Em um reino onde as leis parecem ser escritas com giz, prontas para serem apagadas conforme a conveniência, a balança da justiça de TRAMPOLIM DA SERRA acaba de ganhar novos pesos. Dizem os pombos-correios que o Rei teria decidido recompensar seus escribas e guardas mais fiéis com o DÍZIMO DA FIDELIDADE: um saco extra de moedas entregue àqueles que aceitarem compor os tribunais internos. O detalhe? Só entra quem já demonstrou total devoção e, por gratidão ou silêncio, aceita as cordas que guiam seus movimentos.
Enquanto a cevada gelada corria na taberna, meu informante me entregou um pergaminho amarrotado. Nele, a prova de que a fiscalização do reino virou um teatro de sombras. A DAMA DOS OUVIDOS SELETIVOS, encarregada de escutar os clamores do povo, estaria ligada à corte pelos LAÇOS DE SANGUE DO CASTELO. Ou seja: as reclamações dos súditos sobre os abusos da nobreza entram por um ouvido e são silenciadas pelo manto da Rainha antes de chegarem ao papel oficial.
Mas o ato mais ousado dessa peça acontece nas estradas. A IRMANDADE DO RODADO REAL, que detém o controle das carruagens que transportam os plebeus, está sob investigação por rodas frouxas e eixos desgastados. E quem o Rei teria escolhido para julgar essas irregularidades? Ora, o alto escalão do CONSELHO DE FANTOCHES: o Alquimista das Telas, o Mestre da Educação e o Guardião dos Selos Reais. Entre eles, brilha a ESCRIBA CENOURINHA DAS LEIS TORTAS, que teria aceitado o fardo de carimbar as absolvições apenas para garantir que seu cofre pessoal nunca fique vazio.
Todo esse teatro, porém, serve a um propósito maior: o RITUAL DAS APARÊNCIAS. O Rei sabe que os SUPREMOS VIGILANTES DAS FRONTEIRAS observam o reino de longe, então ele precisa fingir que há ordem para evitar que os verdadeiros guardiões da lei intervenham. É o cachorro cuidando da linguiça: ele não late para o dono e se mantém quieto enquanto houver o dízimo no prato. Em Trampolim da Serra, nada foge ao controle absoluto do castelo; enquanto os súditos viajam em carruagens estropiadas, o ouro corre solto por dentro das cortinas da Irmandade.
Porém, o castelo não contava com o olhar atento do PEQUENO ARQUEIRO. Pelos arrabaldes e tabernas, ele segue vigilante, ouvindo os sussurros que o vento traz e coletando verdades que a nobreza tenta esconder nos porões da burocracia. O sistema foi montado para que ninguém veja ou ouça, mas enquanto houver uma flecha de verdade pronta na corda, o silêncio comprado nunca será absoluto.
A ética e a transparência deveriam ser o norte de qualquer governo. Porém, ao terminar este relato, sinto alívio por poder dizer que tudo isso não passa de uma fábula medieval. Afinal, seria um verdadeiro absurdo se, em pleno século XXI, comissões de fachada fossem mantidas por dízimos de fidelidade para ludibriar órgãos superiores e abafar esquemas de transporte no mundo real sob o comando de um controle absoluto.
ESTE RELATO É UMA OBRA ALEGÓRICA DE CARÁTER LITERÁRIO. NÃO DESCREVE FATOS REAIS, NEM SE REFERE A PESSOAS OU ENTIDADES IDENTIFICÁVEIS. SUA FINALIDADE É EXCLUSIVAMENTE ESTIMULAR REFLEXÃO SOBRE VALORES SOCIAIS E ÉTICOS. QUALQUER SEMELHANÇA COM SITUAÇÕES OU PERSONAGENS REAIS É MERA COINCIDÊNCIA.



