Publicado desde 1969
Fundado por José Carlos Tallarico

Diante da tela em branco

Eu, aqui, diante não de uma folha em branco, mas de uma tela em branco. Sufocado por notícias sobre política, economia e guerras intermináveis — como se o mundo repetisse, à exaustão, aquilo que Hannah Arendt chamou de banalidade do mal: o cotidiano normalizando o absurdo. As narrativas afeiçoam as faces embrutecidas do poder. O mundo pulsando e corações feridos.

Não quero escrever sobre política nem sobre guerras, mesmo sabendo que essa é a nossa realidade enquanto humanidade. Não se trata de alienação, não é isso. Acompanho atentamente o xadrez político e o cenário que se desenha para outubro — como quem observa um tabuleiro onde, muitas vezes, o rei permanece protegido enquanto os peões desaparecem.

Livros na estante. Poesias, poemas, romances. Tudo imaginado e moldurado em cada verso de uma simples poesia. Talvez porque, como sugeria Octavio Paz, a poesia seja a outra voz do tempo, aquela que resiste quando a história grita alto demais. Conectando frases, contextualizando mensagens apagadas em textos desfolhados de um livro sóbrio. A janela aberta como página de um livro que voa sozinho, perdendo-se em liberdade sob olhares alheios.

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A água limpa e a sede esperam nas margens angustiadas de um rio ao amanhecer — lembrando que, para Heráclito, ninguém atravessa o mesmo rio duas vezes. E, ao amanhecer, um dia inteiro para se embevecer diante dos desafios e das barreiras momentâneas, entre narrativas romanceadas desbravadas em desertos e sertões, onde o homem continua buscando sentido mesmo quando o horizonte parece vazio.

Tudo bem, convenhamos que seja um romance sem final feliz. A história de uma história que fecunda em seu seio o que há de mais belo em um sentimento. Um momento de exuberância ainda que nada seja extraordinário — talvez porque, como escreveu Albert Camus, seja preciso imaginar Sísifo feliz mesmo empurrando eternamente a mesma pedra.

Esta não é uma história. E, se fosse, não estaria nem um pouco preocupado com o final. A felicidade não dá o tom, tampouco as cores vivas como o sol de uma manhã exuberante. As tardes também são belas, assim como a noite e seus mistérios. Se há poesia no ar, respirar faz bem. Só espero que não se contamine e que a ferrugem no sorriso não apague o brilho de alguns versos — como temia Carlos Drummond de Andrade ao perguntar o que resta quando tudo parece endurecer.

Ainda há lacunas a serem preenchidas e um vasto vazio cheio de indagações. O que ainda não compreendemos? O teor melancólico e as mazelas humanas que produzem absurdos e banalidades. A leveza nas faces esquecidas das lembranças, mesmo carregando um pouco de tristeza, também é parte da condição humana — essa matéria frágil que Clarice Lispector transformava em revelação silenciosa.

O relógio na parede descolorida já não se importa com o tempo. Os ponteiros, cansados, escondem-se entre os momentos, distantes dos instantes. Ali, quase ao alcance das mãos, a poeira entre as frestas das paredes abre pequenos clarões. E, entre esses clarões, vestígios de imaginação — talvez o mundo além dos olhares, viajando por milhas poéticas, entre rimas e versos decassílabos de um soneto errante, como se Fernando Pessoa ainda sussurrasse que viver não basta: é preciso sentir.

A mesa ainda permanece vazia, e as migalhas alimentam-se de ausências. Do outro lado, as águas são turbulentas em um rio de tranquilidade. As veredas margeiam as bordas do acaso em ritmo acelerado, lembrando os caminhos incertos descritos por João Guimarães Rosa, onde o real e o mistério caminham lado a lado. As boas-vindas para quem nunca chegou e o retorno do absoluto em um momento em que tudo é relativo.

Absorvem-se as lamúrias e absolvem-se os insensatos. As leis da natureza e a incoerência humana sob o jogo dos algozes. A legalidade e a imoralidade. Os direitos e os privilégios no círculo vicioso do poder — dilema antigo entre o idealismo platônico e o realismo maquiavélico, entre o mundo das ideias e o mundo das estratégias humanas. A vida em alegorias e a divina comédia humana, como se ainda atravessássemos os círculos imaginados por Dante Alighieri.

Entre páginas e sonhos, inquietantes pensamentos. Sob láureas e aplausos, a epopeia do tempo recita versos envoltos em sentimento. É só por um momento e em tudo o que ainda resta. Resta o humano que pulsa: um coração laureado de sentimento. A noite chega — e, como sempre, um novo dia logo amanhece.

Luiz Carlos de Proença Autor dos livros: A pele do vento e Humana poesia

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