E se o horizonte fosse feito de versos escritos nas faces imaginárias da vida? Como se um rio fosse o céu e as estrelas fossem barcos a velejar a beleza e a profundidade do ser. O ser, para ser, carece do embrião onde a vida floresce; e assim inspira a lírica, mesmo ao entardecer. É como se tudo coubesse em apenas um instante. Faz, refaz e perpassa a sublimidade da concretude humana.
Como descrever um sentimento? O que o alimenta? E as palavras, o que dizem? Seria a poesia, com seus versos, capaz de poetizar o sentimento? Não sei como começar esta homenagem. São tantos pensamentos que vêm e vão, materializam-se e, ao mesmo tempo, esvaem-se. Tenho a impressão de que meus sentimentos são pequenos demais diante da grandeza que lhe habita. Meus textos, poesias, frases e versos parecem insuficientes.
Nas entrelinhas do silêncio, uma brisa suave em cada amanhecer. Um verso tecia levemente a tarde que, aos poucos, fazia-se noite sob o clarear da lua e o brilho das estrelas. No olhar, os infinitos se cruzavam em diferentes perspectivas, como se cada um contemplasse, à sua maneira, o milagre da vida.
Como poesia em lágrimas, versos e pétalas. Mãos sublimes afagavam os corações que sabem amar abundantemente. Mãe: amor que amamenta. Paz para os dias que virão. Mãe nos dias de sempre — e, para sempre, o sempre será presente. Em um instante qualquer, um verso metrificado pelo sentimento, escrito com amor e ternura, torna-se uma profunda poesia: Mãe.
Como materializar um sentimento? Como seria a sua face? Talvez seja difícil até de imaginar; talvez apenas a poesia consiga revelá-la. Talvez a face do amor seja o próprio desenho do amor, e tudo bem se não for perfeita. Os versos sabem dizer o indizível; os olhos, ver o invisível. Assim como a lua, mesmo nas noites mais escuras, não se intimida com a escuridão.
Ouça o silêncio. Tente entendê-lo. Não sei declamar palavras bonitas nem recitar versos decorados. Talvez nem seja necessário seguir esses rituais. Basta escrever o que o coração diz e a alma entende. É por esse caminho simples e despretensioso que o amor costuma transitar. Apenas escrevo; as flores entenderão. O orvalho é a lágrima das manhãs.
Então, semeei um jardim com os versos que me alimentam. Com as noites, velejei em um mar de estrelas e remei sob o clarão da lua. A terra germinou a semente e nasceram muitos sóis para iluminar os dias e aquecer o coração do mundo. As flores enfeitaram os quintais, embevecendo o amor e amamentando a vida em um cenário imemorável e celestial.
Mãe: poesia em movimento. Verso que silencia no silêncio melódico de tudo que é belo. E nessa beleza, tudo se transmuta: cores, imagens, corações profundamente envolvidos em ternura.
Mas também há flores sem jardim, lágrimas em dor. O mundo machuca, fere e sangra o coração de Mãe. Os caminhos pedregosos dificultam a jornada, mas não matam a esperança nem a força de seus passos. Há mães que choram a ausência, o esquecimento. Porque amar, às vezes, também dói.
Toda flor, todo jardim, toda beleza: exuberância de um ser humanamente sagrado. A poesia ainda quer abraçar com o mesmo amor de antes. Mas ainda não encontro os versos para terminar este singelo texto, mergulhado e embebido em poesia.
Porque a mão do amor é a mão da Mãe que afaga mesmo à distância. O sorriso do amor é o sorriso de Mãe; mesmo que triste, ainda assim é sorriso de Mãe. O olhar do amor é o olhar de Mãe; ainda que nos repreenda, olha-nos com o coração. A voz do amor é a voz de Mãe, e é preciso ouvi-la com a alma.
A poesia nasce todos os dias. Ri, chora, emociona-se, entristece. Vive e anoitece. Mãe e verso. Poesia que amamenta, alimenta, sustenta. Mãe do mundo e o mundo da Mãe. Semente que germina, terra que abraça, coração que compartilha.
Os versos escorriam pelas fendas do tempo. Pelas frestas do infinito, fluíam sentimentos em constante êxtase. Os dias de sol e os dias nublados carregam, cada um à sua maneira, a sublimidade dos momentos vividos. E havia um horizonte por entre os versos em pranto, como um afago silencioso nas faces da poesia. Assim se escrevem, uma vez mais, estes versos ao sentimento, com amor e ternura: Mãe.
Mãe: a face humana que se transfigura na face divina. Transpassa e transcende o ser em sua totalidade. Todos os instantes, todos os tempos. A flor, o coração e todos os sentimentos mais sublimes. E os versos de uma poesia… que ainda não consegui terminar. E certamente a poesia nunca termina — porque toda vez que o amor começa, uma Mãe continua sendo verso.
Luiz Carlos de Proença – Autor dos livros: A pele do vento e Humana poesia



