico

As faces ocultas da Avareza

“Porque sabei-o bem: nenhum dissoluto, ou impuro, ou avarento – verdadeiros idólatras! – terá herança no Reino de Deus” Ef 5,5

Desde menina a palavra avareza me pareceu se destacar das demais, representando a personificação do mal: um ser horrendo, envolto em trevas, sempre espreitando, procurando a quem devorar e, ao mesmo tempo, consumido pelo acúmulo de coisas. (Talvez eu não estivesse tão enganada…). O apóstolo Paulo a descreve como um dos piores pecados. Creio que o imaginário social nos remete à ideia clássica daquela pessoa egoísta, que guarda dinheiro, não gasta suas economias ajudando quem precisa, nem reparte o que tem. Isto está correto, porém, a avareza tem outras faces ocultas.

Pode aparecer nas sutilidades, por padrões de conduta validados por nossa sociedade, como o ato de comprar coisas desnecessárias, em um consumismo generalizado (e quem nunca comprou o que não precisava que atire a primeira pedra!); no eufemismo de quem se ache “colecionador”, mas, na verdade, acumula bens de forma insaciável.

Mas há um grau de avareza ainda mais oculto: a forma como usamos (guardamos) nosso tempo. Creio ser necessário nos desvencilharmos de nosso ego para podermos enxergar como temos agido. Refletir como temos tratado o outro, se temos tempo de qualidade para aqueles que convivem conosco, para os que amamos ou os que nos parecem mais difíceis.

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Muitos, assim como eu, podem ter passado pela experiência (terrível) de serem atendidos por profissionais, tanto da saúde, como da educação, que trabalham de forma avara, sem dispensar o mínimo de seu tempo, deixando de passar conhecimentos e cuidados importantes por entender que seu tempo deve ser economizado, guardado! Consultas, atendimentos, aulas executadas de forma rápida, sem o respeito ao outro, pois, o que rege é a avareza do tempo.

E ela tem aparecido nas interações do cotidiano; na forma como os idosos, doentes, são tratados ou descartados; pessoas enfermas, acamadas, vivendo de forma solitária, com a ausência dos familiares – que não possuem tempo para gastar com eles. Crianças “internadas” nas escolas, devido aos trabalhos ou ocupações dos pais (sempre correndo) e que recebem muitas coisas, menos a atenção necessária para se sentirem vistas, amadas.

E há também algo inusitado: a avareza nas interações do trânsito. E se for a hora do rush então, quanta pressa e imprudência. Admiro pessoas que respeitam o outro em suas dificuldades ou limitações ao dirigir, que age com paciência, esperando, abrindo caminho para motoristas, cedendo sua vez, cuidando dos outros como se fossem entes queridos.

Creio que muitos de nós temos exemplos de pessoas que nos inspiram, impulsionam a sermos melhores, pela forma como se doam, como não economizam, em todos os sentidos. Costumo rememorar o olhar amoroso de meu avô Carmo, sua atenção comigo, desde a infância e, no final de sua vida, quando ficava aguardando meu retorno ao lar, após mais uma jornada de trabalho e de Faculdade, em que me perguntava, ternamente, como havia sido meu dia.

Como não se sentir especial quando encontramos alguém que nos concede sua atenção, nos escuta e acolhe, sem pensar nas horas e quanta falta nos faz quando já não está mais ao nosso lado…

Mas veja a cegueira momentânea ou eterna em que nos encontramos: o tempo, que nos parece tão precioso devido à nossa limitação terrena, e que, por vezes, temos a necessidade de “economizar”, pertence ao Cronos, passa por meio das horas, meses, anos, contudo, está contido no Kairós, que é o tempo da eternidade, o tempo de Deus. E não pode ser medido, porque não tem fim: é ad aeternum. E se esvairá de forma mesquinha se não compreendermos sua real magnitude.

Creio ser crucial perguntamos ao Senhor do tempo, ao Rei dos reis, como devemos usar nosso tempo, assim como bens, para direcionarmos nosso dia de forma a completarmos nossa jornada terrena. “Para “combatermos o bom combate”.

O grau de avareza contido em nós determinará o lugar em que estaremos e, com quem estaremos, quando nossa jornada aqui terminar.

Professora Drª Maria do Carmo Lincoln Paes. Pianista, Graduada em História; Pós-graduação em Filosofia; Mestre em Educação e Doutora em Educação. Email: carmolincoln@gmail.com

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