Afogado no tempo — esse rio heraclitiano onde nunca se entra duas vezes e o som silencioso que toca corações e mentes. Em paredes e grades trancadas, as incógnitas imaginárias semeadas em jardins devastados, como restos de um Éden exilado. Escorrem entre os dedos os segredos do tempo. Escondem-se no vento, na brisa suave das manhãs. E nos segundos que consomem o ar que respiro. Em tudo, em si, constrói-se.
O ranger da porta do quarto vazio — lembrança proustiana que insiste em permanecer. Uma luz que entra pela telha quebrada. A parede rabiscada, os livros soltos na estante, como se alguém tivesse passado apressado pela memória. E o cheiro de alguma coisa que perfuma o acaso. Uma abstração momentânea subtrai o sumo da hipocrisia, num lastro arraigado que se sobrepõe à superfície do nada, onde o absurdo de Camus sorri sem pedir licença. Enveredado entre as margens da solidão, a fome e a sede sob um rio de águas cristalinas e plantações abundantes — parábola viva da desigualdade humana. Abstrai-me o sorriso das manhãs cinzentas e os olhos embaçados sob a vitrine do caos.
Como se todo momento fosse único um instante e toda a sua intensidade transpassasse e transpusesse os obstáculos que, de uma forma ou de outra, nos impedem de sermos nós mesmos. Em mim, tecem-se as linhas do tempo como lírios do campo que não tecem nem fiam, e memórias na lucidez de todos os instantes. A minha casa, o meu refúgio, as palavras que me acolhem. A poesia que vive os meus momentos, acalenta as dores e alivia o meu cansaço, como quem aprende a existir pela linguagem.
Uma floresta de pedra em flores artificiais. Amar sobre todas as coisas — ainda que o amor já não saiba o próprio nome e o pão sagrado que sacia a fome e saboreia o espírito. O sol entre retas, as armadilhas nas curvas do infinito. Uma centelha, uma réstia de luz sob os restos de sonhos que acordam as madrugadas, como vaga-lumes tardios de Pasolini. Uma palavra em dúvida. Uma frase ambígua. Algo que acontece entre o nascer e o pôr do sol. A chuva, o cheiro da relva molhada, a beleza do inesperado. A certeza semeou a minha estupidez. A incerteza fez-me ver um pouco mais longe — porque só quem duvida aprende. Aprendiz de um mundo estranho, ainda me perco. Sou escravo do que me satisfaz e mendigo de mim mesmo ao sabor da minha liberdade.
A fome do horizonte. As ordens do caos. O abismo de si mesmo entre o caos e o cosmos e todas as minhas incertezas. Ao redor do nada, povoam-se as minhas mediocridades. Dançam os meus sentimentos nas mais suaves e líricas canções, como um canto de esperança para suavizar a alma. Do meu medo alimentam-se os fantasmas do dia seguinte e o futuro dos meus afetos. É o todo silencioso que permeia as minhas mazelas e retrata a minha insignificância diante do infinito.
O princípio do precipício e a lealdade dos anjos entre nuvens periféricas de um céu distante, onde Nietzsche observa em silêncio. O lirismo das manhãs e os desejos conflitantes que permeiam as noites escuras, sob versos delirantes que a lua quer sob os pés.
Uma manhã e o momento que virá. Para os nossos dias, mensagens como pétalas ausentes e flores sem essência no jardim de concreto semeado pela nossa estupidez coletiva. O vento das minhas quimeras levou-me a lugares estranhos. Hoje, ouço canções que falam de mim, mesmo sem saber ao certo quem sou. O vento roubou-me de mim e fez-me herdeiro de versos delirantes que me consomem a todo instante. Trouxe-me o eu nos instantes esquecidos, em versos embrulhados em papéis amassados e amarelados pelo tempo.
Hoje, são apenas versos que me alimentaram até aqui. Dias impetuosos e possibilidades que habitam em mim. Versos machucados pelas banalidades do nosso tempo líquido. Hoje, o sonho não voou, e as manhãs cinzentas tentam esconder o sol. E o voo de um pássaro triste na imensidão de si mesmo — como se Drummond ainda perguntasse: e agora, José?
O amanhã em poesia amanhece às margens do nada. Vou seguindo por caminhos incertos, poetizando versos nas incertezas dos meus passos. Alimento-me das manhãs na vicissitude que me faz seguir adiante. Para sempre, não sei. Não há um sempre para compor o meu sempre.
Um passo de cada vez que insiste em caminhar. E assim a vida vai vivendo. Que a vida seja intensa. Que a alegria seja imensa. Que o sonho seja pleno. Que o riso seja despretensioso. Ah, esse dia! O lirismo sublime de uma suave canção em pleno silêncio ao tocar a profundidade de um coração — onde ainda pulsa, teimosa, a esperança.
Luiz Carlos de Proença – Autor dos livros: A pele do vento e Humana poesia



